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Setor imobiliário cobra ajuste fiscal e queda dos juros após reeleição de Lula

Setor reconhece incentivos do governo Lula, mas alerta para os efeitos do crédito caro sobre vendas e investimentos

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Foto do autor Breno Damascena
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) surpreendeu investidores e provocou volatilidade nas ações de empresas do mercado imobiliário na segunda-feira, 26. Parte do setor havia se posicionado para uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado no segundo turno. A reação acendeu as preocupações com a trajetória dos juros e a condução da política fiscal.

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As ações da Cyrela, por exemplo, chegaram a registrar uma queda de 43,7% na manhã de segunda. A MRV também sofreu uma queda de 42,3%. As duas estiveram entre as empresas que registraram as maiores desvalorizações do dia.

“A movimentação se justifica pela expectativa de uma curva de redução da taxa de juros. É um fator que impacta diretamente o setor de construção civil”, explica André Caruso, CEO da gestora Pilar Capital. “Mas o setor é resiliente e já passou por diversas situações. Essas expectativas vão se readaptar”.

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Ele comenta que o choque inicial é natural. “Vai ter um período de reorganização, mas esse é um governo que o segmento já sabe como lidar. Não devem vir grandes novidades que ainda não tenhamos lidado antes. Além disso, o Brasil possui um déficit habitacional significativo e a construção civil é bastante incentivada pelo governo Lula”, acrescenta.

Além do MCMV, o economista Fábio Moraes destaca a mudança nas regras do financiamento imobiliário, que reduziu as exigências de capital dos bancos e ampliou os recursos disponíveis para crédito habitacional Foto: Fábio Vieira/Estadão

Nos últimos anos, o Minha Casa, Minha Vida, impulsionado pela ampliação do limite de valor dos imóveis, redução das taxas de juros e expansão das faixas de renda contempladas, foi como o motor do mercado residencial. “O setor reagiu muito bem a esses incentivos”, afirma o economista Fábio Moraes, da consultoria econômica E2+.

No entanto, Moraes alerta que o mercado imobiliário já tem um ciclo de desaceleração contratado para os próximos meses. Segundo ele, a velocidade com que o setor se recuperou dessa marcha mais lenta dependerá diretamente das sinalizações da política econômica. “O patamar atual de juros é punitivo e restritivo. A queda na Selic reduziria o custo do capital para financiar obras e aliviaria o endividamento”.

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Ajuste fiscal e trajetória dos juros

Os juros elevados e as pressões inflacionárias foram pontos de preocupação durante a campanha eleitoral petista. No mercado imobiliário, o crédito mais caro reduz a capacidade de financiamento e encarece o capital, enquanto a inflação pressiona os custos de construção.

“O histórico recente do governo e as medidas que ele tomou do ciclo eleitoral para aumentar a chance de vencer jogam contra essa expectativa de queda de juros. A reação do mercado demonstra o ceticismo que o mercado tem em relação ao endereçamento da questão fiscal”, diz Moraes. “É um governo que não começa com o benefício da dúvida”, explica.

André Caruso, CEO da Pilar Capital, afirma que o susto inicial no setor era esperado após a vitória de Lula, vista como surpreendente, mas setor vai se readaptar ao cenário Foto: Divulgação/Pilar Capital

Esse cenário pode começar a mudar a partir do anúncio de medidas e ações que possam indicar esses ajustes. “Se o governo compor uma equipe econômica com uma veia mais ortodoxa para endereçar medidas que possam trazer um pouco mais de sustentabilidade nas contas públicas”, exemplifica.

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A leitura é corroborada por Caruso. “Agora que o governo atingiu seu maior objetivo, que era a reeleição, toda essa avalanche de bondades que foram prometidas, claramente com objetivos eleitoreiros, precisa ser revista. O baque inicial do mercado é normal. ”Agora, o governo precisa mostrar que vai organizar a casa e tocar o que precisa ser feito”, afirma.

Demandas do setor

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) encaminhou uma agenda de propostas para a equipe do governo federal, que inclui equilíbrio fiscal, redução dos juros e melhoria da eficiência do Estado. A instituição entende que essas medidas são necessárias para evitar a estagnação dos segmentos de médio e alto padrão e estimular investimentos em infraestrutura.

Eduardo Aroeira Almeida, CEO da CBIC, afirma que, embora o MCMV utilize recursos do FGTS, a Selic alta também pode afetar esse tipo de produção Foto: Divulgação/CBIC

A pauta também inclui incentivos para a qualificação profissional da mão de obra, industrialização, aumento da produtividade na construção civil e estímulo a obras industriais. Eduardo Aroeira Almeida, CEO da instituição, também argumenta que é necessário aprofundar o debate em temas como reforma tributária e o fim da escala 6x1.

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“A velocidade com que o projeto foi aprovado, em razão do calendário eleitoral, não permitiu que se pensasse mais nas consequências. Temos diversas perguntas ainda sem respostas”, afirma. Além disso, ele afirma que a construção civil ainda não conseguiu implementar as mudanças da reforma tributária porque existem pendências por parte do governo.

Ainda assim, ele afirma que o resultado eleitoral foi bem recebido pelo setor. “Os empresários da construção recebem com tranquilidade o resultado. A vontade das urnas foi obedecida e isso é o mais importante para que o País tenha segurança jurídica e tranquilidade para investimentos de longo prazo”, comenta.

À frente da incorporadora paulistana AW Realty, Claudio Carvalho afirma que segue comprometida com investimentos. “O mercado financeiro ficará instável, as ações vão cair, o dólar vai subir, mas precisamos ficar calmos, trabalhar e respirar antes de tomar decisões”, diz.

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“Na baixa renda, o MCMV manterá seu curso. Na média renda, a demanda e a produção tendem a voltar a crescer quando os juros tiverem queda mais significativa”, complementa. “O Brasil é maior do que qualquer eleição.”

Escritórios e galpões logísticos

Simone Santos, sócia-diretora da consultoria de imóveis corporativos Binswanger Brazil, entende que o fim da disputa presidencial, por si só, já deve impulsionar o setor. “A definição reduz as incertezas com as quais o setor imobiliário precisou lidar nos últimos meses”, indica. “Torcemos para que os juros agora caiam, para que tornem viáveis investimentos em propriedades comerciais para suprir a demanda por galpões e escritórios”.

Um estudo da consultoria SiiLA, com dados dos últimos 11 anos do mercado imobiliário corporativo de São Paulo, mostra que os juros futuros influenciam o preço dos imóveis antes de afetar as decisões das empresas sobre alugar escritórios. Essas taxas refletem justamente as expectativas do mercado para os juros nos próximos anos.

O indicador aponta que, quando os juros de longo prazo sobem, os investidores passam a exigir um retorno maior para aplicar dinheiro em imóveis. Como consequência, tendem a pagar menos por propriedades que geram a mesma receita de aluguel. A queda dos preços pode reduzir a rentabilidade de novos empreendimentos e dificultar sua viabilização.

Segundo Giancarlo Nicastro, CEO e fundador da companhia, a reeleição de Lula não deve provocar mudanças imediatas no setor. “Lula foi reeleito. E agora? E agora nada. O mercado imobiliário vai continuar igual. Os imóveis não vão mudar de lugar, os inquilinos vão se ajustando e o mercado continua trabalhando”, afirma.

Nicastro diz que o principal indicador a ser acompanhado neste pós-eleições é a trajetória dos juros futuros, que influencia a precificação dos imóveis, as decisões de investimento e a viabilidade de novos empreendimentos.

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“O que a gente tem que esperar é como ele vai absorver todos os pacotes de bondades do período eleitoral, ver como a economia vai se comportar. O que vai dizer para onde o mercado vai, para cima ou para baixo, é o juro futuro”, comenta.

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