Análise | A inflação, o mau tempo do céu e a inclemência da política federal

A boa condução das finanças governamentais depende, de modo especial, do uso moderado e prudente das verbas públicas

PUBLICIDADE

Foto do author Rolf Kuntz

Pesadelo dos trabalhadores, a inflação chegará a 4,50% neste ano, baterá no teto da meta e continuará bem acima do centro do alvo, 3%, nos próximos três anos, segundo projeções de mercado registradas no boletim Focus, editado pelo Banco Central (BC). Para conter o aumento de preços, a autoridade monetária manterá os juros básicos entre os mais altos do mundo. A taxa Selic, referência para o mercado, ficará em 11,75% até o fim de 2024 e será reduzida lentamente nos próximos anos - para 11,25% em 2025, 9,50% em 2026 e 9% em 2027. Juros altos podem conter os preços, mas freiam também o crescimento do consumo, da produção e do emprego, impedindo o governo de cumprir a promessa de prosperidade prolongada.

A inflação projetada vem subindo há semanas, impulsionada pelas perdas na produção de alimentos, resultantes de problemas climáticos, pelo dólar instável, pela gastança federal e pela insegurança do mercado quanto à evolução das contas públicas nos próximos anos. Essa insegurança tem feito subir também a inflação estimada para 2025, agora calculada em 3,99%.

Custo da cesta básica em setembro subiu em seis de oito capitais pesquisadas Foto: Helvio Romero/Estadão

PUBLICIDADE

Especialmente danoso às famílias de baixa renda, o encarecimento da comida continua devastando o orçamento da maior parte dos trabalhadores. O custo da cesta básica subiu em setembro em seis das oito capitais cobertas pela plataforma Cesta de Consumo Horus e FGV-Ibre. O maior aumento foi registrado em Curitiba, onde a cesta encareceu 3,5%. A segunda maior variação, 2%, foi contabilizada em Manaus e em Brasília. Em São Paulo a alta foi de 1%. O custo diminuiu 1,4% no Rio de Janeiro e 1,3% em Fortaleza.

Só um dos 18 gêneros da cesta básica, o café, encareceu em todas as capitais. Em sete das oito capitais houve alta de preços de leite UHT, açúcar, massas e frango. Houve quedas de preços carne bovina, legumes, frutas, arroz e margarina.

Publicidade

Faltam ao governo os meios para regular o volume e a distribuição das chuvas, mas ele pode garantir alguma segurança ao abastecimento por meio da manutenção de estoques. Seguida com empenho durante décadas, essa política tem sido executada com resultados mais modestos há alguns anos. Mas, além de buscar a estabilidade de preços por meio das políticas de produção, de importação e de formação de estoques, o governo também pode evitar pressões inflacionárias por meio da boa gestão das contas públicas.

Não basta cuidar da arrecadação. A boa condução das finanças governamentais depende em primeiro lugar da política orçamentária e, de modo muito especial, do uso moderado e prudente das verbas públicas. Isso inclui, além de uma seleção cuidadosa de prioridades, uma programação cautelosa de gastos, tanto de custeio quanto de investimento. Investimento é gasto, sim, embora o presidente afirme o contrário, e o dinheiro investido é tão finito quanto qualquer outro e também dependente de fontes limitadas de arrecadação.

Os ministros econômicos podem prometer uma gestão financeira criteriosa nos próximos anos, mas é difícil implantar uma boa expectativa no mercado, quando o presidente da República se mostra disposto a seguir o caminho da insegurança. A incerteza sobre a evolução das contas federais e das pressões inflacionárias dificulta a redução dos juros e limita, portanto, as possibilidades de crescimento econômico.

Também isso é visível no boletim Focus. O crescimento esperado para este ano tem subido e chegou a 3,05% no último boletim, mas a taxa recua para 1,93% em 2025 e permanece em torno de 2% nos anos seguintes, com juros ainda muito altos pelos padrões internacionais. O presidente reclama dos juros elevados, mas é quem mais contribui para mantê-los nesses patamares.

Publicidade