Riscos ESG aparecem em balanços de apenas uma em cada cinco das empresas mais representativas da B3

Especialistas creditam situação à falta de padronização sobre como informações devem aparecer; grupo internacional busca unificar normas

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Por Luis Filipe Santos
Atualização:

A preocupação com o setor ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês) ainda aparece pouco em balanços das empresas mais representativas da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo. Um levantamento realizado pelo Instituto de Auditoria Independente do Brasil (Ibracon) avaliou as demonstrações contábeis relativas a 2021 de 95 dentre as 100 empresas que integram o Índice Brasil 100 (IBrX 100): apenas 29 delas (30%) apontavam seus passivos ambientais no demonstrativo, e somente 21 delas (ou 22% do total) chegaram a algum tipo de risco ligado às questões de ESG.

Das 21 que identificaram riscos ligados ao ESG, 14 (15%) foram relacionadas a fatores ambientais; 5 (5%), a questões socioambientais, e as duas restantes (2%), não identificaram a área. Além disso, 17 (18%) apontaram provisão para desmontagem de ativos, saída, revitalização e/ou prejuízo (redução do valor contábil de um ativo, em decorrência de eventos que diminuam a expectativa de seu retorno financeiro), e dessas, 59% não publicaram nas notas explicativas a existência de riscos ambientais. Já 15 empresas relataram terem compromissos ESG formalizados e divulgados. No escopo da avaliação, não foram incluídos relatório da administração, relatório de sustentabilidade, formulário de referência, elatório dos auditores independentes, entre outros.

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De acordo com Rogerio Mota, diretor técnico do Ibracon, a ausência das informações não necessariamente significa uma negligência, mas aponta para a necessidade de uma complementação das informações sobre riscos e oportunidades em relatórios de sustentabilidade paralelos. Para ele, é provável que a porcentagem cresça nos próximos anos.

“É uma tendência na nossa visão, visto que já há casos de captação de recursos em que a obtenção de melhores taxas de juros está condicionada ao cumprimento de metas ESG. Essa tendência pode se estender a outros tipos de contratos”, projeta Mota. Também poderia ser benéfico junto a investidores, que cobrariam menores retornos por entender que organizações com boas práticas ESG têm riscos reduzidos e negócios sustentáveis.

Nelmara Arbex, sócia da consultoria KPMG Brasil e líder em ESG, avalia que as empresas passam por um momento de transição na publicação dos documentos, com diversas regras para a inclusão das questões nos balanços, e por isso podem evitar de se arriscar sem ter certeza de como incluí-las.

Empresas precisam complementar informações sobre sustentabilidade em relatório à parte, quando não estão no balanço Foto: Daniel Teixeira/Estadão

“É um aprendizado, estamos numa fase de transição. As questões ESG estão se aproximando do centro dos negócios e todos os setores vão experimentar algum tipo de mudança ou desafios que impactarão nos resultados financeiros”, diz Arbex.

Assim, seria importante olhar pelo outro lado: apesar de ainda estar nessa fase inicial, mais de duas dezenas de empresas já olharam as questões em seus balanços. A inclusão do ESG é uma sinalização ao mercado de que a organização compreendeu as questões e como será afetada por elas.

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“Antes de estar no balanço é preciso que a liderança entenda a relação entre esses fatores e o sucesso do negócio. É importante que para o mercado e os investidores fique evidenciado que os gestores entendem que esses fatores vão ter impactos e contem como vão lidar com eles”, avalia Arbex.

Normatização

Há uma tentativa a nível internacional de criar normas para incluir a divulgação do desempenho das empresas nas práticas ESG, encabeçada pela International Financial Reporting Standards (IFRS), organização sem fins lucrativos que visa definir padrões para relatórios financeiros.

Após a realização da COP26 em Glasgow, a IRFS anunciou a criação do International Sustainability Standards Board (ISSB) com esse objetivo em novembro de 2021. No Brasil, o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) constituiu o Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS) em junho de 2022, para ter contato com o ISSB. O comitê contará com representantes do CFC, do Ibracon, da B3 e de outras instituições.

“O benefício que se busca com a padronização é de possibilitar uma melhor análise e comparabilidade das informações prestadas pelas companhias, que permitam avaliar e comparar o desempenho das organizações em termos de práticas de sustentabilidade”, explica Zulmir Breda, membro do grupo de trabalho da criação do CBPS. Com a harmonização de padrões em níveis globais, a expectativa é que indicadores confiáveis sejam estabelecidos de acordo com a área de atuação de cada empresa e os investidores tenham mais segurança e clareza.

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Até o momento, o ISSB realizou consultas com entidades e interessados de diversos países, para conhecer as realidades locais antes de definir um padrão global que esteja de acordo com as normas da IRFS.

“O CBPS já enviou ao ISSB os seus comentários sobre as duas primeiras minutas de normas colocadas em consulta pública pelo organismo internacional. O relacionamento com a IRFS, onde o Brasil possui representantes, certamente será fortalecido”, projetou Breda. A primeira fase de consulta do ISSB terminou em 29 de julho, e os resultados serão discutidos nas reuniões do comitê - a próxima está marcada para ocorrer entre os dias 19 e 23 de setembro.

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