Economia e políticas públicas

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Eleição tarda, mas parece estar chegando aos preços

Favoristismo de Lula parece ter começado a afetar o mercado financeiro, que é cético sobre ajuste fiscal em caso de vitória do atual presidente.

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Foto do autor Fernando Dantas

O mau desempenho dos ativos brasileiros nas últimas semanas - alta do dólar e queda da bolsa - vem sendo interpretado por participantes do mercado financeiro como sinal de que as eleições começam a afetar os preços. O fato de a performance nacional ser pior do que a de outros emergentes comparáveis reforça essa narrativa.

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Para os mais cautelosos, esse efeito tardou a ocorrer, mas a demora está em consonância com o acontecido em outras eleições na América Latina recentemente. Na Colômbia, por exemplo, o estresse no mercado pela possibilidade de o candidato de esquerda vencer - o da direita acabou ganhando - só esquentou para valer cerca de um mês antes da eleição.

O problema do mercado é com o favoritismo de Lula, reforçado pelas dificuldades que a candidatura de Flávio Bolsonaro vem enfrentando. O candidato de oposição não conseguiu atrair os principais partidos do Centrão e terá bem menos tempo de TV do que o atual presidente.

Além disso, a candidatura de Flávio foi abalada por escândalos, como suas transações financeiras com Daniel Vorcaro, e circulam rumores de que mais munição pesada pode atingir o filho de Jair.

A visão da maior parte do mercado sobre as perspectivas fiscais do Brasil num eventual quarto mandato de Lula são muito negativas. A relação dívida/PIB deve crescer pouco mais de 10 pontos percentuais neste terceiro mandato e há o temor que possa se aproximar de 100% do PIB ao fim de um quarto. Seria um nível perigosamente elevado para um país emergente.

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Os sinais fiscais que vêm sendo dados pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, são considerados insuficientes, como a possibilidade de reduzir o teto do aumento real de despesas - as que estão regradas pelo arcabouço; há muito gasto que foi excepcionalizado - de 2,5% para 1,5% ou 2%.

Adicionalmente, mesmo o pouco prometido por Durigan vem sendo de certa forma contradito por Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás e coordenador do programa de governo de Lula. Gabrielli é crítico do "arrocho fiscal" e defende a taxação dos superricos, plataforma vista pelo mercado como populista de esquerda.

Lula pode até sinalizar que as promessas de Durigan têm mais peso para ele do que as ideias de Gabrielli, mas o problema é que este último representa o PT "raiz" e é sabido que o partido luta muito para influenciar a política econômica dos governos petistas.

Adicionalmente, um eventual quarto mandato com certeza será o último de Lula, que provavelmente vai querer deixar um legado que coroe o seu longo período como presidente. Neste caso, toda a sua história política aponta mais para expansão de gastos sociais do que para ajuste fiscal.

Assim, investidores -  com destaque para estrangeiros - que vinham permanecendo comprados em Brasil para faturar o altíssimo juro real podem estar começando a sair dessas posições por temor eleitoral.

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Os mais pessimistas consideram que a piora recente dos ativos brasileiros é apenas um tira-gosto diante do que pode vir à medida que as eleições se aproximem e o favoritismo de Lula se confirme. Por outro lado, apesar dos escândalos e dos problemas em formar sua coligação, Flávio permanece não muito longe de Lula. Eventual recuperação do candidato de oposição pode ter o efeito inverso, e soprar a favor dos ativos nacionais. O mais provável é que até a eleição haja muita volatilidade.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/8/2026, sexta-feira.

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