PUBLICIDADE

Kurt Russell: ‘A indústria do cinema está se recuperando de um buraco, e terá uma escalada difícil’

Kurt e o filho, Wyatt Russell, falam ao ‘Estadão’ sobre ‘Monarch’, série onde interpretam o mesmo personagem em diferentes fases da vida. Aos 72 anos, ator de ‘Fuga de Nova York’ reflete sobre o mercado audiovisual

Foto do author Matheus Mans
Por Matheus Mans
Atualização:
Foto: Apple TV+/Divulgação
Entrevista comKurt RussellAtor

Quando você se vê frente a frente com Wyatt e Kurt Russell, há um sentimento de estranheza após o susto de se deparar com os atores, pai e filho. Os dois vieram ao Brasil para divulgar Monarch: Legado de Monstros, série da Apple TV+. O motivo dessa estranheza? Há uma semelhança física impressionante entre eles.

Para além da diferença de altura e da cor de seus cabelos e olhos, Kurt e Wyatt possuem o mesmo olhar. É um semblante duro, ainda que atencioso. Primeiramente pode assustar. Mas logo isso se torna um ponto de interesse quando os Russell começam a falar e demonstrar química e inteligência.

Kurt e Wyatt Russell são pai e filho que interpretam o mesmo personagem em diferentes fases da vida na série 'Monarch: Legado de Monstros', do Apple TV+ Foto: Apple TV+/Divulgação

Os dois interpretam Lee Shaw, um dos personagens mais interessantes da série que se passa no mundo de Godzilla, mas que foca mais em dramas humanos do que em monstros. Wyatt, claro, é a versão jovem desse misterioso personagem, cercado pela presença de seres ameaçadores e da Monarch, empresa que parece estar em todo lugar.

Já Kurt faz Lee envelhecido. Tem menos atributos físicos e, por outro lado, mais conhecimento sobre os monstros. A sacada de juntar pai e filho no elenco e as escolhas mais dramáticas de roteiro fazem com que Monarch, com novos episódios toda semana até 12 de janeiro, esteja entre as melhores histórias do Godzilla.

“Temos que fazer com que o impacto de ver esses monstros seja tão importante para a audiência quanto é para as personagens estão vivendo isso na série”, ensina Kurt. Aos 72 anos de idade e 60 de carreira, ele foi de astro teen da Disney a estrela consolidada em sucessos diversos como Fuga de Nova York (1981) e Os Oito Odiados (2015).

O Estadão conversou com os dois sobre a nova série, a importância de entender quem é esse público e os desafios de trabalharem tão próximos. O papo cresceu como Godzilla e chegou ao futuro do cinema. O ator experiente vê a indústria cinematográfica atual “se recuperando de um buraco”.

Godzilla em “Monarch - Legado de Monstros”, já disponível no Apple TV+. Foto: Apple TV+/Divulgação

Como foi o início do projeto quando vocês dois receberam o convite para ‘Monarch’?

Wyatt Russell: Foi assustador, mas nós queríamos fazer o melhor possível. Foi bom não interpretar pai e filho, mas sim a mesma pessoa. Queríamos descobrir a melhor maneira de enfrentar esse desafio. Se você perguntar qual foi a primeira reação, é o nervosismo.

Publicidade

Kurt Russell: Sim, a gente tinha que criar um personagem que, em primeiro lugar, tivesse uma razão para estar lá, unindo períodos de tempo e seguindo 50 anos depois, com mistério. É divertido, porém difícil. Corremos o risco de falhar e - claro - não queríamos isso.

E como foi nos bastidores? Vocês conversaram muito sobre o personagem?

Wyatt: Antes de gravarmos, houve muitas discussões com os ‘showrunners’ (criadores da série), ajudando-os a entender para onde queríamos ir. Nos fins de semana, houve muita escrita, reescrita e discussão sobre para onde o personagem iria. Era preciso que Lee Shaw tivesse uma trajetória de A a B.

Kurt: Sinceramente, quando entramos no projeto, o personagem era uma pessoa muito diferente. Obviamente, trazemos uma bagagem específica. Temos uma certa habilidade e buscamos uma maneira para tornar esse personagem o melhor possível.

Kurt Russell em cena de 'Monarch: Legado de Monstros', do Apple TV+ Foto: Apple TV+/Divulgação

‘Monarch ‘poderia ser uma série sobre monstros, mas é um drama familiar. Isso também é muito diferente. É mais desafiador?

Kurt: Você nunca quer ir para o denominador comum mais baixo. E o que você tem? Bem, temos o Godzilla e temos pessoas interessantes. Você está colocando isso em uma escala épica, mas está colocando os seres humanos em primeiro lugar. Temos que fazer com que o impacto de ver esses monstros seja tão grande para a audiência quanto é para as personagens que estão vivendo isso na série.

PUBLICIDADE

Eu amo ficção científica. Para mim, a melhor ficção científica é aquela em que a gente se envolva como seres humanos. Você não pode deixar sua história humana se tornar pequena. Você está educando uma audiência. Por meio do ser humano, você começa a aprender sobre o monstro.

Wyatt: Você não pode ter 10 horas de monstros. Isso é chato. Acho que as pessoas estão um pouco cansadas de achar que se você apenas colocar alguns monstros na tela elas vão assistir. Isso obviamente não é o caso, e acho que às vezes o público não recebe o respeito que merece.

De alguma forma, é estranho ver seu filho interpretando você mais jovem? Como foi ver isso na tela?

Kurt: Um dia, quando estava de folga, e Wyatt estava trabalhando no set, eu decidi assisti-lo. Inicialmente, eu não queria ir, já que nunca estamos nos mesmos mundos ao mesmo tempo. Só queria sentar ali silenciosamente. Em cinco minutos, isso se tornou impossível porque eu nunca estive em lugar em que outra pessoa está criando o personagem que você vai continuar. Essa pessoa era o Wyatt. Percebi que era cada vez mais importante ser capaz de olhar para o futuro, escrever sabiamente, para Wyatt e para mim, para conectar-nos para que a gente não errase.

Publicidade

Kurt, você não faz muitas séries de TV. Como foi com ‘Monarch’? É diferente do cinema?

Kurt: Não fiz uma série em mais de 50 anos. Honestamente, não gostei.

Não?

Kurt: Não. Eu não gosto. Eu não gosto do ritmo. Eu não gosto de fazer cinco filmes um atrás do outro, cinco diretores diferentes. Eu não gosto de não saber exatamente o que estamos fazendo. É muito mais difícil. Especialmente se você quiser fazer algo realmente bom. É complicado.

Wyatt: É por isso que não há muitos exemplos ótimos. É difícil fazer uma série de TV realmente boa.

Kurt: Por isso que dou parabéns à Apple por se dedicar e colocar o dinheiro onde estavam seus desejos. Parabéns aos produtores, diretores, ao pessoal de elenco por montarem um elenco excelente. E por qualquer coisa que Wyatt e eu pudemos contribuir.

Frost Vark Titan em “Monarch - Legado de Monstros”, já disponível no Apple TV+. Foto: Apple TV+/Divulgação

E, finalmente, Kurt, como você vê o futuro do cinema e das séries de TV?

Kurt: Acredito que a indústria cinematográfica, na qual trabalho há mais de 50 anos, terá uma escalada difícil. Houve um período em que os filmes iam destruir o teatro da Broadway, a televisão ia destruir o rádio, a televisão ia destruir os filmes. Mas você sempre encontra uma saída. Já estamos começando a ver isso com alguns filmes muito bem recebidos e que as pessoas querem assistir. [A indústria] está se recuperando de um buraco. Foi um buraco grande, cara. Uma vez que você tira os hábitos das pessoas, especialmente no entretenimento, leva um tempo para trazê-los de volta, e você precisa fazer coisas boas. Mas se você faz o que eles querem ver, eles falam sobre isso. Eles querem ver tudo de uma vez.

Wyatt: Eu era a pessoa que pensava: “Não sei sobre essa coisa da Netflix. Como assim, você não pode assistir na sua TV?”. E aí dizem: “Ah, bem, agora sua TV é um computador” e, quando você percebe, pensa: “Ah, isso é legal”. Você vê as coisas progredirem. Eu fui assistir a Triângulo da Tristeza no cinema e não esperava. Era um cinema de arte, mas estava bem cheio. Foi uma experiência incrível. E saí de lá pensando: “Estou tão feliz por ter ido assistir isso em uma tela grande com um monte de estranhos”. Nada substitui essa experiência com as pessoas. Eu só espero que essa experiência não seja perdida.

Kurt: Eu acho que há um futuro brilhante. Vivi uma vida no cinema, onde fiz muitos filmes que não funcionaram no início, por causa de uma divulgação ruim ou timing errado, as pessoas não estavam interessadas. Mas 20 anos depois, algumas pessoas passaram a ter aquilo como sua coisa favorita. Acho que uma das coisas que veremos no futuro é que alguns desses serviços de streaming vão fazer o caminho inverso. Eles serão cinemas que vão dizer: “Vamos exibir os últimos cinco episódios de qualquer coisa ou vamos exibir a temporada de alguma coisa”. Eu garanto a você: isso é uma delícia de se ver em uma tela grande. Não é uma experiência como outra qualquer, mas talvez isso aconteça daqui a 20 anos. E acho que é um ótimo futuro.

Publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.