O que uma novela precisa ter para ser classificada como tal? Uma boa história, parece óbvio - e nem todas no ar atualmente cumprem essa regra básica. Mais que isso, ela precisa ter elementos característicos de um folhetim. Essencialmente: a mocinha que sofre para burro, a vilã capaz de uma gama sem fim de perversidade, o casal que enfrenta as maiores adversidades para ficar junto no final, além de uma grande boa disputa, seja entre pais e filhos, sócios ou herdeiros.

Posto isso, é bom salientar que Beleza Fatal, de Raphael Montes, primeira novela da plataforma Max no Brasil, é, em seu cerne, uma novela. Mesmo que ela tenha apenas 40 capítulos - as da TV abertas costumam ter quase 200 - e queira, em seus primeiros quatro episódios, apresentar um ritmo parecido como os das séries. Receio de espantar o público da plataforma habituado a buscar séries? Talvez. Mas isso não compromete.
O fato é que Montes conseguiu criar uma grande história - para imprensa, foram disponibilizados 10 capítulos antes da estreia. É justamente no quinto que Beleza Fatal ganha a chancela de ‘novelão’. Lola, a vilã, que nos primeiros episódios já se desenhava uma mulher inescrupulosa, e, mais ainda, uma criminosa, o que pode afastar o público de se identificar com ela, começa a ficar cada vez mais interessante, justamente por ter conseguido atingir seu objetivo: se dar bem na vida (leia-se, ficar rica). Está feita a empatia com o telespectador.
Lola é interpretada por Camila Pitanga. Na medida certa, mesmo que essa grandeza seja reconhecidamente ‘botocada’, como definiram Montes e a diretora geral Maria de Médicis, em entrevista ao Estadão. Foi o suficiente para que Pitanga pudesse transitar entre Ruth e Raquel, as gêmeas antagônicas de Mulheres de Areia.
O objetivo de Montes é justamente esse: provar que ninguém é bom ou ruim o tempo todo. Lola é má, mas também é divertida, histriônica e sofre. Cai do cavalo por diversas vezes, fica encurralada. E vai sofrer ataque de um inimigo que ela nem sabe bem quem é ao certo: Sofia, filha de sua prima Cléo, a quem ela mandou matar para se livrar de ser presa pelo assassinato do próprio marido.
Em ano em que há a expectativa pela volta de Odete Roitman - a TV Globo pretende exibir o remake de Vale Tudo a partir de março, com adaptação de Manuela Dias -, a grande rival da personagem imortalizada na década de 1980 por Beatriz Segall será Lola. Veio debaixo e não precisa tomar partido (político), como a Odete de 2025 invariavelmente, se não quiser ser anacrônica ou muito descolada de Vale Tudo original, terá que fazer.
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Montes vai além. Em certo episódio, o poderoso cirurgião plástico Átila Argento, encurralado por uma policial que pretende entregar seu filho mimado como cúmplice de um assassinato, diz que fará o caso chegar ao Supremo Tribunal Federal, onde tem amigos. Segundo Argento, “as mulheres e as amantes dos ministros do STF” são suas clientes.
Hábil, noveleiro assumido, o jovem Montes, escritor de 34 anos, traz muitas referências. De Alfred Hitchcock, o rei do suspense, ao dramaturgo Silvio de Abreu, que, inclusive, supervisionou a novela e deu asas ao seu pupilo. O casal Elvira Paixão, papel de Giovanna Antonelli, e Lino, a cargo de Augusto Madeira, é amoroso, mas trambiqueiro tal qual Naná e Jejê, deliciosos personagens de Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri em Cambalacho, novela de Abreu levada ao ar em 1986.
Montes, também subverte. Não guarda suspense. Entrega, logo na primeira leva de capítulos, dois ‘quem matou’ que ele poderia cozinhar por ainda um bom tempo. Com isso, a história ganha força e a vingança da mocinha Sofia, personagem de Camila Queiroz, contra Lola ganha forte razão de ser e não apenas uma mera ‘mania de você’.
Produzida pela Coração da Selva para a Warner Bros. Discovery, a novela se passa no Rio de Janeiro, mas foi gravada em uma antiga fábrica transformada em estúdio na cidade de Osasco, na grande São Paulo. Entre a equipe, o local ficou conhecido jocosamente como Projasco, em uma referência ao mega complexo Estúdios Globo, anteriormente conhecido como Projac.
É da Globo, aliás, que vem boa parte do elenco estrelado: Pitanga, Queiroz, Antonelli, Capri, Madeira, Vanessa Giácomo, Caio Blat, Marcelo Serrado, Murilo Rosa, Isadora Ribeiro, entre outros. A diretora geral de Beleza Fatal, Maria de Médicis, também era da emissora.
Beleza Fatal não é a primeira a ser feita para o streaming. Antes dela, o Globoplay estreou Todas as Flores, de João Emanuel Carneiro, sucesso quando foi para a TV aberta, e Verdades Secretas 2, que perdeu o encanto quando foi para a Globo, devido a grande quantidade de cortes que sofreu para se adaptar fora da plataforma. A Netflix lançou, em 2024, Pedaço de Mim, com Juliana Paes. Um sucesso, inclusive fora do País, que não experimentou o crivo do público cativo de das novelas das 8 (9).
A questão que fica é: Beleza Fatal poderia ser feita para a TV aberta, em tempos em que o gênero sofre de patrulha política, moral e religiosa? Ao Estadão, Montes respondeu: “Vou fazendo até que alguém me diga: Não pode”. “Cometo ousadias em uma base clássica”, concluiu, como quem conheceu a fórmula do bom novelão.






