FGV: expectativa para 2024 é de um ano tenso com incerteza fiscal e troca no BC, dizem economistas

Tendência, segundo pesquisadores, é que o governo queira aumentar gastos e tente um incremento de carga tributária para fechar as contas em período marcado por eleições municipais

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Por Daniel Tozzi Mendes e Marianna Gualter
Atualização:

Apesar de certa previsibilidade nos cenários para 2024, o ano que vem tem tudo para ser relativamente tenso, afirmou nesta quinta-feira, 7, o pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), Armando Castelar.

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O ambiente fiscal e a mudança de presidência do Banco Central podem ser fontes relevantes de incerteza para o período, acrescentou. Ele participou do seminário de Análise Conjuntural promovido pela FGV em parceria com o Estadão, na manhã desta quinta.

Com as eleições municipais e outras questões políticas, a tendência é que o governo federal queira aumentar gastos e tente um incremento de carga tributária para fechar as contas, analisou. O problema, ressaltou Castelar, é que a tolerância para o aumento de carga, que já não é tão grande, está diminuindo. “O primeiro ano de governo é de lua de mel”, disse. “Vai gradativamente estressando.”

Para o pesquisador, haverá uma tensão recorrente de propostas de incremento de carga que não vão andar, o que deve gerar incerteza para os investidores. “Se muda a tributação do investimento que ele está fazendo, muda a lógica do investimento”, frisou. Castelar acrescentou que, além desse impasse, o aumento do gasto também pode limitar o espaço para a redução de juros pelo BC.

Para pesquisadores, chance de o Banco Central acelerar o ritmo de cortes da taxa Selic para 0,75 ponto porcentual à frente é próxima de zero Foto: Dida Sampaio/Estadão - 03/12/2021

À autarquia, Castelar atribuiu outra fonte de volatilidade em 2024. “Teremos a transição do BC no ano que vem. A troca de presidente”, disse o analista, que ressaltou que o processo pode gerar incertezas no mercado.

Ele afirmou considerar que o grande desafio para a economia brasileira em 2024 é a questão fiscal, que, segundo ele, “segue se deteriorando a passos largos”. “A credibilidade do novo arcabouço, se é que ainda tem, eu acho que tende a desaparecer”, afirmou o pesquisador. Segundo ele, não há expectativa de que o governo cumpra a meta de déficit fiscal primário zero em 2024.

Ainda que o fiscal seja um ponto de preocupação, Castelar avalia que esse cenário ainda não tem trazido grandes efeitos na precificação de ativos brasileiros e no câmbio. Entre as razões para isso, ele cita que pode ser efeito das contas externas brasileiras em um nível bastante “favorável”. “Fica difícil bater no câmbio, quando você tem saldo comercial recorde e déficit em conta-corrente caindo”, afirmou.

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Outra razão para isso, segundo ele, poderia ser a melhor posição do Brasil em relação aos demais países emergentes. “Há um concurso de feiura entre os emergentes. O Brasil está mal, mas quando você olha Turquia, Argentina e Rússia nesse concurso, o Brasil está razoável”.

Esse cenário, segundo Castelar, deverá ser lido pelo governo federal como um “endosso” à política fiscal e parafiscal expansionista. “O governo vai pensar que não precisa se preocupar, porque o real está valorizado e o pessoal está colocando dinheiro aqui”, diz.

O pesquisador ainda cita a “briga política” que deverá ocorrer no próximo ano, em virtude do período eleitoral, com a pressão por mais gastos por parte de parlamentares. “Quem você elege para prefeito em 2024 vai ter muita influência sobre quem vai ser deputado em 2026″, atenta.

Cortes na taxa de juros

Para o chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/Ibre, José Julio Senna, que também participou do seminário, o Banco Central deve promover mais três cortes de 0,50 ponto porcentual na taxa Selic, nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) em dezembro, janeiro e março. A partir desse ponto, segundo ele, o cenário de incerteza é muito grande, o que dificulta a avaliação.

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“Diria que, a julgar pelo cenário lá fora, o BC tem condições de continuar com cortes de 0,50 ponto. O presidente do BC tem enfatizado (nos comunicados) a manutenção do ritmo nas próximas reuniões, o que, na cabeça dele, significa mais duas reuniões. Mas temos um grau de confiança muito bom que, pelo andar da carruagem, podemos esticar essa corda um pouco, com três cortes de 0,50″, explicou Senna.

A chance de o Banco Central acelerar o ritmo de cortes da taxa Selic para 0,75 ponto porcentual à frente é próxima de zero, segundo ele. “O ciclo de baixa já começou sem que as condições técnicas estivessem perfeitamente satisfeitas”, avalia o economista, citando, em especial, as expectativas de inflação ainda bastante desancoradas. “Seria abusar da sorte acelerar, acho que não vão fazer isso”, reforçou.

Para além da definição do ritmo de cortes, Senna destaca que a principal questão em termos de política monetária doméstica é até onde o BC irá levar o juro no atual ciclo de afrouxamento monetário. “O Roberto Campos Neto e o Diogo Guilen disseram que a Selic terminal será contracionista, então vai terminar o ciclo em território restritivo”, pontua Senna. Esse nível, segundo ele, deverá ser em torno de 10%, dada uma estimativa de juro real neutro que hoje está em torno de 4,5%.

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Apesar de considerar que a tendência no cenário externo, no geral, tem sido boa nas últimas semanas, Senna considera haver um “excesso de otimismo” com relação à política monetária dos Estados Unidos, por exemplo. “Suspeito que o Federal Reserve (Fed) não esteja contente com o que está vendo, e em algum momento ele vai ‘puxar o freio de mão’, no momento adequado, mas o cenário é bom lá fora”, destacou.

Em sua avaliação, a capacidade da taxa de juro básica dos Estados Unidos de influenciar as condições financeiras se esgotou. “O Fed já jogou a toalha para aumento de juro. A ênfase saiu disso faz tempo já e a razão que importa são as condições financeiras”, afirmou. “Se o Fed subir a taxa agora é capaz de o juro de longo prazo até cair”, acrescentou.

Assim, segundo ele, o mecanismo existente seria o Fed tentar influenciar o caminho esperado para a taxa de juro, dando sinais “mais explícitos” do momento que deve haver corte no juro básico.

Dessa forma, o economista acredita que, na próxima reunião do Fed, na semana que vem, é provável que a autoridade monetária manifeste “algum descontentamento” com o que ele considera ser um certo otimismo por parte do mercado financeiro, que vem apostando em seis ou sete cortes na taxa de juro básico americano em 2024, enquanto as sinalizações dadas até o momento são de que deve haver dois cortes, apenas.

“Também não é papel do BC ficar todo dia dando sinais com a chamada curva de juro, mas a reunião da semana que vem é ideal para ele dar um sinal”, diz.

Projeção para o PIB

O FGV/Ibre elevou a projeção para crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2023 de 2,7% para 2,9%, afirmou a coordenadora do Boletim Macro do Instituto, Silvia Matos, durante participação no seminário. A revisão, segundo ela, ocorreu devido às revisões na série histórica do IBGE, na divulgação do PIB da última terça-feira, 5, que apontou crescimento de 0,1% da economia no terceiro trimestre.

Ela também cita que o desempenho do setor agropecuário no PIB do terceiro trimestre, apesar de negativo (-3,3%) surpreendeu positivamente, o que contribuiu para a revisão altista. “O PIB agropecuário deve crescer 16% neste ano”, projeta.

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Apesar do crescimento expressivo do PIB neste ano, a economista considera que são claros os efeitos do aperto da política monetária no desempenho da atividade neste ano. Ela cita que, em 2022, cerca de 90% do crescimento do PIB partiu de atividades mais cíclicas da economia, ao contrário do que aconteceu neste ano, com os destaques sendo o setor agropecuário e a indústria extrativa. “Mas claro que a política monetária atuou muito menos do que o inicialmente imaginado”, acrescentou Matos, citando como exemplo os dados robustos de mercado de trabalho.

Ela também cita que, apesar do crescimento recente, o consumo das famílias tende a cair à frente, o que torna a visão sobre a desaceleração da atividade econômica aguardada à frente, menos otimista. “É uma desaceleração, mas não é nada muito dramático, desses setores mais cíclicos. Ninguém está falando de recessão”, destaca a economista. Já para o PIB do setor agro, a projeção de Matos é de desempenho estagnado, mas com chance de retração, especialmente no início do ano, a depender dos efeitos climáticos, sobre a produção.

Entre os fatores de risco à frente, a economista avalia que, diante de um cenário de desaceleração da atividade, o governo federal poderá querer estimular a economia, com expansão fiscal. “Isso pode prejudicar o segundo momento de combate à inflação”, observa.

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