Palestinos ‘pagam preço por antissemitismo da Europa’, diz historiador israelense Ilan Pappe na Flip

Especialista no conflito Israel-Palestina foi expulso de universidade no seu país natal por seu trabalho; segundo Pappe, organização da Flip sofreu pressões por conta de sua mesa

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Foto do autor Julia Queiroz
Atualização:
O historiador israelense Ilan Pappe em mesa na Flip 2025 Foto: Reprodução/Flip via YouTube

ENVIADA ESPECIAL A PARATY - O historiador israelense Ilan Pappe, considerado um dos maiores especialistas sobre o conflito na Palestina, participou da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip 2025, em uma mesa chamada pela curadora do evento, Ana Lima Cecilio, de “a decisão mais importante feita pela curadoria (da edição)”.

Autor de mais de 20 obras, entre elas A Maior Prisão do Mundo (Elefante), Pappe conversou com a mediadora Arlene Clemesha no final da tarde desta sexta, 31, diante de um Auditório da Matriz lotado. “Tinha certa pressão pra que eu não falasse para vocês hoje. Sou grato aos organizadores que não cederam à pressão para que pudéssemos falar sobre a Palestina de uma forma livre e democrática”, disse, em sua primeira fala.

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Nascido em Haifa, Israel, em 1954, ele começou a estudar a história do país nos anos 1980, quando foi “exposto para uma história muito diferente da Palestina e de Israel do que a que eu fui apresentado” nas escolas e na sociedade. Decidiu estudar fora de Israel, o que, segundo ele, o possibilitou ver as coisas de maneira diferente e conhecer historiadores palestinos sem a dinâmica de poder.

“Não percebi que desafiar a narrativa da história de seu próprio país seria considerado traição”, disse. “Tive que tomar uma decisão: ser fiel à minha verdade e, com isso, arriscar a minha cidadania na nação e perder contato com amigos, família e acadêmicos, ou ceder a pressão e escrever o que queriam. Tomei a decisão de seguir com a minha verdade e fui expulso da minha universidade.”

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Pappe exilou-se na Inglaterra e seguiu pesquisando a história de Israel. Durante a mesa, ele examinou as raízes históricas do conflito e defendeu a ideia de que ele é fruto de um projeto colonialista que está associado à própria fundação do estado de Israel, em 1948.

“Os palestinos resistiram a ser tratados como prisioneiros. Essa resistência é tratada até hoje como terrorismo. Precisamos começar a tratar os palestinos como anticolonialistas”, apontou.

Pappe acredita que, mesmo se a Palestina tivesse assinado o tratado de divisão proposta em 1948 - algo que muitos historiadores consideram que foi uma das raízes da guerra que veio a seguir -, Israel ainda teria iniciado um sistema de expulsão do povo palestino daquele território. “A única razão para que os palestinos não foram todos expulsos é porque tinha um limite para o que o exército conseguia fazer”, disse.

O historiador aponta que o mundo ocidental tolerou o que chama de “limpeza étnica” porque o Holocausto era muito recente, aliado à islamofobia. “Os árabes não eram considerados tão importantes”, disse. “É como se os palestinos estivessem pagando o preço pelo antissemitismo da Europa”, completou, em outro momento.

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