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Jornalista e comentarista de economia

Opinião|Os reajustes do diesel e da gasolina

Falta de transparência da nova política de preços da Petrobras tende a acentuar o comportamento defensivo de agentes do mercado e pode dificultar a coordenação das expectativas do Banco Central e conter a queda dos juros.

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Atualização:

Os reajustes do tipo “meia pancada” nos preços do óleo diesel (25,8%) e da gasolina (16,2%) lançam mais dúvidas sobre os novos critérios de preços da Petrobras que substituíram a regra anterior, a da paridade internacional.

Em seu depoimento em uma das comissões do Senado nesta quarta-feira, o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, justificou a decisão como necessidade de se antecipar à nova alta do petróleo esperada pela provável recuperação da atividade econômica dos Estados Unidos e da China.

Em nenhum momento mencionou a provável razão mais importante: a de que o atraso nas remarcações já vinha produzindo certo desabastecimento de diesel, na medida em que levou os importadores de combustíveis a se retirarem do mercado porque já não podiam competir com os preços achatados da Petrobras. Prates chegou a afirmar que não há risco de desabastecimento de diesel. Mas isso parece ter-se seguido apenas depois dos reajustes agora definidos.

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Se a Petrobras conseguisse atender a todo o mercado nacional, seja com combustíveis de suas refinarias seja com importados, essa ameaça de desabastecimento não existiria.

A corporação dos funcionários da Petrobras e a velha guarda petista vêm pressionando o governo Lula para que determine a construção de outras refinarias estatais, de modo a garantir autossuficiência em combustíveis. Prates advertiu que não faria sentido construir novas refinarias. As razões técnicas para essa afirmação são definitivas. Uma nova refinaria levaria pelo menos sete anos para ser erguida e mais três décadas para pagar o investimento. No entanto, a transição energética em curso produzirá enorme capacidade ociosa de refinarias em todo o mundo entre 15 e 20 anos.

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Petrobras anunciou reajuste nos preços do óleo diesel (25,8%) e da gasolina (16,2%).  Foto: Paulo Guereta/Agência O DIA

O presidente da Petrobras repete que os combustíveis não podem seguir a volatilidade dos preços do barril de petróleo. Se está correta a aposta do avanço dos preços internacionais em consequência do aumento do consumo, a principal consequência desse ponto de vista é a necessidade de “reajustes pancada”.

A nova alta dos combustíveis em vigor a partir desta quinta-feira por si só acrescentará alguma inflação em torno de 0,4% nos dois próximos meses. E pode sancionar novas altas nos outros itens da cesta de consumo do brasileiro.

Não há como evitar esse efeito. O subjetivismo e a falta de transparência da nova política de preços da Petrobras tendem a acentuar o comportamento defensivo dos “fazedores de preços” em todo o País, fator que pode dificultar a coordenação das expectativas do Banco Central e conter em alguma medida a esperada queda dos juros.

Opinião por Celso Ming

Comentarista de Economia

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