Plano de retomada do Bradesco tem Cielo como arma para ofertas mais agressivas em maquininhas

Expectativa ao retirar Cielo da Bolsa, tendo o Banco do Brasil como sócio, é tornar empresa uma porta de entrada para fidelizar lojistas por meio de outros produtos

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Foto do author Matheus Piovesana
Foto do author Altamiro Silva Junior
Por Matheus Piovesana e Altamiro Silva Junior

O Bradesco vê a Cielo como um dos pilares do plano estratégico que executará ao longo dos próximos cinco anos. A vice-líder em maquininhas do mercado brasileiro é, para o banco, uma arma importante para preservar e ampliar a liderança de mercado no segmento de pequenas e médias empresas, um dos mais rentáveis do varejo bancário. E para que essa visão se concretize, o fechamento de capital da companhia é fundamental.

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“A Cielo, com o capital fechado, terá metas diferentes de uma empresa com capital aberto”, afirmou a jornalistas o presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, na divulgação dos resultados do banco referentes ao quarto trimestre de 2023, nesta quarta-feira, 7.

A expectativa dos dois bancos é ter mais flexibilidade para praticar ofertas mais agressivas em maquininhas, tornando-as uma porta de entrada para fidelizar lojistas por meio de outros produtos, como a gestão de folhas de pagamento e o crédito. Hoje, a Cielo já cumpre esse papel, mas com capital aberto e acionistas minoritários, tem de mostrar rentabilidade por si só.

Há dois exemplos no mercado sobre o que isto significa: a Rede, controlada pelo Itaú, e a Getnet, do Santander, saíram da Bolsa justamente para que os bancos controladores ganhassem maior liberdade na gestão de preços. A Rede se tornou o exemplo mais bem-sucedido ao tomar da Cielo a liderança do mercado, no ano passado, após uma década buscando integrar-se ao Itaú.

Cielo é vice-líder no setor de maquininhas de cartão Foto: SERGIO CASTRO / ESTADÃO

A Cielo é listada desde 2009, e Bradesco e BB controlam a companhia, com cerca de 59% do capital. Na segunda-feira, os dois bancos anunciaram a intenção de adquirir o restante dos papéis dos acionistas minoritários, em uma operação que pode movimentar R$ 5,9 bilhões e que deve levar cerca de cinco meses para se concretizar.

A operação, especulada pelo mercado há mais de cinco anos, foi acelerada pela chegada de Noronha ao comando do Bradesco, como mostrou o Estadão/Broadcast na segunda-feira. O executivo é visto como conhecedor do mercado de cartões e ajudou a criar a Cielo como ela existe hoje, na década de 2000. Pelo Bradesco, foi conselheiro da companhia e de outras sociedades com o BB, como a Alelo.

A Cielo já vinha ampliando os “elos” com os dois bancos. Desde o ano passado, contratou centenas de agentes comerciais para trabalharem dentro das redes das instituições, justamente para conquistar mais clientes PMEs. Além disso, neste ano, incluiu no contrato comercial com Bradesco e BB uma cláusula de remuneração que estimula a adoção, pelos clientes vindos de cada banco, dos serviços de adiantamento de recebíveis prestados pela empresa.

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Noronha não espera ter dificuldades para atrair a aprovação dos minoritários para avançar com a Oferta de Aquisição de Ações (OPA), e disse que os dois controladores estão dispostos a explicar o que for preciso para o entendimento da proposta. Ele espera que a operação possa estar concluída em 150 dias. “É natural que minoritários da Cielo possam questionar a OPA. Mas acho que a maior parte deles aceitará a proposta.”

O acordo de acionistas da Cielo vence em meados do ano e Noronha afirmou que o objetivo é mudar as bases, mas não revelou detalhes. “Queremos mudar o acordo da Cielo para respeitar uma capacidade de competir dos bancos.”

De mãos dadas

Noronha confirmou que a saída da Cielo da Bolsa não muda a sociedade entre o Bradesco e o BB, conforme antecipou a reportagem na segunda. “Não estamos discutindo a compra da posição do BB”, afirmou ele. Segundo o executivo, os dois sócios têm os ponteiros acertados, e o Bradesco acredita que com o BB à mesa na Cielo, o negócio ganha uma escala interessante para o próprio Bradesco.

A analistas, ele lembrou que na holding EloPar, os bancos da Cidade de Deus e de Brasília caminham juntos em uma série de empresas que têm capital fechado, como a Alelo e a Livelo. “Temos uma ‘chinese wall’ na Alelo e na Livelo que funciona bem”, disse Noronha.

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Ainda de acordo com ele, também não estão sobre a mesa discussões como mexer na Cateno. O negócio, criado pelo BB em 2014, gere os cartões Ourocard, emitidos pelo banco, mas é uma sociedade em que a Cielo detém 70% do capital, e o BB, os outros 30%. Embora seja menos lembrada que as maquininhas, a Cateno respondeu por quase metade dos R$ 2,1 bilhões em lucro que a Cielo teve no ano passado.

As várias sociedades entre Bradesco e BB no mundo dos pagamentos são vistas pelo Bradesco como um oceano de oportunidades, que também foi considerado no desenho do plano estratégico. O banco estima que as empresas movimentam cerca de R$ 1,2 trilhão todos os anos.

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