EXCLUSIVO

Bastidores do mundo dos negócios

Bastidores do mundo dos negócios

Master tem em carteira disputas judiciais de usinas com recuperação duvidosa

Precatórios, que sustentam negócios do banco, não têm qualquer valor no mercado

PUBLICIDADE

Foto do autor Cynthia Decloedt
 Foto: Divulgação Banco Master

Uma lista com mais de uma dezena de disputas judiciais de usinas de açúcar que integram a carteira de “precatórios” do Banco Master, obtida pelo Broadcast, mostra que este portfólio, que a instituição utiliza como uma das principais sustentações de seus negócios, não tem, em boa parte, qualquer valor no mercado.

PUBLICIDADE

São direitos creditórios e precatórios do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que têm chance de recuperação duvidosa e, por isso, um valor controverso, fazendo com que normalmente não sejam aceitos por gestoras que negociam precatórios, disseram três especialistas do mercado de precatórios consultados pela reportagem.

“O preço dos títulos do IAA são normalmente de opção, como dizemos no mercado, ou seja, o valor é aleatório, já que a chance de recebimento é binária, pode ou não acontecer”, afirmou um advogado. Um dos especialistas acrescentou que quando negociações ocorrem, são feitas a 1% do valor de face.

‘Nada de Errado’

O Master marca seus precatórios e direitos creditórios com valor de face, ou seja, da causa. Com isso, os precatórios são, no balanço do Master de 2024, o segundo maior ativo da carteira de crédito, somando R$ 8,7 bilhões.

“Não há nada de errado na marcação ao valor de face, é permitido por lei e todos os bancos fazem isso, mas sobre títulos que são bons créditos”, afirmou um dos especialistas. Ele notou que o próprio Banco Central costuma fiscalizar os precatórios dos bancos, uma vez que são ativos para os quais as instituições têm de ter capital suficiente para cobrir, de acordo com a regulação.

Publicidade

O IAA foi criado pelo governo na década de 1980 para regular os preços da cana de açúcar, do açúcar e do etanol, e combater a inflação. A briga das usinas contra o IAA questiona perdas decorrentes do preço forçosamente praticado na venda desses produtos em relação a seus custos.

As fontes que operam no mercado de precatórios dizem que uma grande maioria dessas disputas judiciais contra o IAA nem chega a ser precatório, porque muitas usinas não conseguiriam apresentar os documentos exigidos pela Justiça para comprovar seu direito. Ao mesmo tempo, muitos dos títulos que já são precatórios, ou seja, aqueles em que a disputa judicial já foi transitada em julgado e não cabe mais recurso, estão com pagamentos suspensos.

Um divisor de águas nos direitos creditórios do IAA aconteceu em 2015, quando a Justiça passou a exigir comprovação do prejuízo realizado, depois de julgar o caso da Usina Matary. “Isso mudou completamente o mercado e houve processos que, apesar de ganho, voltaram à estaca zero”, afirmou um gestor de crédito inadimplente e de disputas judiciais.

Não é a toa que, de acordo com relatos publicados na imprensa, o sócio fundador do BTG Pactual, André Esteves, teria ofertado R$ 1,00 pela carteira de precatórios e direitos creditórios do Master, diz um dos interlocutores ouvidos.

O Master tem, de acordo com o demonstrativo financeiro relativo a 2024, R$ 8,7 bilhões em direitos creditórios e precatórios em sua carteira de crédito e ativos. O demonstrativo não identifica quais são os direitos creditórios ou precatórios que estão nesta carteira.

Publicidade

Duas das fontes consultadas pelo Broadcast disseram que os papéis do IAA representam boa parte da carteira do Master. Uma delas, próxima ao banco, afirma que pelo menos a metade é composta por papéis do IAA. Entre os detidos pelo Master, apenas três já seriam de fato precatórios, ou seja, a disputa judicial já foi transitada em julgado e não cabe mais recurso. “Os demais, são processos que levarão muito tempo, porque muitas dessas usinas não têm os documentos necessários e exigidos pelo judiciário para comprovação da causa”, disse uma das fontes.

PUBLICIDADE

Além disso, as disputas judiciais envolvendo usinas, acrescenta um dos interlocutores, têm ramificações, muitas vezes envolvendo outros credores além do instituto. Um dos papéis do IAA do Master que já é um precatório deriva de uma usina cujo dono morreu devendo uma fortuna ao Fisco e a um banco público. “Quem compra um papel como esse corre um belo risco de ter que discutir prioridades em concurso de credores”, afirma a fonte.

Moeda de troca furada

Dado esse cenário, é pouco provável que os precatórios do Master possam ser aceitos para compensação fiscal, portanto, dificultando que sirvam como moeda em eventual negociação de venda da carteira de precatórios do Master. “A União não reconhece nada envolvendo precatório de IAA. Se o fizer agora, será a primeira vez”, disse o advogado.

Procurado, o Master não retornou até a publicação desta reportagem.

O Broadcast+ é uma plataforma líder no mercado financeiro com notícias e cotações em tempo real, além de análises e outras funcionalidades para auxiliar na tomada de decisão.

Publicidade

Para saber mais sobre o Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse.