Produtores e empresas apostam em técnica que recupera áreas

Modelos de cultivo ambientalmente inteligentes ajudam a enfrentar as mudanças climáticas, com proteção do solo e da água

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Por José Maria Tomazela
Atualização:
6 min de leitura

“O produtor rural não consegue produzir se não tiver equilíbrio ecológico. A gente depende economicamente de uma natureza preservada.” A fala do produtor de soja Joel Carlos Hendges, de Balsas (MA), resume o conceito de agricultura regenerativa, ou Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), aplicada com a adoção de técnicas de cultivo ambientalmente inteligentes, com práticas voltadas para o enfrentamento das mudanças climáticas, proteção do solo e da água. Esse modo de plantar e colher, com técnicas simples, respeitando a natureza, recupera o ecossistema biológico e aumenta a produtividade, dando mais rentabilidade ao produtor.

Em um mercado mundial com apelos crescentes, sobretudo na Europa, por produtos agropecuários produzidos sem derrubar árvores, a agricultura regenerativa é uma resposta brasileira às pressões globais contra as emissões de gases de efeito estufa. Entre as culturas em que o modelo está mais avançado destaca-se o café, cuja produção pode ser a mais atingida pelas mudanças do clima. O Brasil é o maior produtor mundial, colhendo cerca de 3 milhões de toneladas por ano. É também o maior exportador do planeta, o que o obriga a acompanhar a mudança no perfil do consumidor de café no mundo, cada vez mais exigente de sustentabilidade ambiental na produção.

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A Embrapa Café desenvolve projetos de sistemas produtivos integrados, com o uso da forrageira braquiária como planta de cobertura nas entrelinhas do cafezal para manter o solo protegido contra o sol, ventos e erosões. É literalmente plantar capim para controlar o mato. A tecnologia traz impactos regenerativos, armazenando e reciclando nutrientes, e reduz de 30% a 40% o uso de herbicidas. E também diminui a temperatura média do solo, evitando a evaporação direta da água e elevando em 20% sua disponibilidade para a planta. Reduz, ainda, em 40% o uso de máquinas e implementos.

A Embrapa desenvolveu também cultivares – variedades de plantas – de café mais adequados para diferentes ecossistemas brasileiros, como as matas de Rondônia, as regiões serranas do Espírito Santo, as encostas da Mantiqueira, em Minas Gerais, e os campos do Paraná. “O produtor deve buscar a cultivar que mais se adapta às condições de clima e solo, e de acordo com suas necessidades de produção”, disse o chefe-geral da Embrapa Café, Antonio Fernando Guerra. Ele lembrou que estão em desenvolvimento os protocolos para nosso café carbono neutro.

Prática

Desde que iniciou a mudança no sistema de produção, em 2017, o cafeicultor Ricardo Bartholo, da Fazenda Cinco Estrelas, em Minas Gerais, conseguiu avançar do modelo convencional para a cafeicultura regenerativa e, daí, para o café orgânico com certificação. A mudança foi gradativa, mas irreversível, segundo ele. “Mudei a minha visão em relação ao café. Iniciei com o uso de compostagem com material que já tinha na fazenda, depois introduzi os pós de rocha nos compostos. Atualmente enriquecemos o composto com comunidades de biológicos”, disse.

O café, quando plantado em meio a espécies nativas, pode ajudar na agricultura regenerativa de determinada região. Foto: Felipe Rau / Estadão

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As práticas sustentáveis regenerativas deram ao café produzido pela São Matheus Agropecuária, de Minas Gerais, o prêmio Best of the Best, promovido pela italiana illycaffé. O vencedor mineiro disputou com 27 agricultores dos principais países produtores. O reconhecimento é resultado do investimento da fazenda em processos internos que elevam a qualidade do produto, segundo Eduardo Dominicale, CEO do grupo BMG, dono da propriedade. “Adotamos a agricultura regenerativa, que, entre outros benefícios, melhora a fertilidade do solo e aumenta a biodiversidade dos ecossistemas, com impactos positivos ao produto que chega ao consumidor.”

Com respeito

A Nescafé, principal marca de café da Nestlé, desenvolve o Nescafé Plan 2030, conhecido no Brasil como Programa Cultivado com Respeito, para ajudar a tornar a lavoura do café mais sustentável. Globalmente, a marca investirá mais de 1 bilhão de francos suíços (por volta de R$ 5,5 bilhões) até 2030 no Nescafé Plan. Esse investimento dá continuidade ao programa atual, à medida que a marca expande seu trabalho com foco em sustentabilidade.

As mudanças climáticas estão pressionando as áreas de cultivo de café, segundo David Rennie, diretor da divisão de marcas de café da empresa. “Com base na experiência de dez anos do Nescafé Plan, estamos acelerando nosso trabalho para ajudar a enfrentar as mudanças climáticas e os desafios sociais e econômicos nas cadeias de valor do café”, disse. Até 2050, o aumento das temperaturas reduzirá a área adequada para o cultivo do café em 50%.

Cerca de 125 milhões de pessoas no mundo dependem do café para seu sustento e muitas vivem na linha da pobreza ou abaixo dela. “Queremos que os produtores de café prosperem tanto quanto queremos que o café tenha um impacto positivo no meio ambiente”, disse Philipp Navrati, diretor da unidade de Negócios Estratégicos de Café da Nestlé.

A Nescafé oferece aos agricultores treinamento, assistência técnica e mudas de café de alto rendimento para ajudá-los a fazer a transição para práticas regenerativas de cultivo. Entre as práticas estão a incorporação de biofertilizantes ou fertilizantes orgânicos ao solo, o aumento de árvores e cultivo entre outras culturas.

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Em março deste ano, o Origens do Brasil, linha de cafés especiais da Nescafé, ganhou a certificação de produto carbono neutro, de acordo com o The Carbon Neutral Protocol, principal framework global de neutralidade de carbono. Segundo a empresa, o resultado está ligado à adoção de práticas agrícolas regenerativas, redução da pegada de carbono em toda a cadeia e ao plantio de 1,5 milhão de árvores em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica. Atualmente, 35 famílias brasileiras fornecem grãos de café 100% arábica para a linha Origens do Brasil. A última safra de café dessas fazendas apresentou redução de 70% da pegada de carbono em comparação com a de 2021.

Grãos e fibras

A Amaggi, responsável pela comercialização de quase 19 milhões de toneladas de grãos e fibras, lançou uma nova fase do programa Regenera, como parte de seu compromisso de ajudar a desacelerar as mudanças climáticas. Desenvolvido em parceria com a reNature, associação especialista no segmento, e apoiado pela Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa), o programa prevê atingir a neutralidade climática na produção agrícola até 2050, por meio de estratégias de descarbonização até 2035.

Segundo o diretor de Produção Agro, Pedro Valente, a Amaggi já adota há anos boas práticas agrícolas em suas fazendas para grãos e fibras. “A agricultura regenerativa vai além da conservação, pois através de práticas no campo, a fixação do carbono no solo e, consequentemente, o equilíbrio do clima são favorecidos. Ao ser usado de forma correta, o solo se recompõe, o ecossistema se regenera e o mercado é abastecido com produtos amigos da terra”, disse.

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