Coluna quinzenal do jornalista e crítico Sérgio Martins com histórias da música

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Os medleys fugiram do controle: Como a música pop hoje virou uma sucessão de pot-pourri

Esse recurso nos tira o que há de mais belo na criação de um sucesso e dão às pessoas o que elas querem: a recompensa imediata. Eu chamo isso de ‘K-Tel da nova geração’

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Foto do autor Sérgio Martins

Nos meus tempos de adolescente, as coletâneas da K-Tel constituíam, a princípio, uma ótima relação custo e benefício. A gravadora socava 20, 30 sucessos da disco music ou de Elton John (o primeiro álbum dele que ganhei era justamente um da K-Tel) num único LP, que era vendido bem mais barato que os discos dos nossos astros prediletos.

O problema é que, por conta desse estratagema, as canções nunca iam além do refrão –eu, por exemplo, só conheci a versão integral de Rocket Man, clássico do repertório de sir Elton de 1972 na década seguinte, quando minha situação financeira permitiu que eu adquirisse um Greatest Hits oficial do cantor.

Os medleys são mais comuns e antigos do que se imagina, mas fugiram ao controle nos últimos anos Foto: Drobot Dean/Adobe Stock

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Recentemente, voltei a lembrar da artimanha da K-Tel quando meu enteado mostrou um registro ao vivo de Cowboy Carter, a mais recente turnê de Beyoncé. O mote, claro, é seu último álbum, dedicado à música country. Mas em certo momento da performance, ela sai enfiando sucessos de outros tempos – as dançantes Crazy in Love e Single Ladies ou a balada Love on Top – em versões que raramente passam do refrão.

Uma ação que antigamente era chamada de pot-pourri e hoje atende pelo nome de medley (ainda que entre amigos eu tenha batizado de K-Tel da nova geração).

Os medleys na música

Os – vá lá – medleys são mais comuns e mais antigos do que a gente imagina. No Rock in Rio 2013, Rihanna, outra diva do pop atual, transformou sua performance em uma compilação de trechos de seus maiores hits.

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Outros irão se lembrar quando Maria Bethânia que, em nome do roteiro, “casa” canções ao longo da apresentação. Eu, por exemplo, gosto muito do enlace entre o compositor barroco Johann Sebastian Bach (1685-1750) e o violonista Baden Powell (1937-2000) presente em Tempo Tempo Tempo Tempo (Ao Vivo), de 2016.

Atualmente, os medleys fugiram do controle. Eles se fazem necessários tanto em audições de candidatos ao estrelato pop quanto em discos ao vivo de samba e sertanejo.

Por conta da versatilidade que a minha profissão exige, passei por várias dessas experiências nos últimos meses. Escutei composições que vão no máximo até o refrão ou discos ao vivo em que três, quatro sucessos são entocados numa única música, transformando o produto num eterno desfile dos tais medleys.

Se por um lado ganhamos tempo para passar de uma canção para outra ou ele dá um dinamismo ao show, o recurso nos tira o que há de mais belo na criação de um sucesso: sua abertura e seu desenvolvimento, que explodem num estribilho acessível e bem construído. São pseudo-hits nus, sem um bom arranjo para revesti-los.

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As pessoas querem a recompensa imediata

A explicação mais comum que escutei de autores e produtores é que o ouvinte virou refém da gratificação imediata, aquela recompensa que é dada ao jogador de videogame assim que ele completa um desafio.

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Quem escuta música nos dias de hoje, independentemente da idade, quer logo “passar de fase”, ou seja, ir direto para o refrão, cantar junto e encarar um novo obstáculo – no caso, uma outra composição presente no tal medley.

Isso tem ainda a ver com a attention span (algo como capacidade de concentração, em português), que é o tempo em que alguém consegue manter o foco numa atividade sem se distrair. Nos últimos cinco anos, ela passou de 12 para cinco segundos.

As normas da música pop da atualidade

O medley combina com as normas da música pop da atualidade, que pedem introduções cada vez menores e uma chegada quase que imediata ao refrão.

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Segundo uma reportagem da revista The Economist, os números um da parada americana diminuíram sua duração 18% em relação aos hits da década de 1990. Elas passaram de quatro minutos a vinte e dois segundos para três minutos e trinta e quatro segundos (não por acaso Steve’s Lava Chicken, canção de Minecraft, produção baseada no videogame de mesmo nome, entrou nas primeiras colocações da parada americana: ela tem apenas 34 segundos de duração).

Em relação ao encurtamento das produções, se antigamente um single de sucesso tinha vinte e um segundos de instrumentação até chegar à parte cantada, hoje ele dura no máximo oito segundos. E normalmente, o refrão surge antes do verso para grudar no cerebelo de quem o escuta.

A Economist reforça ainda que as plataformas de streaming também colaboram para o apoucamento da duração das canções, que agora têm no medley seu mais novo recurso. É necessário que o ouvinte escute uma faixa por pelo menos 30 segundos para que a música seja contabilizada.

Isso, segundo a publicação, “encorajou os músicos a serem ágeis com as paradas, viralizando no aplicativo de vídeos curtos.”

Resumindo, hoje um hit tem de ser curto e com refrão suficientemente forte para cair no gosto dos consumidores de vídeos do TikTok –e, sim, coreografias engraçadas são mais do que recomendáveis.

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Pensando bem, até que aquelas coletâneas da K-Tel foram premonitórias…

Opinião por Sérgio Martins

Jornalista e crítico musical

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