Se não fosse pelo show histórico que Alice Cooper fez no Brasil em 1974, talvez o País hoje não fosse a tamanha potência no mercado mundial do show business. Foi graças a estrondosa apresentação do astro norte-americano no Anhembi, para 158 mil pessoas, que tudo mudou. Pouco depois, bandas como Genesis, Queen e Van Halen fariam excursões por aqui, abrindo caminho para o Rock In Rio de 1985 impulsionar a realização de grandes espetáculos em terras tupiniquins.
Mais de cinco décadas depois, a lenda do rock retornou a São Paulo pela 7ª vez, oito anos após abrir show do Guns N’ Roses no Allianz Parque, dessa vez para exibir seu fenomenal desfile de horrores no Parque Ibirapuera.
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O pai dos pesadelos, de 77 anos, foi escalado para comandar a fria noite deste sábado, 14, do festival Best Of Blues & Rock, depois das atrações nacionais Black Pantera, Larissa Liveir e os remanescentes do Charlie Brown Jr., Marcão Britto e Thiago Castanho.
O alter ego de Vincent Furnier subiu ao palco às 20h30, diante de cerca de 10 mil almas sedentas para serem assustadas. Um trecho de Lock Me Up foi escolhido para apresentar o vilão mais notório do rock. “Se você não gosta, pode me prender”, cantou Cooper, com seu traje característico, exalando arrogância e soberba.
Welcome To The Show, do recente álbum Road (2023), deu sequência ao clima introdutório antes da trinca de clássicos setentistas: No More Mr. Nice Guy, I’m Eighteen e Under My Wheels. Nelas, o artista ostenta voz preservada e fisicalidade invejável para um septuagenário.
O telão do festival, projetado na estrutura do Auditório Oscar Niemeyer, é monumental e faz jus à importância do evento. A banda de Alice, que o acompanha há vários anos, é vigorosa e traz frescor ao repertório, com destaque para a guitarrista Nita Strauss e o baterista Glen Sobel, talentos de uma geração mais jovem.

Naquele que era um dos segmentos mais aguardados da noite, durante Snakebite, o astro desapontou ao não exibir sua famosa cobra. Seria receio de furto do animal, trauma do ocorrido com Rita Lee em 1974, ou um mero problema burocrático para trazer o réptil dos EUA?
A peça de horrores ganhou contornos macabros com as “mortes” de uma “fã” e um “fotógrafo” durante He’s Back e Hey Stoopid. Em Go To Hell, o roqueiro enforca a dançarina, interpretada por sua mulher, Sheryl Cooper. Já em Cold Ethyl, ele baila com um “cadáver”.
Poison, hit radiofônico do fim dos anos 80, despertou euforia e muitas gravações de celulares no gramado do parque. Ao final da canção, Alice desaparece e retorna em Ballad of Dwight Fry, cantando amarrado em uma camisa de força e escoltado por um carrasco, o qual ele consegue apunhalar com uma faca.
Então, Sheryl Cooper retorna ao cenário, dessa vez encarnando uma espécie de assombração inspirada em Maria Antonieta. Ela consegue apreender o cantor, beijá-lo e mandá-lo para a guilhotina, enquanto a banda toca Killer e I Love The Dead. Sheryl exibe a cabeça “decapitada” do marido como um troféu, para delírio dos fãs.
As luzes se apagam, o sinal escolar dispara e Alice retorna ao palco, renascido, vestindo fraque e cartola branca, para entoar seu maior hino: School’s Out, com direito a um pedaço de Another Brick In The Wall, do Pink Floyd, música-irmã na luta contra o autoritarismo do sistema educacional. É a combinação perfeita.
No bis, com quase 1h30 de exibição, ainda há tempo para Feed My Frankestein, com o vilão trazendo seu monstro de estimação. É a cereja do bolo no circo das trevas promovido por uma figura seminal da música pop – que está interessada, no âmago de toda a parafernália visual, em investigar a linha tênue entre o bem e o mal.
O Best Of Blues & Rock, um dos festivais mais interessantes do Brasil, começou nos dias 7 e 8, sob as rédeas da Dave Matthews Band, e termina neste domingo, 15, tendo o Deep Purple como headliner.






