‘Se essa for uma COP de ações, o Brasil está preparado para mudar o jogo’, diz CEO da Carbonext

Segundo Janaína Dallan, fundadora de uma das únicas desenvolvedoras de crédito que devem participar da COP em um painel, diz que evento é oportunidade de mostrar as boas práticas do Brasil na área

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Por Beatriz Capirazi
Atualização:
Foto: Divulgação/ Carbonext
Entrevista comJanaína Dallan Fundadora e CEO da Carbonext

A fundadora e CEO da Carbonext, Janaína Dallan, acredita que o tema da integridade e qualidade de créditos de carbono será um dos temas mais importantes a serem debatidos na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-28), realizada em Dubai, nos Emirados Árabes. A empresa, uma desenvolvedora de créditos de carbono, será responsável por dois painéis sobre o assunto durante a Conferência do Clima.

Segundo ela, o debate será extremamente relevante em meio a onda de críticas que o mercado voluntário vem enfrentando. A questão envolvendo projetos sem qualidade se tornou pública após cinco empresas brasileiras e três estrangeiras usarem terras públicas na Amazônia para negociar créditos de carbono com grandes empresas multinacionais de forma irregular, segundo informações da Defensoria Pública do Estado do Pará, em outubro deste ano.

Dentre as empresas estavam farmacêuticas e um clube de futebol da Inglaterra, que compraram créditos de carbono após os projetos serem registrados pela maior certificadora de venda de créditos de carbono no mundo, a Verra. Na época, a instituição afirmou que estava colaborando com a Defensoria, que está revisando as iniciativas. A instituição ainda disse que os projetos registrados passam por verificações e validações conduzidas por terceiros.

“O impacto [das polêmicas] foi grande, bastante significativo na compra de créditos. Alguns compradores pisaram no freio e disseram que não queriam mais comprar”, afirma Janaína. Segundo ela, muitas empresas enfrentaram dificuldades financeiras e tiveram de realizar demissões com desistências e a impossibilidade de negociar créditos.

Abaixo, confira os principais trechos da entrevista:

Janaína Dallan, fundadora e CEO da Carbonext, empresa responsável por dois painéis sobre a importância da qualidade dos créditos de carbono durante a COP. Foto: Divulgação/ Carbonext

Como será a participação de vocês na COP-28?

O governo federal fez uma uma chamada de proposições para que as empresas pudessem se colocar à disposição para estar no pavilhão do governo federal. A gente propôs ao governo que a questão de alta integridade e qualidade de crédito de carbono fosse um dos temas a serem debatidos. O governo aceitou e nos selecionou. Vamos estar no dia 8 de dezembro em um painel lá na COP. Convidamos algumas empresas do setor e algumas instituições, como o Voluntary Carbon Markets Integrity Initiative (iniciativa mundial para trazer integridade para o mercado), o Sylvera (empresa de rating que dá notas para os projetos), a Aliança Brasil (associação que reúne 60% das empresas desenvolvedoras de projetos de carbono no País) e a Verra (plataforma de registro de projetos do mercado voluntário de carbono). Para a gente foi muito satisfatório ter sido selecionado pelo governo federal para trazer esse tema de altíssima relevância para que o mercado continue sendo considerado um mercado de integridade, com projetos que realmente ajudem a reduzir emissões.

Havia a necessidade de mostrar essa integridade em meio às polêmicas que o mercado enfrenta?

Não queremos projetos que não entregam o que prometem ou que façam greenwashing. Por isso vai ser um debate extremamente relevante em meio a essa onda de críticas que a gente teve sobre mercado voluntário, projetos que não tem qualidade. Perante tudo o que está acontecendo eu acho que a discussão é válida, mas a gente tem de mostrar que os projetos são de qualidade e de integridade. Houve um impacto enorme neste mercado e foi bom para trazer essa discussão à tona. A gente sempre critica muito aquelas discussões infundadas, que não tragam dados. Dados importantes são sempre relevantes.

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Mostrar as ferramentas e os padrões de monitoramento que estão sendo criados e como os projetos estão mudando a vida das comunidades. Trazer isso de uma forma muito transparente e aberta vai melhorar bastante o mercado de carbono como um todo. Isso traz credibilidade para o País. Na COP, poderemos esclarecer o que tem sido feito e mostrar as boas práticas do setor após tudo o que aconteceu.

A sra. citou o impacto que as críticas trouxeram para esse mercado. A sra. acha que essas polêmicas trouxeram uma imagem negativa para o Brasil?

Entendo que o impacto foi grande, foi bastante significativo na compra de créditos. Alguns compradores de crédito pisaram no freio e disseram que não queriam comprar mais. O que é muito danoso porque quando se está no meio de um projeto em desenvolvimento é preciso fazer ações antes de ter o crédito efetivamente. É preciso fazer consultas prévias nas comunidades e começar a implementar ações de biodiversidade e social, por exemplo. Em alguns projetos fazemos campanhas de vacinação para uma comunidade que não tinha acesso, por exemplo, antes do projeto. Fazemos essa ponte.

Se não tem um comprador ou se ele retira a proposta, como se mantém essas atividades para comunidade? Ela já está na expectativa. É frustrante dizer que o cronograma de contratar professores, fazer campanha de vacinação e tudo o que estava sendo feito vai ser parado porque teve um comprador que ouviu no mercado que projetos dão problema.

Um dos projetos desenvolvidos pela Carbonext na Amazônia: o Caapii. Foto: MarcioNagano

Essa forma de tratar muito genericamente um projeto e atacar todos os projetos de carbono como se fosse um problema generalizado foi muito danosa. A gente sabe que tem projetos ruins e que muitos projetos deveriam ser revistos, mas essa generalização impactou muito negativamente o mercado

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Por outro lado, esse cenário trouxe a necessidade de empresas que estão fazendo projetos ruins melhorarem, ter novas ferramentas ou fazer algo de diferente. A barra de qualidade subiu muito após as polêmicas, colocando projetos com alta integridade lá em cima e quem não tem correr atrás.

A Carbonext é uma empresa que tem muito caixa e conseguiu não paralisar projetos, mas eu sei de empresas que tiveram de parar porque não tinham comprador, não conseguiam vender créditos, começaram a mandar gente embora. Eu falo que um projeto de carbono não é simplesmente carbono, ele entrega desenvolvimento socioeconômico para uma região.

Os projetos que são bens feitos, com critério, com metodologia científica e onde já havia comprovação de integridade não foram afetados. Os grandes compradores fazem diligências internas.

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Não é uma coisa simples. Quando alguém fala que é fácil, que é uma moda que todas as empresas estão fazendo tem de tomar cuidado. É algo que demanda muito recurso, investimento, ciência e tecnologia. Quando começou a acontecer esse debate, foi positivo para trazer mais transparência às ferramentas, mas não conseguimos deixar que não causasse danos. O impacto foi mundial, no mercado global. Na Indonésia e em países africanos também houve um grande impacto, tiveram projetos que sofreram com algumas denúncias.

Além da questão da integridade no mercado de carbono, qual a expectativa para a COP-28?

Fala-se muito que essa é a COP da ação, o que não é nada fácil porque são assuntos muito complexos. Com o artigo 6.4 do International Sustainability Standards Board (ISSB) já conseguimos recomendações para essa relação de compra e mercado de carbono.

Aumento de emissão climática deve ser um dos destaques da COP. Agora vamos ver se isso vai avançar após os Estados Unidos e a China terem dado indicativos de que vão fortalecer ainda mais as metas de redução das emissões. A diminuição do uso de combustíveis fósseis e o uso de energias renováveis também deve ser um tópico.

Recentemente o governo federal lançou alguns números relacionados a desmatamento e outras ações, como descarbonização e a transição energética, considerados baixos. Como a sra. vê esses resultados?

A gente está caminhando. Não estamos regredindo, não estamos com números piores. O País está na direção correta, ainda são pequenos números, tímidos, mas se for uma COP de ações, estamos muito preparados para realmente mudar o jogo.

Não que todo esse processo seja fácil, colocar todos os atores juntos, cada setor tem um interesse. É uma briga grande, mas que está sendo brigada.

Alguns empresários especulam que o Brasil pode ser questionado durante a COP sobre o que está sendo feito para tornar o agronegócio mais sustentável e diminuir suas emissões. A sra. também enxerga essa possibilidade?

Vai ser uma discussão que o Brasil vai ter de enfrentar. O agronegócio é extremamente relevante para a nossa economia e grande parte das nossas emissões vem de mudança do uso do solo, que inclui desmatamento e parte da agricultura primária.

Acho que vamos ser muito questionados e cobrados, porque isso não está entrando em um projeto de lei, não entra no mercado regulado, ficou de fora a questão primária de agricultura, vão surgir questionamentos. O Brasil vai estar em uma posição de tentar debater o porquê disso. Sabemos que a bancada ruralista é muito forte, talvez não tenha subsídios do porque ficar fora ou dentro. Se ficasse dentro poderia ser um provedor de créditos no final, um crédito com um valor muito mais alto que o voluntário.

Enquanto o do mercado regulado está sendo negociado a US$100, o do voluntário de renováveis é US$5, de florestas chegou a US$15, plantio de florestas US$25. Uma análise mais profunda de como o agro poderia se inserir faria sentido para eles mesmo, sendo um provedor de créditos deste setor.

E o Brasil está pronto para dar essas respostas?

Eu acho que não. Como é uma briga de forças no Congresso, eu entendo que vai ser difícil a gente ter uma resposta pronta. Não há esse entendimento tão claro para ninguém, então não vai ser nada fácil.

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