Crise do metanol: Fabricantes de bebidas já veem redução de 50% nos pedidos

Mercado de destilados no Brasil, que movimentou R$ 36,3 bilhões em 2024, enfrenta desafios com os casos de intoxicação por metanol, afetando toda a cadeia de produção

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Por Gilberto Amendola (especial para o Estadão)
Atualização:

O que é metanol? Bebidas alcoólicas adulteradas com a substância causaram mortes em SP

Utilizado na fabricação de tintas e vernizes, produto pode gerar sequelas graves e óbitos quando ingerido. Crédito: Amanda Botelho/Estadão e Motion Array

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Em fevereiro deste ano, o setor de bebidas comemorava os dados do IPC Mapas. De acordo com esse levantamento, o mercado de destilados no Brasil movimentou aproximadamente R$ 36,3 bilhões em 2024 — com aumento de 8,7% em relação ao ano de 2023. Oito meses depois, os casos de falsificação de produtos e intoxicação por metanol fizeram com que o cenário mudasse.

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Com apenas uma semana desde a divulgação dos primeiros casos graves no Brasil (até o fechamento desta matéria eram 59 notificações de intoxicação por metanol; 11 casos já confirmados), toda a cadeia de produção, composta por fabricantes (destilarias), distribuidores e bares, já sente os impactos das intoxicações em seus negócios.

A Geest Destilaria, localizada em Vargem Grande do Sul, no interior de São Paulo, com uma produção de aproximadamente 2,5 mil litros mensais, já sentiu uma queda de 50% nos pedidos de destilados (13 produtos). “O alarde e desinformação vem por Whatsapp, Instagram e outros meios. As mensagens são do tipo ‘não saiam de casa’. Com esse choque, muitos bares decidiram não comprar — achando que os destilados seriam proibidos indefinidamente”, fala Marcelo de Abreu, sócio da Geest.

A mesma situação acontece com a Single Fin, marca de gim produzida na Barra do Sahy. De acordo com a diretora de vendas da marca, Marina Bacciotti, a queda imediata nos pedidos foi de cerca de 50%. “Com potencial para uma queda de 80% no próximo mês — quando os pedidos para novas compras devem ser feitos”, disse. O maior impacto vem da desistência de compras por grandes eventos — como festas de empresas, casamentos e formaturas.

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Ministrão, bar em São Paulo fechado por ter tido casos de intoxicação por metanol Foto: Daniel Teixeira/Estadão

André Sá Fortes, sócio fundador da YVY destilaria, prevê um impacto relevante no próximo mês. Por isso, antecipou-se à crise e tem disponibilizado todos os laudos sobre os processos de destilação e álcool usados na sua destilaria. “O que é preciso deixar claro, é que quando a compra é feita em uma cadeia mais curta, ou seja, direto do fabricante, a chance de falsificação é muito menor. Sem disputa de preço ou orçamento, a questão da falsificação perde o sentido”, fala. Para ele, os falsificadores atuam no mercado de marcas multinacionais — porque são elas que têm “uma demanda automática” dos bares e do público final.

Além disso, desde 2022, a YVY trabalha com refil de gim em latas de alumínio — vendidas para bares ou restaurantes. Com 3 anos de ação, a marca já vendeu 560 mil latas de refil. “O que significa menos 560 mil garrafas no mercado — colaborando, assim, para o combate das falsificações”, explicou André.

É importante ressaltar que as falsificações não são uma novidade no mundo das bebidas. De acordo com um estudo feito pela Euromonitor International para a Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD), o País deixou de arrecadar R$ 28 bilhões em impostos em 2024 por conta das falsificações etílicas. Ainda de acordo com a pesquisa, as falsificações representariam 28% do mercado de destilados.

Distribuidora e Bares

A importadora e distribuidora Casa Flora, com mais de 55 anos de mercado, tem no seu portifólio marcas premium de uísque, gim e licores. De acordo com o diretor da Casa Flora, Antonio Pereira Carvalhal Neto, apesar de uma retração visível da categoria dos destilados, ela será mais bem quantificada no próximo mês. “Como não são produtos de alto giro, nossos clientes ainda têm o estoque. É provável que esse cliente vá retardar o abastecimento futuro. Só um pouco mais para frente teremos condições de identificar perdas neste sentido”. Para Neto, o importante é que a partir de agora se “crie regras, normas, leis e procedimentos para que o consumidor tenha menos riscos de consumir um produto falsificado”.

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Ricardo Chiappetta, da San Basile, fabricante responsável por produzir 150 mil litros por ano, já reuniu todos os laudos e autorizações para enviar aos clientes nacionais e para o mercado estrangeiro — mostrando a procedência de seus produtos. Embora ainda não consiga quantificar possíveis prejuízos em termos de “vendas de garrafas”, ele já sentiu os reflexos negativos na outra ponta do seu negócio. “A Sab Basile também tem um bar, o Oculto. Para esse fim de semana, 90% das reservas já foram canceladas”, conta. Essa é a mesma situação de Pablo Moya, proprietário da Nib (Fábrica) e do Frigobar (Bar). “O impacto nas vendas será grande — e já pode ser sentido. As pessoas estão preocupadas e deixando de sair. O movimento do meu bar já caiu nesta semana. Vamos ver as próximas”, disse.

Reflexos positivos

Arthur Flosi, fundador e Master Distiller da BEG Destilaria, a desinformação e notícias desencontradas estão contribuindo para o pânico. Apesar disso, de acordo com Flosi, a BEG tem recebido novos pedidos de comprar e fornecimento para eventos. “Isso porque comprar direto do fabricante, sem intermediários, aumenta a segurança de todo o processo”, disse.

O mesmo tem acontecido com a Cúria Destilaria. Como fabricante e distribuidora única de seus produtos, a empresa já notou um aumento na procura e compra dos seus produtos. “Tivemos um aumento de 50%. Alguns lugares que não compravam da gente por uma diferença de R$ 3 ou R$ 4 estão nos procurando. Distribuir o próprio produto é um fator de segurança”, disse o sócio Rodrigo Cúria.

As Multinacionais

Diferentemente de muitas fabricantes nacionais, as multinacionais estão preferindo não se manifestarem diretamente sobre os casos de falsificação e seus impactos nos negócios. Marcas como Diageo, Pernod, Campari, Bacardi e outras estão dando suporte para entidades do setor, como a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe).

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A entidade, que representa 33 empresas e centenas de marcas, soltou uma nota na última quinta-feira reforçando apoio às fiscalizações: “Desde o surgimento dos primeiros casos, e enquanto aguardamos detalhes sobre as investigações, a Abrabe intensificou sua atuação institucional. Reforçamos o apoio às fiscalizações e, em parceria com outras entidades, aumentamos os treinamentos para orientar funcionários e parceiros sobre a identificação de bebidas falsificadas e a importância da legalidade e regularidade no setor”.

Ainda de acordo com a nota da Abrabe, a entidade já acompanhou “mais de 160 operações de combate ao mercado ilegal de bebidas, realizadas por órgãos de repressão. E já realizou 87 treinamentos de capacitação para mais de 4,5 mil autoridades, órgãos de proteção ao consumidor e vigilância sanitária”.