Foto: Divulgação/Simply RedDoce como a música do Simply Red, o cantor Mick Hucknall se apresenta ao repórter do Estadão: “Sou o anjo Michael (Miguel) e você é o anjo Gabriel”, diz, por telefone, prestes a conceder uma breve entrevista antes do show que a banda inglesa fará em São Paulo, no Allianz Parque, em 15 de março.
Responsável por algumas das baladas pop mais marcantes dos anos 80 e 90, como If You Don’t Know Me By Now e Stars, o grupo formado em Manchester está celebrando quatro décadas de história com uma mega turnê mundial.
Será a 8ª visita ao Brasil desde 1988, quando o festival Hollywood Rock reuniu alguns dos principais expoentes daquela década. Com o País, a relação é tão boa que o músico até já gravou uma cena para a novela Celebridade, em 2003, cuja faixa You Make Me Feel Brand New integrava a trilha do folhetim da Globo.
Nesta conversa, o britânico de 64 anos falou, dentre uma série de temas, sobre ter sido criado pelo pai após ser abandonado pela mãe aos três anos de idade. Tempos depois, ele canalizou a dor do trauma na canção Holding Back The Years, que hoje lhe desperta uma emoção diferente.
Como entusiasta do Partido Trabalhista do Reino Unido, ele também compartilhou suas visões sobre o futuro da nação e explicou os motivos que o levaram a realizar uma turnê de despedida com o Simply Red entre 2009 e 2010, antes do grupo retomar as atividades em 2015.

Devo chamá-lo de Mick ou Sr. Simply Red, como alguns te chamam?
O nome da banda é baseado em mim. Eu sou Simply Red. É um pouco dos dois. Lembra da banda dos anos 70 e 80, Blondie? A Debbie Harry era a Blondie, por causa dos cabelos loiros. Mick é o Simply Red. Ele tem cabelos vermelhos. Simples assim.
Tem alguma história memorável vivida no Brasil?
A primeira coisa que me vêm à cabeça é apenas chegar ao Rio de Janeiro, pela primeira vez, e sair do hotel e caminhar um pouco, e então parar em um barzinho, apenas tomar um café, um suco de manga e pensar: ‘Estou no Brasil. Isso é tão legal’. E meio que vivenciar a atmosfera. Foi algo completamente novo para mim. Exótico. E então, fizemos esses shows [do Hollywood Rock] nos estádios que foram simplesmente fantásticos. A questão sobre os brasileiros é que vocês amam a música, a melodia. Isso realmente combina com o tipo de música que eu componho, porque eu foco muito no lado melódico das canções.

Há alguns anos o Simply Red fez uma turnê de despedida. Por que decidiu reformar a banda em 2015?
Não foi bem assim. Despedida não significa necessariamente que eu não voltarei. O motivo pelo qual fiz isso foi porque minha esposa engravidou e eu tive uma filha. Então, eu queria ficar em casa. Porque quando eu era criança, fui criado pelo meu pai. Ele falava comigo todos os dias desde que eu tinha 3 anos de idade. Acho que estava no meu DNA que, quando eu tivesse um filho, eu queria estar lá. Muitos dos meus amigos músicos fazem uns 150 shows por ano. E eu não tinha como fazer isso. Assim como meu pai, eu queria ser um bom pai. Era muito importante para mim estar junto. E foi a melhor coisa que eu já fiz. Ela tem 17 anos agora. Eu estava com minha filha todo dia, fazendo o café da manhã dela, cozinhando e respondendo perguntas. Você não pode fazer isso se está viajando. Então eu disse ao meu empresário que precisava parar por alguns anos. E claro, quando você diz que está parando, os jornalistas pegam isso e dizem que a banda se separou.
O senhor mencionou a sua infância e eu gostaria de falar sobre ‘Holding Back The Years’, pois é uma música relacionada à sua mãe, com letra muito pessoal. Sente uma emoção diferente quando a canta hoje?
Sim, porque afeta outras pessoas. O motivo pelo qual a música ainda é tão poderosa é que as pessoas sentem que ela fala sobre a vida delas também. É o que algumas das melhores músicas fazem. As pessoas não pensam apenas em mim. Elas pensam nelas mesmas e querem se apegar às partes boas da vida. É uma das coisas maravilhosas que explicam por que eu amo tanto meu trabalho. É como você pode criar uma música que entra nos corações de milhões de pessoas ao redor do mundo. É como mágica.
Olhando para a história do Simply Red, qual momento o senhor acha que foi crucial para o sucesso da banda?
Só lembro de me ouvir pela primeira vez no rádio, com Money’s Too Tight (To Mention). Meu Deus, que emoção. Foi tão empolgante saber que minha carreira estava começando. E então a canção se tornou um sucesso praticamente no mundo todo. Nós viajamos por toda a Europa e, alguns anos depois, lá estou eu no Brasil tomando café e um suco de manga no Rio.

Gosta da música pop atual?
Estou mais interessado em como as pessoas estão realmente ouvindo música. Mudou muito desde que comecei em 1985. Nem tínhamos CDs em 1985. Quando lançamos nosso primeiro álbum, foi apenas em vinil e cassete. E agora aqui estamos em 2025 e falando sobre canais de streaming e YouTube. O grande lance é que as pessoas ainda estão ouvindo música e ainda estão ouvindo a nossa música nesses vários formatos. Não tenho nenhum problema com isso. No streaming, acho interessante que muitos dos cálculos são feitos em algoritmos. Dessa forma, as pessoas podem ouvir a um certo estilo de música e de repente uma faixa do Simply Red aparece lá. E talvez essa pessoa que está ouvindo nunca tenha sequer ouvido falar do Simply Red. É quase como um tipo de democracia peculiar onde as músicas simplesmente aparecem, você vai gostando delas e elas vão para a sua playlist.
Além de músicas originais, vocês têm muitos covers de sucesso como ‘Money’s Too Tight' e ‘If You Don’t Know Me By Now’. Quando percebe que uma música é perfeita para o Simply Red regravar?
Essa é uma pergunta muito boa. Acho que geralmente foram apenas músicas que eu pessoalmente gostava muito. Eu me considero primeiramente um cantor, em segundo lugar um compositor e em terceiro lugar um líder de banda. Então, cantar uma música é a coisa mais importante para mim. Apenas tento escolher uma música que seja linda. Por exemplo, If You Don’t Know Me By Now: a versão original de Harold Melvin & the Blue Notes já tinha sido tocada pelo mundo todo antes mesmo de eu escutá-la pela primeira vez, em 1973, quando eu tinha 13 anos. Sou um fã das versões originais e apenas faço minhas versões.
Por fim, como se sente a respeito do futuro do povo britânico com o Partido Trabalhista voltando ao poder?
Eu cresci na classe trabalhadora no leste de Manchester e o Partido Trabalhista sempre foi uma parte do meu mundo. É difícil focar apenas no Reino Unido porque vivemos em uma comunidade global. E o mundo faz comércio, todos estão negociando uns com os outros. O Brasil está negociando com países do mundo inteiro. Não podemos realmente falar apenas sobre a Inglaterra. É o todo que é muito complicado e estamos enfrentando muitos desafios agora com pessoas como Donald Trump. Eu não posso olhar apenas para a Grã-Bretanha. Especialmente alguém como eu que já viajou pelo mundo talvez sete vezes.

Simply Red - 40th Anniversary Tour
- Quando: 15 de março de 2025
- Onde: Allianz Parque (Avenida Francisco Matarazzo, 1705)
- Ingressos: eventim.com (poucos setores disponíveis)
- Preços: R$ 195 a R$ 1.800







