Mercado de carbono: empresas lançam iniciativas para recuperar confiança após crise de credibilidade

Mercado voluntário sofre com descrença há quase um ano; preços estão estagnados

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Por Luciana Dyniewicz
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Com o mercado voluntário de crédito de carbono atravessando uma crise de credibilidade há quase um ano, ferramentas para aumentar a transparência e tentar retomar a confiança do investidor no setor se tornaram o foco das empresas e um dos grandes temas da Conferência das Nações Unidas Sobre Mudança Climática (COP-28). As iniciativas que as companhias estão estudando e desenvolvendo vão desde plataforma digital para registrar projetos a “turismo do carbono”.

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“Não é algo orquestrado. É natural que isso (o trabalho para reconstruir a credibilidade) aconteça após a expansão que aconteceu no setor e depois da ocorrência de projetos passíveis de crítica”, diz Luciano Corrêa da Fonseca, sócio da Carbonext, empresa brasileira que desenvolve projetos de carbono. “Está na hora de quem está envolvido no tema construir caminhos para o mercado”, acrescenta.

Os projetos a que Fonseca se refere ficaram conhecidos em janeiro, após o jornal inglês The Guardian, a revista alemã Die Zeit e a organização de jornalismo investigativo sem fins lucrativos SourceMaterial publicarem uma reportagem que mostrava que grande parte dos créditos de carbono reconhecidos pela Verra (a maior certificadora do mundo na área) não compensavam emissões como deveriam. A matéria se baseava em dois estudos que mostravam que, de 29 projetos aprovados pela Verra, apenas oito apresentavam evidências de redução significativa de desmatamento.

Os projetos eram do tipo REDD+, que dão aos proprietários de terra um incentivo para manterem florestas em pé. Nesse modelo, engenheiros calculam qual o porcentual médio de desmatamento na região da propriedade que comercializa os créditos. No ano seguinte, voltam ao local e verificam quanto foi devastado. Se o dono da terra conseguiu manter mais mata do que se calculava que seria destruído, essa diferença é convertida em créditos de carbono, que podem ser revendidos a empresas interessadas em compensar suas emissões.

Créditos de carbono são gerados apenas em regiões onde há risco de desmatamento e quando o proprietário da terra consegue evitar a devastação Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Os projetos da Verra superestimavam o risco de desmatamento em cerca de 400%, de acordo com estudo da Universidade de Cambridge feito em 2022 e analisados pelos jornalistas do Guardian, da Die Zeit e da SourceMaterial. Desde a publicação da reportagem, o setor entrou em crise.

Procurada, a Verra afirmou que “transparência e aumento da integridade no mercado de carbono” são seus “princípios fundamentais”. A empresa afirmou ter realizado um trabalho em que ouviu 30 organizações do setor, além de uma pesquisa com 500 entrevistados.

Com base nisso, listou ações que estão sendo tomadas. Entre elas, estão uma nova metodologia para medir o nível médio de desmatamento nas regiões dos projetos de carbono, investimento em tecnologia para aumentar a transparência das operações e um programa de auditoria dos projetos.

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À espera da regulação

“Eu percebo que a credibilidade está bem afetada quando os compradores de crédito dizem que não compram mais REDD+. Ou quando falam que vão esperar o Brasil regular o mercado”, diz Yuri Rugai Marinho, sócio da Eccon, que também desenvolve projetos de carbono.

Para o professor de economia da UERJ e especialista em mercado de carbono Ronaldo Seroa da Motta, um dos indicativos de que o setor continua em crise é o fato de o preço médio do crédito REDD+ estar estacionado ao redor de US$ 8, enquanto o do crédito gerado em áreas reflorestadas chega a US$ 45. Uma forma de melhorar a transparência do setor, segundo Motta, é considerar territórios inteiros (Estados, por exemplo) quando é feito o cálculo de desmatamento médio de uma região, e não apenas o entorno de um projeto - exatamente como a Verra anunciou, pouco antes da COP, que começará a fazer.

Já entre as propostas debatidas na COP para retomar a credibilidade do mercado está um sistema digital de acesso aos dados dos projetos. Hoje, a plataforma que reúne informações de cada projeto de carbono é uma espécie de pasta com PDFs dos documentos. A intenção é criar algo semelhante a um mapa, em que o investidor possa ver a localização do projeto e ter acesso às informações dele.

Outra discussão na COP é a de criar uma regulação também para o mercado voluntário. Com isso, seria possível unificar dados e ter um sistema de transparência. “Seria uma espécie de xerife para eventuais erros”, diz Marinho, da Eccon.

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Uma das maiores empresas do setor no Brasil, a Carbonext tem criado iniciativas para ampliar a divulgação de conhecimento sobre o funcionamento do mercado e, assim, alavancar a credibilidade. No fim de novembro, realizou um seminário sobre mitigação de risco na área e agora trabalha no desenvolvimento de um projeto de “turismo do carbono”.

A ideia é que propriedades que vendem créditos de carbono possam receber visitantes. “Ali a pessoa vai poder ficar na casa de um ribeirinho e ver como a área é monitorada”, diz Fonseca, sócio da empresa.

Além de sofrer com a crise de credibilidade decorrente do caso Verra, a Carbonext foi citada, neste ano, em reportagens sobre a suspeita de abusos por parte de empresas desenvolvedoras de projetos de carbono em contratos com povos originários. Uma matéria do site Sumaúma mostrou, em junho, que a companhia havia cancelado acordos com populações indígenas que lhe dariam exclusividade para vender o carbono capturado nas terras ocupadas por esses povos. A decisão ocorreu após o procurador da República Rafael Martins da Silva levantar dúvidas sobre a realização de consulta prévia aos habitantes dos territórios.

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“Não existe um protocolo no Brasil de como fazer um projeto de carbono em terras indígenas. Nós chamamos autoridades públicas para participar das reuniões (com as populações originárias) e, mesmo assim, fomos questionados. Então vimos que o Brasil ainda não está preparado para essa agenda”, afirma Fonseca.

O empresário diz não saber se isso fez com que investidores deixassem de comprar créditos, mas que houve muito questionamento. “Quem olha de fora acha que está tudo confuso. Isso traz dúvidas para o setor quando não deveria trazer.”

A Aliança Brasil NBS, entidade que reúne o setor, também tem criado projetos na tentativa de recuperar a credibilidade do mercado. Ela publicou um guia que orienta as companhias que trabalham com comunidades tradicionais e realizou uma conferência que tinha como um dos focos divulgar esse material. “Todos estão com essa preocupação (de retomar a confiança). Se não tiver um monitoramento para mostrar como os projetos são sérios, o setor morre”, diz Janaina Dallan, presidente da Aliança e sócia da Carbonext.

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