‘A grande prioridade do governo em 2024 deve ser o orçamento com déficit zero’, diz Trabuco

Presidente do conselho do Bradesco diz ainda que é preciso focar na elaboração das leis que vão complementar a reforma tributária e iniciar debate sobre reforma administrativa

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Por Aline Bronzati
Atualização:
Foto: Denise Andrade/Estadão
Entrevista comLuiz Carlos Trabuco CappiPresidente do Conselho do Bradesco

DAVOS, SUÍÇA - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve perseguir um orçamento com base no déficit primário zero neste ano, defendido pela equipe econômica. O alerta é do presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi. Em um ano eleitoral, quando a aprovação de reformas fica mais difícil, o caminho é o debate da estrutura administrativa, por exemplo.

“As grandes prioridades são a execução do orçamento com bases de zero déficit público bem como as leis que vão complementar a reforma tributária”, diz Trabuco, em entrevista ao Estadão/Broadcast, diretamente de Davos, na Suíça, onde está para participar do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), nesta semana. “A questão fiscal permanece a ordem do dia”, reforça.

Para o executivo, a redução dos juros no País pode ser maior que o projetado pelo mercado, considerando o atual nível da inflação, e deve ser um dos motores de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2024. O esperado afrouxamento monetário nos Estados Unidos e a escolha do futuro chefe da Casa Branca são pontos de atenção no cenário global, mas o Brasil está preparado para lidar com eventuais efeitos, tanto na atração de investimentos estrangeiros quanto sob a ótica da diplomacia. Abaixo, a íntegra da entrevista:

O presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi. Foto: Hélvio Romero/Estadão - 11/10/2017

Há um ano, o noticiário era pautado pelos ataques de 8 de janeiro, em Brasília, repetindo o que ocorreu nos Estados Unidos, no Capitólio, em 2021. Na ocasião, o sr. disse que a oposição via conspiração era o principal desafio do governo Lula. Qual a sua visão um ano depois?

O mais importante é evitar a calcificação, uma palavra antiga, mas que está na moda, dessa polarização em bases ideológicas, porque isso inviabiliza o debate democrático. Passado um ano, as instituições mostraram solidez e a democracia se provou robusta para superar aquele momento de transição. Agora, é inevitável que, embora a polarização continue sendo uma característica política do mundo todo, no Brasil, o Congresso trabalha na sua plenitude, as instâncias do Judiciário também e a agressividade dos debates se reduziu bastante de um ano atrás.

Na pauta econômica, o mercado temia o que seria o primeiro ano do governo Lula sob os riscos de piora fiscal, interferência no Banco Central, excesso de uso de estatais. Como o sr. avalia esse período?

Não ocorreram as interferências nas instituições, e isso é importante nesse balanço. O Banco Central continuou agindo dentro de parâmetros técnicos e as estatais não foram instrumentalizadas politicamente. A questão fiscal permanece a ordem do dia. Mas avanços importantes foram realizados nesse primeiro ano de gestão. A aprovação da reforma tributária ganha destaque bastante evidente. Agora, a manutenção (da meta) de déficit zero sinaliza compromisso de responsabilidade fiscal. É óbvio que a melhoria fiscal depende do País voltar a crescer e acho que esse crescimento vai acontecer em 2024, independente de previsões ainda muito modestas.

Mas economistas veem como certa uma alteração da meta à frente. Qual o limite que o mercado aceita sem gerar tanto ruído e afetar a política monetária?

A questão fiscal sempre é uma grande preocupação para os investidores. O arcabouço fiscal estabeleceu uma meta agressiva de déficit zero, mas é evidente que temos desafios que continuam presentes. Apesar disso, em 2023, o pessimismo de parte do mercado foi superado. A avaliação política acabou não se confirmando e os parâmetros macroeconômicos, que poderiam ser revisados depois da pandemia, não foram. O direcional está definido e é muito bom.

Alguma outra reforma pode ser aprovada neste ano, diante das eleições municipais? Qual deveria ser a prioridade na agenda do Executivo junto ao Legislativo?

O ano eleitoral sempre dificulta a aprovação de reformas estruturantes, mas não impede o debate como, por exemplo, da reforma administrativa. As grandes prioridades são a execução do orçamento com bases de zero déficit público bem como as leis que vão complementar a reforma tributária. Essa agenda produtiva está no Congresso e inclui temas como a regulamentação das redes sociais, a discussão dos limites éticos da inteligência artificial e as questões de transição energética.

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O crescimento do Brasil surpreendeu em 2023, mas, para este ano, as projeções apontam menor fôlego. Como o sr. vê a economia brasileira em 2024?

O ano de 2024 começa com uma perspectiva de crescimento econômico menor em função do clima e dos efeitos dessas mudanças climáticas provocadas pelo El Niño. Mas, por outro lado, o nível de emprego, de consumo, principalmente de serviços, pode puxar o PIB, que, com certa parcimônia, já está sendo revisto para cima. Estou otimista com relação à capacidade da economia reagir aos desafios.

Mas as projeções são tímidas...

Um crescimento de 2%, 3%, é pouco para o potencial econômico do Brasil, que precisa de uma agenda que una esforços de empresários, capital externo, governo, Congresso e Judiciário para voltar a ter um crescimento sustentável. O desafio é ampliar o PIB potencial do Brasil. Há fatores que indicam um ciclo positivo em 2024. O primeiro é a inflação controlada, que é um ganho de previsibilidade importante dentro do mundo empresarial. Agora, não podemos subestimar a força da política monetária nesta trajetória de queda de juros. Isso possibilita aumento do crédito com uma dose maior de previsibilidade. Um fato que vai continuar em 2024 é a solidez da balança comercial, que gera solvência internacional e geração de riqueza no mercado interno.

E a reforma tributária?

A regulamentação da reforma tributária tem impacto importante a médio e longo prazos. O Imposto sobre o Valor Agregado (IVA) dá uma perspectiva muito boa para os agentes econômicos. É um ano que provavelmente o aumento de investimentos pode ser um dos drivers de crescimento do PIB. Por exemplo, o investimento na transição energética tem sido robusto no Brasil. Vale lembrar um esforço espetacular do programa de renovação do setor automotivo e da infraestrutura. Essa reciclagem do setor automotivo vai demandar PIB. Por outro lado, a população mundial continua a crescer, e a demanda por alimentos, commodities agrícolas e proteínas, animais ou vegetais, continua forte no mundo, que também demanda energia renovável.

Como o Brasil pode ser beneficiado?

O estoque de energia renovável do Brasil atesta a capacidade do País de ter um cenário positivo em 2024 e nos próximos anos. Por isso que o Brasil é diferenciado. O desafio do equilíbrio das contas públicas está endereçado. É prioridade do governo, do Congresso, e acho que a sociedade está indicando um rumo positivo para o realismo fiscal. Então, isso dá a cor de um 2024 que possamos comemorar. Isso é importante.

O ano de 2023 foi marcado por pressão política e por parte do empresariado por corte de juros no Brasil. A Selic está caindo no ritmo adequado? Poderia descer mais rápido?

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As projeções já sinalizam uma Selic abaixo de 10%. Independente das previsões que estão nos preços, a taxa ainda é o dobro da inflação corrente. Então, nós temos espaço e condições de avançarmos na flexibilização da política monetária. A própria inflação denota isso. O juro é o preço chave da economia que precisa ser administrado de forma cirúrgica para evitar exageros porque os efeitos da política monetária são muito relevantes para as empresas e para as famílias. Então, acho que teremos uma política monetária que vai jogar a favor do crescimento neste e nos próximos anos.

Há grandes expectativas quanto à redução das taxas nos Estados Unidos. Como o relaxamento monetário na maior economia do mundo pode influenciar o Brasil? O estrangeiro voltará com mais força?

A flexibilização monetária nos EUA será a grande notícia de 2024 porque vai mexer com a economia mundial no sentido positivo. Não importa se a redução de juros do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) começa em março ou julho. O importante é que essa tendência está endereçada. E isso vai ser fundamental para dar uma nova dinâmica ao fluxo de investimentos no Brasil e no mundo. Isso está dando uma tranquilidade sobre a gestão institucional financeira global, que está saindo desse momento de turbulência. E o melhor indicador são as bolsas de valores em patamares que dão uma dimensão boa para o mercado de capitais. Agora, o mundo e investidores que circulam em Davos estão preocupados com a insegurança geopolítica, a ameaça do clima e a necessidade de commodities agrícolas e minerais. A energia verde é o grande bilhete que o mundo procura. E o Brasil tem a oferecer isso.

As eleições nos EUA também devem roubar a cena em 2024. Qual a importância dessas eleições para a democracia global e como o Brasil pode ser impactado a depender do resultado?

As eleições nos EUA seguramente vão fazer preços na economia global. Eleições são o principal ativo da democracia. Há dois cenários postos nesse momento, ambos já conhecidos. Os pilares de uma eleição são a alternância de poder e os direitos de dissenso. Independente dos resultados das eleições nos EUA, não vejo maiores problemas porque o Brasil tem uma diplomacia muito eficiente e sagaz para estabelecer relações econômicas bilaterais, que é uma propriedade importante do Itamaraty.

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Então, caso o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, vença, conseguiremos manter uma relação estável, não tão ruidosa com os EUA?

Seguramente. A diplomacia brasileira tem condições de contornar, independente de qual governo. Agora, é evidente que será uma eleição polarizada nos EUA, como está pintando. Tem uma longa trajetória ainda, as questões jurídicas, do direito eleitoral americano, mas eu acho que é um ano que vai marcar muito grande o estado geral do Planeta.

Quais são suas expectativas para Davos neste ano? Além de mais frio...

O tema de Davos neste ano é reconstruir a confiança, que é a base de tudo. A confiança é o que dá um estado de serenidade para enfrentar o desafio. Davos é um centro de reflexão, aponta rumos, debate tendências, é um fórum eclético e acaba sendo uma caixa de ressonância do mundo globalizado. Davos tem dado uma direção de fortalecimento ao longo desses anos, superando até momentos um pouco mais críticos. Agora, o mundo tem três agendas inescapáveis.

Quais?

A primeira é a agenda ambiental e é a mais importante do ponto de vista estratégico e existencial do Planeta. A segunda é a paz. O mundo tem presenciado uma escalada de tensão geopolítica. Além da tensão da política pela polarização, a geopolítica tem mostrado escalada em todos os continentes, no Leste Europeu, na Ásia, no Oriente Médio, de uma maneira muito evidente, e até na América Latina, não só por algumas tensões entre países, mas, principalmente, tensões dentro de países, como o Equador. Eu acho que o mundo está em um estado de policrise.

E qual a terceira?

Se a primeira é a ambiental e a segunda é a paz, a terceira grande agenda está ligada a essas duas. Em um cenário de inflação sob controle, o desafio é fazer a economia global voltar a crescer em um cenário de guerra e conflitos e eventos climáticos. Não podemos subestimar esses conflitos em detrimento da necessidade de crescimento da economia mundial até para arrefecer as crises sociais e humanitárias como o grande volume de refugiados e os efeitos da mudança do clima. A expectativa em Davos é ouvir, discutir e refletir sobre mudanças, estabilidade, de que os pensamentos básicos do ESG (sigla em inglês para questões ambientais, sociais e de governança) possam oferecer um mundo alternativo.

O que o tema de Davos significa para o Brasil?

Olhando para o Brasil, as notas de rating no final do ano passado foram um sinalizador importante. O grau de investimento do Brasil é possível? Sim, é possível. Agora, é uma trajetória que precisa ser trabalhada. A nota não é miraculosa, reflete o trabalho feito, a capacidade de entrega e o senso de urgência.

O sr. vê o Brasil recuperando o grau de investimento no governo Lula?

É um objetivo a ser atingido. Eu não saberia dizer o prazo, mas acho que ele tem de ser um objetivo quase que do Estado brasileiro.

O ministro Haddad não participará do fórum em Davos por conta da agenda doméstica, em um momento sensível para a relação com o Congresso. Foi uma decisão acertada?

O ministro está com uma agenda bastante intensa na retomada do ano legislativo. Ele está querendo ganhar todas as horas e dias possíveis para negociar e debater com o Congresso a agenda que ele estabeleceu. Significa que ele está demonstrando foco na ação, naquilo que deve ser feito.

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Como o sr. avalia o trabalho do ministro?

O ministro Haddad tem tido um desempenho excepcional, uma contribuição efetiva para distensionar. Ele é um homem que, pela postura, pelo traquejo político, foi um ministro de Educação de destaque, um prefeito marcante na cidade de São Paulo, um candidato a presidente da República, e reúne condições de criar um ambiente mais leve no debate dos assuntos econômicos brasileiros. É uma gestão muito positiva.

Voltando ao tema central do Fórum, o Brasil conseguiu recuperar a confiança no exterior? Como o investidor estrangeiro enxerga o Brasil?

O governo atual junto com o ministro Haddad dá uma contribuição muito efetiva para o avanço nas relações internacionais. A diplomacia, principalmente, a ambiental tem sido uma marca que é reconhecida pelos investidores. Acho que o diálogo e a presença têm sido reconhecidos pelos investidores. Isso é um bônus para o governo.

Como o sr. vê o processo de desinflação? Ainda há riscos de o fantasma dos preços voltar a assombrar o mundo e o Brasil?

O processo inflacionário resultado do período pós-pandemia, quando houve uma interrupção muito forte das cadeias produtivas globais, e um resultado que a guerra na Ucrânia provocou, que foi um pico do custo energético no mundo, piores momentos, já ficaram para trás. Temos outra realidade e, por isso, fala-se muito em uma desinflação no mundo. Os preços das commodities ligadas ao agro, às proteínas animais e vegetais, também bateram os seus recordes e se reduziram. Então, mesmo que tenhamos uma redução na produção pelos problemas climáticos, eles não vão voltar ao pico histórico, principalmente se analisarmos o preço da soja, do milho ou do trigo. Os bancos centrais, que sempre estão de olho muito atento à inflação de custos, estabeleceram um controle efetivo para iniciar o afrouxamento da política monetária.

Outro evento de impacto no Brasil foi a crise das Americanas. Qual foi a principal lição para o banco, para o empresariado brasileiro?

Sem entrar no mérito da forma do acontecido, a lição é sempre a mesma. Esses fatos que nos assombram de tempos em tempos só corroboram a tese de que é preciso primeiro cuidar daquilo que está ao nosso alcance. Do ponto de vista dos princípios do ESG, fica muito patente que precisamos ter cada vez mais cuidado com o pilar da governança, que tem princípios de adesão voluntária, mas fica um espaço para a atuação dos reguladores. Acho que deixou lições que têm de ser aprendidas.

O ano deve ser marcado por grandes reestruturações de dívidas no Brasil, o que afeta o banco, apesar da queda dos juros trazer algum alívio. Deve ser um período mais duro após o caso Americanas? Há preocupação com algum setor em especial? O varejo?

Não tem nada que indique problemas no curto prazo e, até, ao contrário, a percepção é que as empresas passaram por um processo de recuperação dos seus volumes comerciais, da sua capacidade de gerar caixa com menor alavancagem. Muitas passaram por ajustes administrativos que são efetivos para essa recuperação. Então, a economia brasileira após a pandemia está sólida e saudável, e não tem nada que indique problemas no curto prazo.

Na pauta ambiental, que é a agenda número 1 no mundo, segundo o sr., o governo vende o País como uma potência verde, mas aprovou a extensão de benefícios a usinas de carvão em um projeto que trata de energia eólica no mar. Não é contraditório?

Pegando esse termo contraditório, eu diria que o processo de transição energética pela sua própria natureza é contraditório porque ele pressupõe eliminar certas atividades econômicas que são rentáveis no modelo antigo e substituir outras. Nós vamos ter de lidar com isso nesse processo de conhecimento e amadurecimento. Agora, o importante é que nós estamos avançando e essa é uma questão de tempo. A economia de carbono zero está mudando e vai mudar mais.

Está claro que não é uma pauta da moda?

Se alguns em um passado recente tinham dúvida de que as mudanças climáticas viriam de uma maneira muito acentuada, o que estamos vendo no mundo é uma coisa efetiva. A conscientização aconteceu, a economia de transição energética acontece, e cada vez mais acelerada, por isso, acho que o momento agora é o de criar modelos, definir regras e oportunidades do negócio da transição verde. A transição energética gera custos, eles são altos, mas são de um efeito muito relevante para a estrutura econômica do mundo. O portfólio de investimentos, e lembrando que esse vai ser um dos drivers do PIB brasileiro nos próximos anos, está exatamente nessa transição de uma nova economia, de baixo carbono.

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Qual sua leitura sobre a inteligência artificial? O sr. é do time dos assustados ou dos otimistas?

A inteligência artificial, o mundo cada vez mais digital, a internet, tudo isso são avenidas de duas mãos. A sociedade vai refletindo sobre as bases éticas. Agora, a inteligência artificial mudou, está mudando e vai mudar muito mais o jeito de fazer negócio, de gestão. O grande ganho da inteligência artificial, que até parece filosófico, é o da melhor compreensão do ser humano e da sua circunstância. Não basta mais olhá-lo, mas passa a importar a sua circunstância, a sua relação psicossocial na sociedade. Então, é uma grande oportunidade.

O Bradesco começa 2024 sob nova direção. O que podemos esperar em termos de mudanças?

Nós estamos passando por uma transição com a chegada do novo presidente executivo, Marcelo Noronha. Ele está conduzindo um trabalho para implementar novas camadas de aperfeiçoamento da gestão do banco, no sentido de mais eficiência e aumento do volume de negócios. Tenho confiança nas propostas que o Marcelo está desenvolvendo, voltado sempre para quê? Para maior satisfação dos clientes, dos investidores e dos acionistas. Esse é um foco claro da administração. O Conselho tem orientado ao colegiado, que é presidido pelo Marcelo, que em um mundo em transformação acelerada, a importância é acelerar o passo com muito senso de urgência naquilo que deve ser feito. É a expectativa.

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