Ah, esses misteriosos Povos do Mar! Quanto estrago não produziram eles no fim da Idade do Bronze! O filme A Odisseia, de Christopher Nolan, faz várias referências a eles. Foram invasores de origem obscura que chegaram em embarcações para espalhar o terror. No filme, ameaçaram o reino de Ítaca, do herói Ulisses.
Esses povos estiveram entre os agentes que produziram a catástrofe que destruiu a maior parte das civilizações do Mediterrâneo Oriental, no século 12 a.C. Foram então arrasados quase simultaneamente grandes impérios e cidades-estado antes prósperas: império minóico, na ilha de Creta; o miceno, no Peloponeso (Grécia); o hitita, na Anatólia (hoje, Turquia), o assírio, o babilônio e o cipriota.
A partir de então, instalou-se uma idade das trevas que durou séculos. Cidades foram abandonadas, culturas se extinguiram, a escrita desapareceu, e o comércio, em uma região antes interligada, desmilinguiu.

As hordas dos Povos do Mar só foram contidas pelas tropas do faraó Ramsés 3º, em batalha travada em 1175 a.C, no delta do Nilo.
No livro notável escrito pelo professor de História e Arqueologia da Universidade George Washington, Eric Cline narra a “tempestade perfeita” que produziu a derrocada. Trata-se da obra 1177 a.C, o ano em que a civilização entrou em colapso, editada em português pela Faro Editorial.
O professor Cline argumenta que esses Povos foram mais consequência do que causa do apocalipse de então. Com uma profusão de dados arqueológicos e de outras ciências, Cline mostra que uma seca devastadora durou mais de um século, espalhou fome e epidemias, arruinou sociedades, antes fortemente organizadas, enfraqueceu governos – enfim, tornou grandes impérios altamente vulneráveis a ataques internos e externos.
Os Povos do Mar devem ser entendidos como aglomerações de refugiados que buscaram sobrevivência na pilhagem dos centros produtivos já enfraquecidos.
Faltam evidências de que esse fenômeno histórico tenha natureza cíclica e que, nessas condições, possa voltar a acontecer. No entanto, Cline sugere que algumas das características que ocorreram no fim da Idade do Bronze começam a se acentuar em nossos dias.
Ele se refere à atual migração dos povos, que fogem da fome e da pobreza, aos efeitos da crise climática que espalha catástrofes, como seca e incêndios, à pandemia do covid-19, que matou 22 milhões. Ele ainda não se refere aos estragos que a inteligência artificial pode produzir, porque seu livro foi escrito antes dessa novidade.
O autor não se limita a advertências. Avisa que, depois das trevas, surgiu o renascimento vivido pela civilização helênica e, depois, pelo Império Romano.
No mais, a humanidade dispõe hoje de conhecimento e de tecnologia que não tinha antes. Mas seria isso suficiente para evitar o pior?






