No dia 7 de setembro, o cantor e compositor capixaba Silva fez um discurso inflamado durante sua performance no Festival Vibrar, em Brasília. Foi um pronunciamento marcado mais pelo fígado do que pelo cérebro, mas pelo menos um desabafo do autor de Encantado, um dos melhores discos de 2024, chamou a minha atenção: “Música virou publicidade… Vamos fazer música séria neste País. A gente está no país da Gal Costa, João Donato, Tom Zé.”
Poucas horas antes do surto de Silva, o cantor e autor paranaense David Mour estava prestes a encarar uma viagem de oito horas de ônibus Boa Esperança (MG) até São Paulo e depois sete horas para Londrina, sua cidade natal. Vencedor da 55ª edição do Festival Nacional da Canção com a balada Exagerado Demais, ele tira seu sustento de apresentações solo aqui ou acolá, festivais e bicos como motorista de aplicativo.

Silva e David Mour, claro, estão em momentos distintos de suas carreiras. O capixaba é ponta-de-lança de uma MPB/pop que tem dominado o mercado independente nos últimos anos e foi celebrado por nomes como Fernanda Takai (Pato Fu) e Lulu Santos, além de lançar seus discos pela Som Livre -que recentemente foi agregada à poderosa Sony Music.
Mour é artista independente, lança seus discos como e da maneira que pode e precisa ainda de uma agenda constante para sair do anonimato. Os dois artistas, contudo, são mostras de como o mercado anda ingrato para quem não joga pelas suas regras. Criam canções que trazem melodias que vão além do tum tum tum do funk e da música eletrônica (que, diga-se, merecem seu espaço) e letras que fogem da banalidade. São artistas de nicho, que criam e cantam para um público específico e têm espaço reduzido nas rádios, que estão cada vez mais excludentes e segmentadas.
O artista de nicho não é exatamente novo. Por décadas, as companhias discográficas separaram os astros de sucesso imediato do ídolo cult, aquele cujo catálogo seria valorizado a posteriori (a Philips, por exemplo, separava o popular do sofisticado pelo nome e pela cor do selo: Odair José e Sidney Magal, por exemplo, eram lançados via Polydor, de emblema vermelho: o azul da Philips era reservado a Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, entre outros nomes da chamada alta MPB). Mas foi o cast popular que ajudou a sedimentar a carreira dos cult, que nunca foram grandes vendedores de discos. Aliás, a manutenção da carreira de João Donato, pianista e cantor por quem Silva tem devoção, só foi possível graças a esse tipo de pensamento dos diretores da indústria.
Hoje, como diria o escritor George Orwell, já não se consegue distinguir os porcos dos homens. A busca pelo hit do momento, aquele cuja popularidade se esvai em menos de uma semana, e a adoção do chamado “contrato 360”, onde a empresa de entretenimento tem direito a uma porcentagem sobre todos os ganhos de seu contratado, afastam qualquer promessa ou proposta de renovação. Palavras como letra, melodia e harmonia são substituídos por monstrengos como “engajamento”, “impulsionamento” e “algoritmo”. O sucesso deixou de ser medido em canções para ser avalizado em “posts” nas redes sociais, onde fatalmente foi colocado ali para divulgar um produto, pelo qual o artista é bem pago.
A ascensão do “cantor influencer” e que norteia sua carreira na base do “publi” dispensa melodia, harmonia, letra e, às vezes, até seres humanos. Recentemente, a plataforma de streaming Deezer anunciou que 30 mil faixas que recebe diariamente são produzidas por inteligência artificial. Desses, cerca de 70% têm seus streams manipulados artificialmente. Vamos apostar qual o estilo praticado por esses fakes?
Os novos tempos doem na gente, mas também na alma do executivo da velha guarda, aquele que chegou a ver alguns dos maiores nomes da MPB. Certa vez, eu mostrei uma jovem cantora para um desses lordes da indústria. Ele adorou o disco dela, mas optou somente pelo licenciamento ao invés da contratação. Como a companhia atuava no método do contrato 360, a cantora praticamente pagaria para trabalhar. No ano seguinte, esse mesmo executivo, numa confissão etílica, me disse: “a cantora que você me apresentou tem apenas um problema. Ela é boa demais para tocar nas rádios e na TV.”
Mas Silva, o queixoso, tem seu quinhão de culpa pelo descaso em relação ao seu trabalho autoral. Por duas vezes trocou as canções da própria lavra pelo clique imediato. Em 2016, lançou um trabalho dedicado ao repertório de Marisa Monte, que inclusive rendeu outro disco, dessa vez ao vivo. O Bloco do Silva, uma releitura de hits da axé music, ganhou uma turnê celebrada e dois álbuns ao vivo. Embora tenham obtido sucesso de público, os dois projetos tiraram o brilho de sua obra autoral - e as pessoas que foram ao Vibrar, em Brasília, certamente foram em busca da ferveção que a playlist do sacolejo à baiana provoca na pista de dança. A busca pelo reconhecimento se torna então muito mais difícil para quem burila um repertório autoral.
A nós, o público, cabe a missão (se quisermos, claro) de fugir dos algoritmos das plataformas de streaming e buscar soluções que vão além do lugar comum. Silva e David Mour são opções que se unem a nomes que descobri recentemente: intérpretes de vozes singulares, como Zé Ibarra, Luna Di e Fitti; nomes que despontaram no Festival Nacional da Canção, como Rô Acunha (da deliciosamente pop Guarda Chuva) e Jorge Carlota, cuja Apollo tem sete minutos que deixam o ouvinte louco para saber o final da história; Adriano Grineberg e Josyara, um pianista e uma violonista que equilibram o virtuosismo com o cantor popular; Amaro Freitas, jazzista pernambucano que cada vez mais ganha os palcos do mundo afora, e muitos outros. Nomes que, por mais que sejam de nicho, podem e merecem ser ouvidos por platéias selecionadas. Uma prova de que o país de Gal Costa, João Donato e Tom Zé tem muito ainda para nos oferecer.






