Fernanda Takai sobre mudanças climáticas: ‘Descompromisso levou à emergência que vivemos hoje’

Cantora de 54 anos, fundadora do Pato Fu, fala sobre envolvimento em causas ambientais, expectativas para a COP-30 em Belém e negacionismo; ela comandará o programa ‘Planeta Eldorado’ de 5 de setembro até o fim de novembro

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Foto do autor Gabriel Zorzetto
Foto: Magê Monteiro/Divulgação
Entrevista comFernanda TakaiCantora

Na canção Sobre o Tempo, lançada pelo Pato Fu em 1995, Fernanda Takai pedia para que o tempo fosse “amigo” e “legal”, especialmente em momentos difíceis. Trinta anos depois, a cantora continua expressando esperança similar, mas ciente de que a humanidade corre contra o relógio e precisa estabelecer compromissos emergenciais para preservar o meio ambiente.

Voz ativa pelas causas ambientais, Fernanda vai assumir pela primeira vez o microfone como apresentadora de rádio. Ela vai comandar Planeta Eldorado, novo programa especial da Rádio Eldorado dedicado à COP-30, com 13 episódios. A atração, também disponibilizada em podcast, será transmitida às 11h das sextas-feiras, a partir de 5 de setembro até o fim de novembro.

A artista de 54 anos é movida por uma pluralidade cultural singular. De ascendência japonesa e nascida na região florestal da Serra do Navio, no interior do Amapá, ela despontou em Belo Horizonte, onde reside até hoje. Além do Pato Fu, desenvolveu uma bem sucedida carreira solo, marcada por colaborações com diversos nomes que vão desde Roberto Menescal até Andy Summers. Escritora prolífera, ganhou o Prêmio Jabuti em 2017 na categoria Infantil Digital com o livro O Cabelo da Menina (Ed. SESI-SP).

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Nesta entrevista feita por telefone, Takai compartilhou suas expectativas para o evento da ONU em Belém, o papel do Brasil nessa equação, negacionismo, entre outros temas. Leia a conversa completa abaixo.

Fernanda Takai, cantora e compositora, vai apresentar série 'Planeta Eldorado' na Rádio Eldorado Foto: Magê Monteiro/Divulgação

Como surgiu a ideia de produzir essa série e o que os ouvintes podem esperar?

Eles [pessoal da rádio] tinham pensado sobre essa programação, conversando com especialistas, tentando clarear alguns conceitos da COP-30, e estavam pensando em um voz que fosse diferente. Acho que eles pensaram em mim pela proximidade que tenho com a audiência da Eldorado, sendo frequentadora com as minhas músicas e também com várias entrevistas na programação. E, talvez, através das minhas redes sociais, eles tenham percebido que em Belo Horizonte eu tenho me envolvido muito com algumas campanhas sobre o meio ambiente, sobre preservar áreas aqui que estão sendo colocadas à venda ou são negligenciadas pelo poder público. Talvez também tenham se lembrado que eu nasci no meio da floresta amazônica, na Serra do Navio, no Amapá.

Nesse sentido, tem algo específico hoje no Brasil que te machuca muito em relação ao desmatamento, por exemplo?

Em Belo Horizonte temos questões que são um reflexo do país. Esse tipo de política que pensamos globalmente tem que começar nas nossas atitudes locais. Mas eu, lendo, por exemplo, o livro da Eliane Brum [Banzeiro Òkótó], sobre essa experiência que ela teve de testemunhar o mal que aconteceu com Belo Monte [complexo hidrelétrico na parte norte do Rio Xingu, no Pará], mesmo durante um governo que teoricamente está muito ligado às questões [ambientais]. Eu sou super admiradora da presidente Dilma, mas erros foram cometidos e temos hoje uma população indígena muito doente, sem terra, sem função na vida. Acho que a questão mais atual é a provável exploração de petróleo naquele mar do norte do Amapá. Temos que ficar muito atentos para ver para onde isso vai. O Pantanal é outro ecossistema também em perigo.

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Escritora prolífera, Fernanda Takai ganhou o Prêmio Jabuti em 2017 pelo livro 'O Cabelo da Menina' Foto: Rafael Arbex/Estadão

Sobre a COP-30, quais você acha que seriam as metas necessárias para mitigar os efeitos das mudanças climáticas que podem ser apresentadas? E como os países podem garantir que essas metas sejam cumpridas?

Eu gostaria muito que pelo menos o que foi acordado ao longo dos anos fosse cumprido. Temos vários países se reposicionando, tirando verba e [assumindo] posições políticas completamente contrárias. Acho que o descompromisso ao longo do tempo levou à emergência que vivemos hoje. Eu gostaria muito que fosse uma conferência que saísse do papel. Temos que ter comprometimento agora. Não temos mais como planejar o futuro do jeito que foi planejado lá na Rio-92, porque as coisas não foram cumpridas.

O Brasil, como figura central, está preparado para assumir esses compromissos?

Eu fico muito feliz de ver a Marina Silva, uma mulher muito inteligente, mostrar didaticamente tudo que ela sofreu e os ativistas sofrem. O Brasil, mesmo nos últimos governos, na figura da ex-ministra Izabella Teixeira também, é composto por pessoas que realmente estiveram e estão muito empenhadas nisso. O governo do presidente Lula tem, muito mais do que o governo anterior, noção de que o papel do Brasil é fundamental. Tivemos grandes planos no passado, mas a vontade de execução é o que mais importa. Alguns países voltam atrás. Os Estados Unidos voltaram atrás em vários pontos, não só de meio ambiente, as questões econômicas também. O Brasil tem que liderar mostrando que é um imenso integrante nessa rede de países e que pode fazer essa engrenagem andar. Espero muito isso.

Como você reage aos comentários dos negacionistas?

Eu até cantei uma música, que se chama Terra Plana. Temos que usar muita paciência e muita educação para poder lidar com pessoas ignorantes. Alguns terraplanistas nem escutaram essa música e acharam que eu era do lado deles. Mas a canção é uma grande crítica aos terraplanistas. Veja só o nível de pessoas que estamos lidando. Mas eu acho que o diálogo sempre é a melhor coisa. Nunca vou reagir da forma como eles fazem. É ter paciência e esperar que alguma luz acenda para eles, porque eles estão completamente no escuro.

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O altruísmo é uma peça-chave nessa conversa. Como você avalia esse elemento na sociedade, de modo geral, ainda mais depois dos impactos da covid-19, quando alguns diziam que nós poderíamos ficar mais altruístas e menos egoístas depois da quarentena?

Hoje eu fico triste em perceber que algumas pessoas deixam de tentar estudar ou encontrar uma carreira porque vão ser influencers. Tem gente que quer um jeito rápido de ganhar muito dinheiro. Quando você vê um Donald Trump voltando ao poder, acho que é um péssimo exemplo de uma pessoa que só pensa nele. Eu não sou dessas pessoas. Eu gosto dos animais, gosto da natureza, gosto das pessoas que ainda pensam no conjunto. Eu não tenho esse desespero por ganhar dinheiro e nunca tive.

De ascendência japonesa e nascida na região florestal da Serra do Navio, no Amapá, Fernanda Takai criou o grupo Pato Fu Foto: Dudi Polonis/Divulgação

É dever do artista apontar o que está errado no mundo?

Eu não diria apontar, porque a gente não tem certeza de tudo que é certo ou errado. Mas eu acho que o artista deve pautar na nossa arte alguns assuntos, ou sobre os quais temos dúvidas, ou sobre os quais damos voz para quem precisa.

Para encerrar: como essa sua pluralidade cultural, de ter ascendência japonesa, ser nascida no Amapá e fazer história em Belo Horizonte, desenvolveu o escopo da sua obra musical e ajudou a moldar uma banda tão fora do convencional como o Pato Fu?

O Pato Fu completa agora 33 anos. É muito tempo para uma banda tão improvável e que nunca teve um rótulo muito confortável. Quando a gente era colocado na turma do pessoal pop, nos achavam muito estranhos para o pop. E achavam que éramos muito bobinhos para o heavy metal. Muita gente começou a gostar do Pato Fu porque ouviu uma música na novela, e aí descobriu que conhecia outras músicas e passou a gostar também das músicas esquisitas. O papel do Pato Fu no mundo é tornar as coisas improváveis também duradouras.

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