Quem passou o ano todo sem ler pelo menos um livro sobre a música popular brasileira, não viveu o 2025. Foco cada vez mais do interesse dos ouvintes, sobretudo da nova geração, a música produzida no País salta dos aplicativos de música - ou, pode ser também dos vinis e CDs - para as páginas dos livros.

Entre muitos lançamentos deste ano, o Estadão destaca sete deles. Dois são biografias em sua forma, e de duas personagens revolucionárias, cada uma em sua área: Beth Carvalho e Cássia Eller. Já a carreira de Maria Bethânia é explorada em seus dois primeiros anos.
João Gilberto e Gilberto Gil também foram abordados, mas com recortes mais específicos. O papa da bossa nova é analisado como impulsor de uma revolução na música brasileira, enquanto a obra de Gil é analisada pela perspectiva da cultura e das tecnologias.
Confira a seleção do Estadão:
- 1985- O Ano Que Repaginou a Música Brasileira
- Célio Albuquerque (organização)
- Garota FM Books

O livro de quase 500 páginas traz 85 textos sobre álbuns nacionais lançados no ano de 1985, para mostrar como o período foi importante e plural para a música brasileira. Estão na lista títulos lançados por Tom Jobim, Gilberto Gil, Gal Costa, Francis Hime, Angela Ro Ro, Amelinha, Almir Sater, Fundo de Quintal, Chitãozinho & Xororó e Titãs.
Alguns dos textos foram escritos por quem esteve totalmente ligado ao álbum abordado, como é o caso do maestro e produtor Rildo Hora, que assinou o perfil do disco Ivone Lara, de Ivone Lara, do cantor Daniel, que escreveu sobre Amor, Sempre Amor, dele e do ex-parceiro João Paulo, e da cantora e compositora Amelinha, que contou como fez 30 Anos de Forró.
Na abertura do livro, três textos contextualizam o ano de 1985. Um deles, assinado por Luiz Felipe Carneiro, explica como a primeira edição do Rock in Rio transformou a geração do BRock em ídolos nacionais da noite para o dia.
- Banda Larga Cordel - Cultura e Tecnologias na Trajetória de Gilberto Gil
- Gabriel Marotti
- Letra e Voz

No ano em que Gilberto Gil fez um dos mais importantes shows do ano - que ele afirma ser sua última grande turnê -, este livro lança uma justa e inédita visão sobre a obra do compositor baiano. Fruto de uma pesquisa acadêmica, o autor passa por assuntos cruciais da carreira de Gil, como, obviamente, o Tropicalismo - e como o movimento pretendeu, naquele momento, provocar uma juventude nacionalista engajada na luta contra a ditadura vigente, mas conservadora em termos estéticos.
Marotti analisa canções como Máquina de Ritmos, na qual Gil aborda o avanço das máquinas sobre a produção musical e humana, e Parabolicamará, de 1992, quando a globalização da cultura tomou forma e fez o compositor criar uma de suas letras mais emblemáticas, que brinca com as dimensões temporais do mundo moderno, de acordo com o autor.
Leia também
- Beth Carvalho - Uma Vida Pelo Samba
- Rodrigo Faour
- Sonora Editora

O jornalista e pesquisador Rodrigo Faour faz um abrangente perfil da cantora carioca, nome fundamental do samba. O autor mostra como, assim como Nara Leão foi importante para a bossa nova, promovendo encontros em sua casa, Beth também reuniu os jovens músicos da segunda metade dos anos 1960, movimento definitivo para sua carreira. Sempre atenta, Beth ouvia novos sambistas - foi ela quem lançou, por exemplo, Zeca Pagodinho - e olhava para aqueles que estavam esquecidos, como Cartola, Nelson Sargento e Nelson Cavaquinho.
Faour também relata aquela que talvez foi a maior ousadia de Beth, e que influenciou toda uma geração de sambistas: ao conhecer o Cacique de Ramos, fez questão de levar os jovens músicos para dentro do estúdio pela primeira vez. O resultado está no disco De Pé no Chão, que tem o sucesso Vou Festejar. O samba nunca mais foi o mesmo.
Leia também
- Eu Queria Ser Cássia Eller - Uma Biografia
- Tom Cardoso
- Harper Collins

A segunda biografia sobre Cássia Eller - a primeira, é de 2005 - vai à infância e adolescência da cantora para entender a personalidade tímida e retraída da cantora fora dos palcos e forte e contestadora em cena. Dos barzinhos de Brasília ao estrelato no Rio de Janeiro, Cássia só queria ser fiel aos seus princípios e à música que acreditava ser a melhor para sua voz.
Entre histórias curiosas e bastidores de shows e discos, o livro peca em não ter ouvido nomes fundamentais para a vida e carreira de Cássia, como o músico Nando Reis, produtor dos últimos dois álbuns da cantora. No mais, se faz importante para que novas gerações conheçam uma das maiores cantoras que o País já teve.
Leia também
Biografia de Cássia Eller equilibra polêmicas e a essência da cantora, mas deve ser lida com cuidado
Nando Reis fala sobre Cássia Eller: ‘Ela queria alguém que mostrasse quem ela era, e eu ajudei’
- João Gilberto e a Insurreição Bossa Nova
- Tárik de Souza
- L&PM Editores

O jornalista e crítico musical dá um profundo mergulho na onda da bossa nova a partir do ponto fundamental do gênero: a gravação de João Gilberto para Chega de Saudade, a canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Pode parecer mais do mesmo, mas não é. Souza busca as raízes da música feita no período e desmente que ela tenha sido criada apenas por brancos da zona sul carioca. O pianista e compositor Johnny Alf ganha os devidos créditos por fundir jazz e ancestralidade afro.
Uma das provocações do autor vem logo no prefácio: “enquanto você lê [este livro], ele continua sendo escrito mundo afora”. Verdade. A bossa nossa, quase setentona, nunca sai de moda.
Souza mostra isto muito claramente ao trazer esclarecedoras entrevistas com nomes como Gilberto Gil, Ivan Lins, Eduardo Gudin, Joyce Moreno, Emicida e tantos outros. Todos eles influenciados, de uma maneira ou de outra, pela bossa nova.
Leia também
- Letrux - Em Noite de Climão
- Roberta Martinelli
- Cobogó

Da excelente série O Livro do Disco, que já destacou álbuns clássicos de Nara Leão, Gilberto Gil, Beth Carvalho, David Bowie, entre outros, este volume se dedica ao primeiro disco solo da atriz, cantora e compositora carioca Letícia Novaes, lançado em 2017.
A autora, que é apresentadora do programa Som a Pino, na Rádio Eldorado, relata o difícil período entre o fim do duo Letuce, que Letícia formava com o músico Lucas Vasconcellos, e a decisão da cantora em seguir na música. Feito por meio de financiamento coletivo, o álbum chamou atenção ainda na fase de arrecadação de recursos por meio da vaquinha virtual.
No capítulo faixa a faixa, Martinelli conta como músicas como Vai render e Ninguém perguntou por você foram feitas.
- Maria Bethânia, Primeiros Anos
- Paulo Henrique de Moura
- Letra e voz

Resultado de uma pesquisa acadêmica, o livro investiga os dois primeiros anos de carreira da cantora - 1964 e 1965 -, quando ela se apresentou em shows como Nós, Por Exemplo, ainda na Bahia, e Tempo de Guerra, no Rio de Janeiro, espetáculo escrito pelo dramaturgo Augusto Boal especialmente para ela.
Estrela da carreira de Bethânia e do livro - é este show que a cantora tem como seu marco de estreia -, Opinião é analisado sob o ponto de vista político e social. Uma curiosidade importante: o autor revela que Bethânia foi convidada para um teste e não para substituir automaticamente a cantora Nara Leão que estava deixando o espetáculo.
A prova de fogo de Bethânia, diante de Boal, teve uma boa dose de poesia e genialidade, tal qual como seria o caminho da cantora dali por diante.






