O mercado financeiro olha para o futuro e antecipa decisões no presente. É isso que explica a diferença entre os bons indicadores da economia real, como PIB e desemprego, e a forte piora dos ativos financeiros nos últimos dias. Há, contudo, um dado que já está materializado nas estatísticas. Não se trata de uma previsão, mas de um fato. O endividamento do governo brasileiro, excluindo o período atípico da pandemia, é recorde, com um aumento de sete pontos percentuais somente neste governo.
A dívida bruta hoje está em 78,64%. Para efeito de comparação, Dilma tomou posse com o número em 52,4%. Isso torna o quadro mais complexo e exige soluções urgentes, porque o Brasil é um País que historicamente paga juros altos para rolar essa dívida. Daí vem o desespero e a preocupação de quem faz projeções sobre as nossas contas. A comparação internacional, nesse caso, é quase sempre descabida.

Ao longo do ano, houve três novidades que agravaram o quadro. Primeiro, o mercado foi otimista demais com a inflação. Em janeiro, projetava o IPCA em 3,9% e o número deve fechar em torno de 4,8%, acima do teto da meta. Com isso, foi otimista também para os juros. Em janeiro, projetava 9% para o fim do ano, sendo que a Selic fechará em 12,25%.
Por fim, houve uma enorme frustração com o pacote de cortes de gastos anunciado pela Fazenda, depois de meses de expectativa. Vale lembrar que foi o Estadão, em junho, que revelou que Haddad preparava um cardápio de medidas fiscais para levar a Lula, após uma alta do dólar que na época estava em R$ 5,48. A meta era colocar as principais despesas dentro do teto de crescimento de 2,5% ao ano acima da inflação — o que não aconteceu no anúncio em novembro. A reação negativa foi proporcional aos meses de espera.
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Em Brasília, a Praça dos Três Poderes se transformou no epicentro de uma realidade paralela. O presidente Lula, no Palácio do Planalto, entende que os juros altos são a única coisa errada no campo econômico. No Congresso, as movimentações na Câmara e no Senado são para desidratar as medidas enviadas pelo Ministério da Fazenda. E no Supremo o que se vê é a defesa de seus próprios interesses, representada pela fala do presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, que justificou penduricalhos pagos a magistrados.
Nos bastidores e em falas públicas, o PT indica que vai esticar a corda, porque entende que há politização do mercado, que mantém apoio a Bolsonaro mesmo com as ameaças que seu grupo representa para a democracia. Já os investidores não se sentem na obrigação de financiar um governo que os maltrata diariamente e que não entendeu a gravidade da crise. Não há sinais de trégua no campo econômico.






