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Bolsa brasileira deve ter retomada de IPOs em 2023, mas com mercado ainda ‘desconfiado’

Em 2022, Bolsa brasileira teve o primeiro ano sem estreias desde 1998; empresas de infraestrutura, energia e saneamento devem puxar a fila já no início do novo ano

Foto do author Fernanda Guimarães
Por Fernanda Guimarães

Antes da chegada do recesso de fim de ano, muitos banqueiros se reuniram com fundos estrangeiros para medir o interesse de investimento no Brasil, após mais de um ano de deserto de estreias na Bolsa brasileira, a B3. Depois de uma série de encontros, a mensagem foi de que há interesse em direcionar dinheiro ao Brasil. É uma sinalização de que pode estar perto do fim a seca de ofertas iniciais de ações – é o primeiro ano, desde 1998, em que a Bolsa não tem nenhum IPO (na sigla em inglês). Ainda assim, a volta é sem uma onda de euforia como a vista nos anos de 2020 e 2021.

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Mesmo com um olhar de cautela sobre os rumos da economia brasileira para 2023 e com ressalvas à sustentabilidade fiscal do País, as previsões são de cerca de 15 IPOs para o ano que vem. O giro da Bolsa pode chegar a R$ 80 bilhões – conta que inclui tanto as ofertas de empresas já listadas como as de companhias que chegarão ao mercado brasileiro. Segundo banqueiros de investimento, o Brasil pode se beneficiar de uma agenda ambiental mais robusta, mas precisará também provar que terá responsabilidade fiscal, especialmente nos cem primeiros dias do governo Lula.

Em 2022, apesar do mercado travado para IPOs, as ofertas de ações de empresas foram robustas. Ao todo foram 18 transações – a maior foi a da Eletrobras, em uma operação de R$ 30 bilhões que marcou a privatização da empresa de energia. Outras ofertas relevantes foram da Eneva e do atacarejo Assaí.

De olho na questão ambiental e nas energias renováveis, companhias como a BRK Ambiental e companhias de saneamento, como Aegea e Iguá, são vistas como boas candidatas a tocar o sino na B3. No entanto, até o momento, a única candidata oficial a reabrir o mercado de IPOs no Brasil é a CTG, geradora de energia no mercado brasileiro da gigante chinesa China Three Gorges. Ela já fez o protocolo de sua oferta junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e poderia acessar o mercado logo no início do ano.

Bolsa brasileira foi palco de 18 ofertas de ações em 2022, mas todas de empresas já listadas. Foi a primeira vez desde 1998 que mercado brasileiro fica sem IPOs Foto: Daniel Teixeira/Estadão

No geral, a percepção é de que os estrangeiros ajudarão a dar o empurrão para tirar as ofertas da gaveta. “Há muito investidor que não olhava o Brasil há muito tempo e que voltou a olhar”, afirma o sócio do BTG Pactual responsável pela área de renda variável, Fábio Nazari, que esteve recentemente em Nova York em rodada de reuniões com investidores. O executivo aponta que o Brasil vem despertado o interesse dos estrangeiros, principalmente pela difícil situação das economias maduras e a de outros emergentes, como a própria China, que vem enfrentando considerável desaceleração econômica.

Nazari reforça que, apesar dessa boa perspectiva para o fluxo de recursos no Brasil, acessar o bolso dos investidores – tanto os locais quanto os gringos – exigirá das empresas um “bom grau de previsibilidade e uma estrutura de capital adequada”. O executivo afirma que no próximo ano, as ofertas de empresas já listadas serão grande parte da composição das ofertas do ano – mas os IPOs ao menos devem “dar as caras”.

Fabio Nazari, sócio do BTG Pactual: em conversas com estrangeiros, vontade é de se investir no Brasil. Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão

Expectativa pelos estrangeiros

O corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America no Brasil, Bruno Saraiva, que ficou por duas semanas em rodadas de reuniões com investidores de fora, afirma que “há muito sentimento de se voltar a investir no Brasil”. “Olhando para o ano que vem deveremos ter um fluxo relevante de investimentos internacionais vindo ao Brasil. Vamos ver o tamanho dessa alocação”, diz o executivo. “Os estrangeiros devem ser uma composição relevante para os IPOs em 2023″, diz.

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No primeiro boom de estreias na Bolsa, em 2006 e 2007, quando mais de cem empresas fizeram suas ofertas de ações, o capital estrangeiro era a principal peça da engrenagem para permitir os IPOs. Na média, 70% do volume das emissões ficavam com esse grupo. No entanto, com o amadurecimento do mercado brasileiro, a proporção se inverteu, com os locais assumindo esse papel, exatamente em um momento em que os estrangeiros estavam mais distantes de Brasil. Agora, a conta deverá ficar mais equilibrada, caso a alta expectativa de retorno do capital internacional para o País se confirme em 2023.

A visão é de que o Banco Central brasileiro fez um excelente trabalho na contenção da inflação

Roderick Greenness, do Itaú BBA

Quem vem de fora, porém, é mais seletivo em seus investimentos e prefere fazer aportes em ofertas de grandes negócios. Por isso, a aposta é de que haja mais apetite de fora por ofertas que partam de US$ 300 milhões (ou seja, mais de R$ 1,5 bilhão).

O responsável global pelo banco de investimento do Itaú BBA no Brasil, Roderick Greenlees, afirma que o estrangeiro está com o “dedo no gatilho” para investir no Brasil, algo que ficou bastante evidente na oferta subsequente de ações do Assaí, na qual ficaram com metade da transação. “A visão é de que o Banco Central brasileiro fez um excelente trabalho na contenção da inflação”, diz. Os juros no Brasil subiram muito mais rapidamente do que eu outros países para conter a alta dos preços ao consumidor, e a leitura é de que os juros cairão mais rapidamente do que em outras localidades.

Previsão de Roderick Greenless, do Itaú: um volume de emissões de R$ 60 bilhões a R$ 80 bilhões  Foto: Leonardo Rodrigues/Itaú

O executivo do Itaú afirma que, depois de um ano sem estreias na B3, há uma demanda reprimida, tanto por emissões quanto por investidores, o que abrirá espaço para novas ofertas. Sua projeção é de que em 2023, diante de uma premissa de que haverá queda de juros no Brasil, haverá de 25 e 35 operações – sendo até 15 IPOs.

Cautela maior

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O chefe do banco de investimento do Bradesco BBI, Felipe Thut, comenta que, no evento que a instituição financeira fez em Nova York em novembro, os investidores se mostravam muito mais otimistas com o Brasil após os resultados da eleição do que os próprios empresário locais. Segundo o executivo, o humor mudou mais recentemente diante de preocupações sobre os rumos para frente da economia brasileira.

Segundo ele, a retomada dos IPOs pode demorar mais do que o previsto. Ele liga esse retorno a uma maior visibilidade maior sobre o início do corte de juros no Brasil. “É difícil fazer projeções sobre volume de ofertas, mas 2023 será melhor do que 2022”, comenta o executivo do Bradesco.

Para Felipe Thut, do Bradesco BBI: depois de muito otimismo em novembro, leitura é de que estrangeiros estão mais cautelosos. Foto: Egberto Nogueira/Bradesco

Quando?

Saraiva, do Bofa, afirma que os IPOs deverão ganhar espaço no mercado a partir do segundo semestre do ano, momento em que se espera que os juros voltem a cair no Brasil, algo que afeta diretamente a intenção de se investir em renda variável. Pelas projeções do Bofa, o juro no Brasil, que hoje está em 13,75% ao ano, deverá fechar 2023 em 10,5% ao ano.

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O ponto é que para que os IPOs, de fato, retornem, será preciso mais do que um conjuntura favorável no Brasil, mas também no exterior, onde os juros ainda estão em curva ascendente. Ou seja, para o mercado de capitais mais forte no Brasil o cenário externo vai precisar ajudar.

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“Ofertas devem começar a vir a mercado assim que houver maior visibilidade quanto a queda da taxa de juros nos Estados Unidos”, afirma o presidente para o Brasil do Morgan Stanley, Fabio Medeiros. Dos setores que devem vir a mercado, segundo ele, está o de varejo e consumo, farmacêutico, além do setor de recursos naturais.

O responsável do banco de investimento do Citi, Eduardo Miras, por outro lado, não está otimista com o retorno dos IPOs. Ao contrário dos demais coletas, Miras diz que não está enxergando investidores estrangeiros com o “dedo no gatilho” diante de incertezas políticas e econômicas no Brasil. “Alguns meses atrás tínhamos a perspectiva de que o mercado reabriria para IPOs de forma seletiva, mas, pelo que temos visto, será extremamente desafiador”, diz.

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