A iniciativa do ajuste fiscal cabe ao Poder Executivo, e não ao Legislativo. É essa falta de vontade que impede o governo Lula de implementar uma agenda efetiva de cortes de gastos e recuperar a confiança na economia. O adiamento do anúncio na terça-feira, 3, reflete esse constrangimento que atinge não só o presidente da República, mas os seus ministros mais próximos. Fernando Haddad faz o que pode, mas não tem força para convencer o chefe a rever suas convicções sobre o gasto público.
Um governo que quer cortar gastos assume o ônus político de seguir com essa agenda, porque entende os ganhos que o reequilíbrio das contas públicas traz ao País no médio e longo prazos. Queda das expectativas de inflação, dos juros, aumento do PIB potencial, tudo isso já é amplamente conhecido, mas passa ao largo do pensamento econômico petista, que está mais preocupado com a queda da popularidade do presidente e com o risco de viralização dos vídeos do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira (PL-MG).

Abraçar a agenda fiscal começa pela defesa intransigente do ajuste, pela comunicação clara e transparente com a sociedade, e não com o compromisso de informar primeiramente os líderes do Congresso, em uma negociação a quatro paredes, como a que está prevista para o próximo domingo, 8. Em Brasília, esse encontro no fim de semana ainda é visto com desconfiança, já que as lideranças terão de voltar às pressas de suas bases para debater com técnicos do governo.
O rebaixamento da perspectiva da nota de crédito do Brasil, na última sexta-feira, pela Moody’s foi um recado importante ao governo, porque a agência havia melhorado a projeção como um voto de confiança, após encontro com o presidente Lula e o ministro Haddad, em Nova York, em setembro do ano passado. Lula, aparentemente, não cumpriu com o combinado, que era fazer o necessário para manter o arcabouço fiscal de pé.
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Isso praticamente enterra o sonho de o governo recuperar o grau de investimento neste mandato. O mais provável, agora, é que o Brasil volte a ser rebaixado, com a implosão prevista do arcabouço fiscal nos próximos anos.
Haddad criou uma confusão no IOF – de forma intencional ou não –, o que acabou reabrindo uma janela de negociação para o ajuste fiscal. Mas ela esbarra nos mesmo problemas de sempre: as pressões contrárias que vêm dos lobbies atingidos pelas medidas e a falta de vontade do presidente Lula de abraçar e defender essa agenda.






