Virada Cultural 2025, mais segura e com falhas, tentou voltar às origens, mas nem sempre conseguiu

Evento apostou em nomes populares como Luísa Sonza, Liniker e Belo, mas seguiu distante da proposta inicial de 24 horas de cultura

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Foto do autor Daniel Vila Nova
Atualização:

A 20ª edição da Virada Cultural de São Paulo se encerrou neste domingo, 25, após 24h de programação ao redor da capital paulista. O evento, que se tornou uma tradição da cidade ao longo das últimas duas décadas, ainda mobiliza a população, mas vem se transformando a cada ano que se passa — e nem sempre para melhor.

A plateia assiste o cantor Belo durante apresentação no palco Anhangabaú durante a Virada Cultural 2025. Foto: Sergio Barzaghi/SECOM

Desde 2022, quando cenas de violência e de arrastões tomaram conta da 17ª edição do evento, a prefeitura de São Paulo repensou o evento na tentativa de tornar a experiência mais segura. Deu certo. Cenas antes impensáveis no cotidiano paulistano, como andar pelo Centro Histórico de São Paulo ao longo da noite com o celular na mão, foram frequentes ao longo deste fim de semana.

A Virada Cultural contou com um patrulhamento extensivo e um policiamento ostensivo ao redor dos cinco palcos espalhados pelo centro da cidade. De acordo com a Prefeitura, a polícia contou com um efetivo de 10 mil profissionais de segurança ao redor de São Paulo, além de 26 mil câmeras do Programa Smart Sampa.

Ocorrências registradas

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Segundo balanço do governo municipal, a GCM (Guarda Civil Metropolitana) atendeu somente duas ocorrências entre o começo da tarde de sábado e a manhã de domingo — uma por roubo de celular e outra por mal súbito. Já a Polícia Militar fez três prisões de procurados pela Justiça, uma detenção por tráfico de entorpecentes e uma por pichação no centro, além de registrar três ocorrências de furto de celular relacionadas ao evento.

Seguindo a lógica dos últimos três anos, o palco do Vale do Anhangabaú foi cercado por tapumes e grades. É a Virada Cultural, que costumava pregar a união das festividades com a cidade, isolada e mais lembrando um festival de música privado do que a festa concebida em 2005, inspirada na Noite Branca parisiense.

O público, no entanto, parece ver com bons olhos a preocupação pela segurança. Entre as dezenas de pessoas entrevistadas pelo Estadão entre sábado e domingo, todas se mostraram satisfeitas com a segurança do evento. “A disposição das grades e a presença da polícia me deixa mais segura”, afirmou a técnica de audiovisual Camila Torres, de 34 anos.

Outro fator que parece ter aumentado a sensação de segurança do evento foi a dispersão da Cracolândia ocorrida no último dia 13 de maio. “A gente fica mais seguro, né?”, disse a professora aposentada Cristiane Monteiro, de 56 anos, que participou de sua primeira Virada Cultural para ver Belo.

Virada no centro

A Virada está mais segura, mas a Virada no Centro ficou mais sem graça - com uma programação mais enxuta e que não vira a noite. Anteriormente, parte da magia do evento era se caminhar pelo centro de São Paulo e, seja por acaso ou de forma programada, encontrar eventos artísticos interessantes e grandiosos pelo caminho, durante 24 horas ininterruptas. Essa realidade parece cada vez mais distante.

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Os 21 palcos da 20ª edição foram espalhados pelos quatro cantos da cidade e cada um recebeu atrações de peso ao longo da Virada, o que é bom. O centro contou com Belo, João Gomes e Liniker. Na Zona Oeste, Duda Beat, Fresno e Sepultura. Na Leste, Iza, Alceu Valença e Djonga. Na Norte, Mart’Nália, Vanessa da Mata e Luísa Sonza. E na Sul, Michel Teló, MC Hariel e Xande de Pilares.

A descentralização é positiva, pois permite que mais gente tenha acesso aos shows. Regiões periféricas, em específico, ganharam shows gratuitos de grandes nomes que não costumam se apresentar em tais localidades. A relação do evento com o centro, no entanto, está sendo cada vez mais perdida à medida que a prefeitura leva a Virada Cultural para mais longe. “O centro não é mais a única opção, não está todo mundo focando no mesmo lugar”, disse o psicólogo Hélio de Souza, 42.

Outro fator que chama atenção na nova lógica de organização do evento é o horário da programação. Pela primeira vez em sua história, os grandes artistas não se apresentaram durante a madrugada da Virada Cultural. Na maior parte dos 21 palcos, na realidade, sequer houve programação para as primeiras seis horas de domingo.

O Vale do Anhangabaú foi um dos poucos palcos grandes que receberam atrações ao longo da madrugada, com shows do grupo senegalês Orchestra Baobab e da banda argentina La Delio Valdez. Em horários parecidos no ano passado, entretanto, as atrações eram Pabllo Vittar e Djonga.

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“Eles estão limitando o espaço e o alcance dos artistas da Virada, é triste”, afirmou a engenheira Lílian Pereira, 40. “Se as atrações acabam cedo, as pessoas vão embora. Sem atrações chamativas na madrugada, as pessoas não vão ficar na rua. É uma forma implícita de você acabar com a Virada Cultural na madrugada”, disse.

A engenheira, que é frequentadora assídua do evento, se lembra com orgulho de ter ficado até 4h em 2018 para ver um show do Emicida. Neste ano, ela assistiu ao show do Belo às 19h e, no caminho para casa, encontrou um palco ao lado do Edifício Copan onde comediantes stand-ups estavam se apresentando ao longo das 24h do evento. Para Lílian, essa é a magia da Virada — se encantar, por acaso, por algo que você sequer sabia que estava acontecendo na cidade.

O fato de alguns palcos funcionarem durante 24 horas seguidas e a maioria não mostra uma crise de identidade do evento e manda o recado de que não dá para garantir a segurança o tempo todo em todos os lugares.

Atrações animam o público, mas atrasos e problemas técnicos atrapalham

Apesar das críticas ao novo formato, a seleção de artistas e bandas que se apresentam ao longo do final de semana continuam um ponto forte da Virada Cultural. Sabendo mesclar o novo e o antigo, a 20ª edição conseguiu reunir bons nomes que fizeram excelentes shows.

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Artistas como Liniker, João Gomes e Iza representaram um frescor na programação, que também contou com nomes já conhecidos da Virada como Leo Santana, Michel Teló e Luísa Sonza. Entre covers, coros e bastante animação, os principais shows do evento foram bem recebidos pelo público.

Os atrasos e problemas técnicos se mostraram persistentes ao longo dos 21 palcos espalhados por São Paulo e atrapalharam shows. No Anhangabaú, Belo teve de paralisar sua apresentação — que iniciou quase meia hora atrasada — por cerca de 15 minutos por conta de um problema no gerador. Karol Conká e Rashid, na Zona Leste, também sofreram com atraso. Também em Itaquera, Iza teve de interromper seu show em diversas ocasiões para socorrer fãs que estavam passando mal na multidão.

A grande bola fora da edição, no entanto, ocorreu antes mesmo do evento começar. Marina Lima foi anunciada como uma das atrações, mas na véspera do evento a cantora disse que não tinha assinado contrato. A situação só não ficou pior porque a rapper Duquesa, que substitui a cantora veterana às pressas, fez um excelente show no Anhangabaú.

Outro destaque negativo foi o palco pequeno e mal organizado escolhido para sediar o show de Russo Passapusso na rua Quinze de Novembro.

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Ícone popular do Pará, Aparelhagem Crocodilo rouba atenção no palco do Anhangabau durante a Virada Cultural 2025. Foto: Victor Moriyama/Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa

Entre as boas surpresas, nada supera a Aparelhagem Crocodilo presente no Vale do Anhangabaú. Os intervalos dos principais shows do palco eram agraciados com o ritmo da música e dos remixes paraense do Tudão Crocodilo — um crocodilo metálico de 9 metros de comprimento e 3 metros de altura que toca os maiores hits e remixes do Pará.

Sucesso absoluto do estado nortista, é a primeira vez que a aparelhagem se apresentou em São Paulo. Para chegar na capital, uma carreta de 22 metros atravessou o País com o animal metálico para se apresentar na Virada Cultural. Nomes como Gaby Amarantos, Viviane Batidão, Jaloo e Gang do Eletro fizeram participações especiais ao lado da aparelhagem paraense, por vezes roubando o protagonismo dos shows principais.

Análise por Daniel Vila Nova

Repórter de Cultura e E+