Bethânia traz a São Paulo seu show histórico com repertório para fãs intensos; saiba o que esperar

Fugindo de fórmulas fáceis, a cantora baiana entrega um espetáculo primoroso, com inéditas e músicas de Chico, Caetano e Angela Ro Ro

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Maria Bethânia: 60 Anos de Carreira chega a São Paulo neste sábado, 4, para oito datas no Tokio Marine Hall depois de uma temporada triunfal no Rio de Janeiro — seis antológicas apresentações no Vivo Rio, desde a estreia em 6 de setembro. Dispensando fórmulas greatest hits ou apelos sentimentais que evoquem uma despedida, é um show histórico de fato.

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Aos 79 anos, com o contralto semiárido bem preservado, Bethânia comanda um espetáculo primoroso — com direção geral e roteiro dela mesma, textos selecionados pelo poeta Eucanaã Ferraz, direção visual de Otávio Juliano e luz de Maneco Quinderé.

No palco, a cantora baiana reafirma o encanto e a riqueza de um Brasil ao mesmo tempo singular e plural, rural e urbano, místico e progressista, dolorido e alegre, que resiste a depredações, divisões e campanhas de ódio. Com aura mística e um quê de entidade sobrenatural, mas sem deixar de lado a manemolência (com direito a sambadinha no terço final), dando seus recados em uma narrativa de voz, corpo e imagens impactantes.

Maria Bethânia iniciou a turnê dedicada a seus 60 anos de carreira no Rio de Janeiro; neste mês de outubro, ela se apresenta em São Paulo Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Por natureza, um show celebrando a longa trajetória de Bethânia parte de bases diferentes dos setlists montados por seus contemporâneos. Porque, em que pese toda a força da discografia, a carreira dela girou mais em torno do palco, com espetáculos trabalhados conceitualmente e com elementos teatrais.

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Muito mais que um desfile de canções apoiado por poemas, luz e vídeos, Maria Bethânia: 60 Anos de Carreira revive momentos emblemáticos de outras temporadas. Rosa dos Ventos (de Chico Buarque), por exemplo, evoca com efeito catártico na plateia o show de mesmo nome de 1971. As raras Encouraçado e Demoníaca reapresentam o poderio do clássico espetáculo Cena Muda, que marcou época no Teatro Casagrande, em 1974, fazendo também bela homenagem à autora Sueli Costa (1943-2023), uma das grandes melodistas de uma MPB não óbvia. Diz Que Fui Por Aí, de Zé Kéti (parceria com Hortêncio Rocha) evoca o princípio de tudo, no show Opinião (1965), com aceno a Nara Leão (1942-1989).

O saboroso programa do espetáculo, distribuído gratuitamente aos espectadores, reforça essa importância, elencando todos os shows da carreira (juntamente com os discos) e dando um ótimo mapa para referências e sentidos complementares do que Bethânia apresenta.

Entre os recursos de apoio, estão impressionantes imagens de ondas do mar em slow motion (de Philip Thurston), a imensidão das florestas de Sebastião Salgado, um alerta dramático do líder do povo ianomâmi Davi Kopenawa, o convite de Clarice Lispector a ouvir música com o corpo inteiro, a celebração do feminino nos versos do português Herberto Helder e um recado libertário (de Dora Fischer Smith): “Estou vivendo o mais plenamente possível com o que tenho”.

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A maior surpresa, porém, é na roupagem sonora. A direção musical é de Pedro Guedes, compositor, arranjador e produtor formado na UNIRIO, com mais de vinte anos de experiência em trilhas sonoras de documentários jornalísticos e transmissões esportivas de TV. Ele divide arranjos com o veterano baixista Jorge Helder, band leader de Bethânia há 12 anos (toca com ela desde 1990) e com o jovem tecladista Thiago Gomes (que também trabalha com Anitta). A síntese dessa inusitada triangulação revigora musicalmente Bethânia (que, é verdade, já vinha renovada pela turnê Caetano & Bethânia).

O trio de vocalistas formado pelos irmãos Janeh e Fael Magalhães com Jenny Rocha é um dos trunfos, abrindo o show com citação de Iansã (de Caetano e Gil). Crias da Baixada Fluminense, Janeh e Fael trazem influências da música de louvor, “sincretizando” sem preconceitos arranjos para temas como Ponto de Iemanjá (Gamo da Paz e Yomar Asogbã).

Em sua nova turnê, Bethânia canta música inédita feita a partir de letra deixada por Rita Lee Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Impossível deixar de notar a contribuição vivaz dos sopros — o incrível Jessé Sadoc no trompete e no flugelhorn; Marcelo Martins no sax tenor —, o toque especial de Paulo Dáfilin na viola (também no violão e na guitarra) e o guitarrista Pedro Sá (ex-banda Cê).

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Madrinha artística de Angela Ro Ro (1949-2025), e uma das raras colegas a apoiá-la economicamente até os últimos dias, Bethânia estreou o espetáculo quando ela ainda estava internada (veio a morrer em 8 de setembro). O roteiro inclui duas de suas canções, em sequência; a primeira é Mares de Espanha (lançada originalmente no LP de estreia de Ro Ro, em 1979); a segunda é o tour de force Gota de Sangue, gravada no álbum Mel, de 1979.

Outra grande amiga e também grande cantora, Nana Caymmi (1941-2025), morta em 1º de maio, foi celebrada com um texto carinhoso do poeta Eucanaã Ferraz e com a interpretação de Sussuarana, toada sertaneja quase centenária de Heckel Tavares e Luiz Peixoto, registrada em Brasileirinho, álbum de Bethânia de 2003.

Novo show de Bethânia traz poucos dos sucessos consagrados da cantora baiana Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Sim, o repertório é mais para os fãs “mostra que tu é intenso”, traz apenas um punhado de blockbusters: Olha, de Roberto e Erasmo Carlos, o ex-jingle de motel Cheiro de Amor (de Duda Mendonça, Jota Moraes e Paulo Sérgio Valle) e Tocando em Frente (Renato Teixeira e Almir Sater). Tem também quatro canções de Chico Buarque (Mar e Lua, Baioque, Rosa dos Ventos e Samba do Grande Amor) e quatro de Caetano Veloso, começando, na abertura, com a metafísica Sete Mil Vezes (que Bethânia só havia cantado ao vivo no show Dadaya, de 1989), Taturano, Genipapo Absoluto (apenas citada) e, em ótima surpresa, Podres Poderes, comentário político de 1984 que segue afiado.

A porção de canções inéditas é generosa e de boa qualidade. Começando pelo samba de roda Balangandã (Paulo Dáfilin e Roque Ferreira), Eu Mais Ela (Chico César) e o fado Se Não Te Vejo (de português pop Pedro Abrunhosa, com Jorge Helder ao violão). Em Palavras de Rita, feita a partir de uma letra deixada por Rita Lee (1947-2023) para Bethânia e musicada por Roberto de Carvalho, vem a comoção geral da plateia, misturada ao fascínio pelo inusitado lirismo metafísico-biológico: “Hermafrodita, da água respirei a vida (...) da fêmea que nasci, homem/ eu me transformei em mim/ do Deus que duvidei, um sim/ das mortes que vivi no além/ dos vícios que virei refém/ dos bichos que sou felina/ da velha que estou menina”.

Mas o recado mais forte fica para a quinta inédita, a última música antes do bis: o samba épico Vera Cruz, parceria de Xande de Pilares com o veterano carioca Paulo César Feital que perfila Bethânia como representante aguerrida de um Brasil afroindígena, “pátria de Exus”, com espaço para rima de Quelé (a mitológica cantora Clementina de Jesus — 1901-1987) com Chico Xavier (o médium e líder espírita —1910-2002). Ao final, Bethânia cita seu primeiro sucesso (Carcará, de João do Vale e José Cândido), arrematando, com toda a autoridade: “Pega, mata e come”. De fato.

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Maria Bethânia

Quando: 4, 5, 11, 12, 18, 19, 25 e 26 de outubro. Onde: Tokio Marine Hall. R. Bragança Paulista, 1.281, Chácara Santo Antônio. Quanto: a partir de R$ 490

Análise por Pedro Só

Jornalista especializado em música

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