Turnê de despedida de Gilberto Gil é magistral - e para os que ainda estão aqui

Em mais de duas horas de show, o cantor se apresentou para um Allianz Parque lotado e emocionado com as coisas do Brasil

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Foto do autor Danilo Casaletti
Atualização:

Talvez a melhor metáfora para definir a turnê de despedida de Gilberto Gil, Tempo Rei, seja a canção Viagem Passageira, confiada a Gal Costa (1945-2022) em 2018, que nem está no setlist do show: “A pele do futuro finalmente/Imune ao corte, à lamina do tempo/O tempo finalmente estilhaçado/E a poeira sumindo no horizonte.”

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Mas, se for, assim, em cada canção, aí sim, do repertório de Tempo Rei, vai ajudar a decifrar o que Gil mostrou na noite desta sexta-feira, 11, na primeira noite da turnê em São Paulo - anteriormente já apresentada em Salvador e Rio de Janeiro. Ainda há mais três shows na capital paulista: 12, 25 e 26 de abril.

A própria Tempo Rei, a terceira na ordem do espetáculo, depois de Palco e Banda Um, dá o caminho: “Não se iludam, não me iludo/Tudo agora mesmo pode estar por um segundo”, diz a letra da canção feita por Gil em 1984. O que são 60 anos de carreira para Gil?

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Com vigor, Gil apresenta sua turnê de despedida em São Paulo, no Allianz Parque Foto: Taba Benedicto/ Estadão

A turnê Tempo Rei não é apenas sobre o tempo. Ou melhor, é o que Gil fez com seu tempo desde que chegou à música, ainda no começo dos anos 1960. E também sobre o que sua parabólica (mará) captou e imprimiu sobre o Brasil e a relação do País com o mundo. Gil está pleno em sua despedida.

É por isso que Refazenda - cantada com ajuda de sua neta, Flor Gil, a primeira convidada da noite, traída, infelizmente, pelo nervosismo - vai dar em Refavela, depois que Gil foi à Nigéria participar do Festival de Artes Negras. “A refavela /Revela o passo/Com que caminha a geração”.

Gil cantou 'Refazenda' com participação da neta, Flor Gil Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Bem antes, quando foi convidado a se retirar do Brasil pela ditadura militar, compôs o samba de despedida Aquele Abraço. Lembrou-se de dar aquele alô, alô para a “moça da favela”.

Ainda sobre a época da ditadura, Gil relembra, para que nunca mais esqueçamos, de Cálice, música que fez com Chico Buarque. O parceiro aparece no telão. É senha para que o coro de “Sem Anistia” ecoe no gramado e nas arquibancadas do Allianz Parque tomado por cerca de 40 mil pessoas. Todos assistem a imagens daqueles que não tiveram medo de sair às ruas nos tempos de chumbo para lutar pelos os que ainda estão aqui.

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O segundo convidado da noite foi o jovem MC Hariel, com quem Gil gravou A Dança, no ano passado. Gil rimou com o funkeiro que gosta de olhar a vida pelo ângulo da filosofia. “Minha ideologia é o nascer de cada dia/E minha religião é a luz na escuridão”. Lá atrás, mais uma vez, em Punk da Periferia - uma boa surpresa no repertório - , Gil já tinha trazido “nossa desgraça à luz”. Ou parado para ouvir o que a periferia tinha a dizer.

Gil se conecta com a nova geração e com sua própria história ao cantar com MC Hariel Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Gil faz tudo isso revestido de paz. A sexta-feira, dia de Oxalá, ajuda mais um pouco: o cantor deixa de lado o look tropical e usa um figurino todo branco, com bordados dourados, assim como toda a excelente banda que o acompanhada, liderada por seu filho, Bem Gil. Gil é a paz. Música, que, aliás, não está na turnê.

Gil também é festa. Realce, A Gente Precisa Ver o Luar, Andar Com Fé, Emoriô e A Novidade - opa, essa também é para pensar. E, se for pensar bem, até A Gente Precisa Ver o Luar é uma lição ao chamar as pessoas para a rua. É como se Gil desse um conselho: “Viva!”.

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Aos 82 anos, Gil, com vigor impressionante, só se senta para tocar seu violão no bloco em que canta Se eu quiser falar com Deus, Drão, Estrela e Esotérico. O público tem as quatro de cor. E se emociona.

Enquanto Gil canta todas essas belezas, sobre ele, sobre as pessoas e sobre as coisas do Brasil, uma enorme espiral suspensa no palco mostra trechos de canções e imagens. A escultura foi concebida pela cineasta Daniela Thomas. Ela e a direção de Rafael Dragaud tornam o adeus (será?) de Gil ainda mais grandioso. Outro boa sacada dois dois foi espalhar globos de espelhos na cobertura das arquibancada do Allianz para o momento de Realce.

O cenário e a programação visual deixam a turnê de Gil ainda mais grandiosa Foto: Taba Benedicto/ Estadão

A única nota desafinada foi da produção. O Espaço Expresso 2222, uma espécie de ‘vipão’, foi instalado em parte do espaço que os frequentadores do Allianz conhecem pela pista premium. Com sua 2/3 de sua capacidade ocupada, ela causou confusão em quem comprou ingresso vip ou pista premium. Faltava informação.

O Estadão presenciou pelo menos 10 pessoas questionando o irredutível segurança sobre o acesso ao local. Alguns indignados. O ânimo ficou exaltado entre um casal e o segurança que controlava o acesso. Um maior ainda foi chamado para acalmar a situação. Foi o próprio Rock do Crachá que, oportunamente, está no repertório. Até nisso, a turnê Tempo Rei foi coerente em sua noite de estreia em São Paulo.

Análise por Danilo Casaletti

Repórter de Cultura do Estadão