Gerando resumo
Foto: Dow/DivulgaçãoEm um contexto de competição árdua com produtos importados, seguido de elevações tarifárias por parte de economias relevantes como a dos Estados Unidos, representantes da indústria nacional falam com frequência sobre defesa comercial e política industrial. Para a líder da multinacional química Dow no Brasil, Mariana Orsini, as elevações tarifárias são soluções para crises agudas, mas a construção de uma política industrial de longo prazo é o que poderia realmente transformar o setor industrial do País e trazer competitividade. E isso independe, em sua visão, da linha ideológica do governo.
“Essa correlação de que uma economia liberal é uma economia que deixa o mercado se regular não encontra fatos na realidade do desenvolvimento dos Estados Unidos”, afirma.
Segundo Mariana, o governo brasileiro atual deu passos importantes no diálogo com o setor e em iniciativas para baratear o custo do gás, insumo-chave para a produção química.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista:
Qual a situação da indústria química no País hoje?
Somos a sexta maior indústria química do mundo, com capacidade de produção significativa e diversificada, com muitos produtos que têm grandes desafios para competir internacionalmente. Um deles é matéria-prima barata, especialmente o gás e a energia, como dois grandes pontos. Energia representa 70% dos custos de uma operação química. Somos uma grande cozinha, aquecendo moléculas para produzir nossos produtos. Nesse contexto, tivemos a revolução do shale gas (gás de xisto) na indústria americana. Eles passaram de um custo de matéria-prima de gás de US$ 14, mais ou menos, para US$ 2 a US$ 4. Enquanto isso, no Brasil, só aumentamos nossos índices de importação e o déficit da indústria nacional. No ano passado, fechamos com mais de US$ 50 bilhões de déficit, em grande parte por importações chinesas, que também revelam uma mudança estratégica no rumo que a China decidiu tomar para suas indústrias em geral.

Como tem sido a conversa com o governo sobre essas questões?
Estamos em um cenário mundial que pressupõe reconhecer o valor de políticas industriais. Esses dois países (EUA e China) têm sólidas políticas industriais para incentivar não só a manutenção da indústria, mas sua expansão. Nos últimos anos, temos visto um esforço do governo em retomar a discussão da necessidade de uma política industrial. Passamos um hiato significativo sem discutir esse assunto, uma política liberal que, por consequência, penalizou uma indústria que só teve seus índices decrescentes. A (política) nova indústria Brasil (do atual governo) foi um esforço de retomar a discussão. Temos visto alguns avanços bons, positivos, nesse sentido. Precisamos de mais.
Ao longo dos últimos anos, o setor conseguiu elevações tarifárias, renovações dessas elevações, além de ter pleitos de medidas antidumping em tramitação. O que deve ser feito para que a indústria se torne competitiva, para além dessas medidas de defesa?
Antidumping, elevação tarifária, assim como regimes de cotas de importação, são exemplos de medidas temporárias, que ajudam em uma crise de curto prazo. Não tem bala de prata para fazer a indústria competitiva. Essa é uma notícia ruim, mas é uma visão madura também. Custo de matéria-prima, diminuir os encargos sobre energia e garantir que continuemos evoluindo na parte de infraestrutura, isso faz sentido.
Há motivos para se esperar um fornecimento de gás mais barato no Brasil?
Sim, principalmente o (programa) Gás para Empregar, que foi a primeira medida discutida desde o início do mandato da atual gestão federal. O governo conseguiu compreender o fato de que precisamos garantir produtos com margem e valor agregado dentro das nossas operações. Esse é um grande avanço. O fato da (estatal) Pré-Sal Petróleo SA (PPSA) estar fazendo um leilão (realizado dia 22) com algum volume para a indústria também é um sinal bastante positivo. Além disso, a consulta pública realizada para receber contribuições também, na nossa visão, é um cenário de abertura para o diálogo.
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Quando falamos de uma política industrial que viabilize matérias-primas a um preço mais competitivo para a indústria química, qual o nível de urgência?
Como estamos em 64% de taxa de produção e ocupação na indústria química brasileira, precisamos garantir competitividade o suficiente para, no mínimo, chegar a taxas melhores e mantermos o parque fabril que temos. A situação é crítica o suficiente para falarmos que precisamos manter o que temos hoje. Temos pensado em várias estratégias distintas para trazer essa rentabilidade à nossa operação. Na frente de energia, contratos de longo prazo são um caminho que encontramos para minimizar custos. Houve um compromisso de buscar energia renovável, também tentando encontrar essa margem extra em produtos de baixo carbono e produtos mais sustentáveis.
Há clientes pagando o prêmio do produto sustentável?
Sim. É difícil e ele pressupõe alguns mercados mais específicos e uma visão de algumas indústrias que enxergam valor em pagar um prêmio para produtos de baixo carbono. Ainda é bastante desafiador. Mas, por exemplo, a Veracel, que é uma empresa do grupo da Suzano, já compra a soda cáustica de baixo carbono que produzimos em Aratu. Temos também feito bons contratos com clientes de cuidados pessoais. Essa é uma indústria em que o público está disposto a pagar um prêmio para produtos mais sustentáveis e de baixo carbono.
Quanto tempo temos até que a falta de competitividade leve ao fechamento de fábricas do setor químico no Brasil?
Não sei dizer, honestamente. O que aconteceu no Estreito de Ormuz, por exemplo, mudou completamente o jogo. Conseguimos transformar isso em uma forma de atender os clientes e manter a operação deles funcionando. A resposta, então, é: depende.

A guerra trouxe a importância de não ter, necessariamente, o produto mais barato, mas um produto que chega?
Vamos pensar na parte de poliuretanos, uma operação que temos aqui no Brasil de um produto que é, basicamente, espuma, usada tanto para colchões quanto para móveis e bancos de motos. Essa produção foi objeto de medida antidumping no ano passado. Havia produtos chegando ao Brasil com preço de venda que representava 70% do nosso custo de produção. Parecia que esse era um mercado muito difícil de retomarmos. No entanto, uma das matérias-primas para esse produto é o propeno, que vem da cadeia do petróleo. Com o conflito, essa matéria-prima ficou mais cara para produtores chineses. Retomamos várias interações com clientes que, em algum momento, foram para um caminho mais barato, dos produtos importados. Eles viram muito valor em ter uma produção local, uma produção brasileira.


