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Sócio do Master foi aprovado pelo BC mesmo tendo ativos congelados por suspeita de corrupção

Acionista do banco entre 2020 e 2024 teve contas no exterior congeladas até 2022, após delação premiada de ex-diretor da Caixa que o acusou de pagamento de propina; defesa de Quadrado diz que ele desconhecia inquérito, posteriormente encerrado sem confirmação das denúncias; BC não responde a pedido de entrevista

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Foto do autor Cristiane Barbieri

Linha do tempo: o que aconteceu com o Banco Master

Linha do tempo: o que aconteceu com o Banco Master.

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Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, teve contas na Suíça congeladas por suspeita de propinas ligadas à Lava Jato. Apesar disso, o Banco Central autorizou sua participação no Master. A defesa alega desconhecimento do inquérito e cerceamento de defesa. Investigações suíças revelaram transferências suspeitas, mas o STJ liberou seus recursos em 2022 por falta de provas. Em 2024, Quadrado vendeu sua participação no Master e enfrentou novas investigações, incluindo a Operação Carbono Oculto.

Maurício Quadrado, sócio do Banco Master entre 2020 e 2024, teve contas na Suíça congeladas após denúncia de pagamento de propinas no âmbito das operações Sépsis e Cui Bono, deflagradas a partir de 2016 como consequência da Operação Lava Jato. Apesar de Quadrado ter ficado com ativos financeiros no exterior indisponíveis entre 2018 e 2022, ele recebeu autorização do Banco Central (BC) para se tornar sócio do Master.

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Qualquer acionista com participação chamada qualificada ou com influência na gestão de instituição financeira passa por um processo de verificação de idoneidade moral, reputação ilibada e capacidade técnica, além de ter de conseguir demonstrar a origem do patrimônio, antes de receber a autorização do BC.

A defesa de Quadrado afirma que ele “desconhecia haver um inquérito policial que o investigava por corrupção à época, mesmo com o fato de ele ter uma conta no exterior bloqueada pertencente a um truste patrimonial” (fundo de proteção de patrimônio e sem movimentação constante).

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Maurício Quadrado, CEO do Blue Investimento: investigado em inquérito quando era sócio do Master / Crédito: Reprodução via instagram/@mauricioaquadrado  Foto: Reprodução via instagram/@mauricioaquadrado

“Foi um procedimento ilegal, no qual houve total cerceamento de defesa”, diz Hugo Leonardo, sócio do escritório Hugo Leonardo Advogados e advogado de defesa de Quadrado. “Tanto que, assim que soubemos da existência do inquérito, conseguimos trancá-lo. Nada do que foi dito pelo delator foi comprovado.”

O BC não respondeu ao pedido de entrevista. Quando houve a aprovação de Quadrado como sócio do Master, a autoridade monetária era comandada por Roberto Campos Neto. Como mostrou o Estadão, Campos Neto tinha conhecimento das dificuldades do Master, e teria atuado para evitar uma intervenção ou liquidação do banco ao longo do ano de 2024, por preferir uma solução de mercado.

Segundo Roberto Panucci, especialista em direito bancário e sócio do Panucci, Severo e Nebias Advogados, o fato de existirem processos judiciais, bloqueios de bens ou inquéritos policiais que investiguem determinada pessoa não é um impedimento para que ela se torne acionista relevante de uma instituição financeira.

“A autoridade monetária analisa as circunstâncias e a gravidade de cada caso, antes de decidir se o investidor tem reputação ilibada e idoneidade para conduzir uma instituição financeira”, diz ele. “O principal objetivo do BC é evitar situações que gerem risco sistêmico, corrida bancária com ameaça de insolvência à instituição por conta dessa reputação ou o uso do sistema financeiro com interesses escusos.” Segundo ele, do mesmo jeito que pendências judiciais não impedem a obtenção de autorização pelo BC, notícias negativas publicadas sobre determinada pessoa podem criar um embaraço nessa autorização. “É caso a caso”, diz.

Denúncias ligadas à Lava Jato

Sócio da corretora Planner até 2022, Quadrado foi investigado após denúncias de que intermediaria a liberação de recursos, junto à Caixa Econômica Federal, a seus clientes, em troca de propina.

Roberto Madoglio, que ocupou o cargo de superintendente de Fundos Especiais da Caixa Econômica Federal entre 2009 e 2011, afirmou em delação premiada que recebeu propinas de várias empresas para facilitar a liberação dos recursos. Em seu depoimento, afirmou que Quadrado o orientou a abrir contas no exterior, alegando que o recebimento de vantagens indevidas fora do País era a “praxe do mercado”.

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Madoglio também afirmou, na delação, que recebeu R$ 9,5 milhões da Planner, entre 2009 e 2011. Os valores teriam sido pagos após a liberação de recursos a clientes da corretora, tanto no setor imobiliário quanto em infraestrutura. O principal alvo eram os recursos do FI-FGTS, fundo de investimento criado em 2007 para destinar recursos do FGTS a grandes projetos de infraestrutura.

Para corroborar sua delação, apresentou extratos de sua conta, com os respectivos depósitos.

Ministério Público: comprovantes de depósitos entre empresas de Quadrado e delator foram consideradas provas robustas / Crédito: Reprodução/STJ Foto: Reprodução/STJ

As investigações conduzidas pelas autoridades suíças identificaram transferências diretas de contas atribuídas a Quadrado para a offshore Yonex Ltd (controlada por Madoglio) que somam cerca de US$ 3,5 milhões. No total, Madoglio admitiu ter recebido US$ 13,2 milhões em propinas (sendo boa parte da antiga Odebrecht), dos quais ele abriu mão e foram repatriados.

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Com base nos detalhes fornecidos por Madoglio, a Justiça Federal determinou o sequestro e bloqueio de contas dos investigados − inclusive de Quadrado − no exterior. Foram pedidos os bloqueios de dez contas de Quadrado, mas foram encontradas duas que foram efetivamente bloqueadas. Uma era de pessoa física e a outra é o que a defesa diz ser o truste.

Segundo a defesa de Quadrado ainda, os comprovantes de depósito entre as contas do banqueiro e Madoglio dizem respeito a outros negócios que ambos tinham em comum, sem detalhar quais seriam essas atividades. “Essas transações não se relacionavam à Caixa Econômica Federal”, diz Leonardo.

Apesar do que chamou de “provas robustas” da prática dos crimes, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) liberou os recursos presos de Quadrado, em 2022. Isso porque, quatro anos após o bloqueio, a investigação não havia sido concluída e a denúncia contra o empresário não foi apresentada.

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Posteriormente, em 2023 e 2025, os inquéritos policiais que envolviam Quadrado e foram abertos após das denúncias de Madoglio, foram encerrados em definitivo, com seu trancamento. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) considerou que as investigações se prolongaram de forma injustificada, sem apresentação de denúncia contra o investigado.

Segundo o próprio MPF, nenhuma das diligências apresentadas pelo órgão foi realizada, apesar de a delação ter sido feita em 2017. Os inquéritos foram trancados porque a Justiça considerou que o Estado falhou em transformar a palavra do delator em provas concretas dentro de um tempo aceitável, tornando a continuidade da investigação abusiva.

Longa trajetória no mercado

Quadrado tem uma longa trajetória no mercado financeiro. Foi diretor de mercado de capitais do Bradesco durante a década de 90, quando teve destaque em operações de IPO (oferta inicial de ações) e em privatizações, como a da Vale.

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Virou sócio da Planner, em que ficou até 2022, quando criou a Trustee DTVM. Antes disso, em 2020, se tornou sócio do Master e estava à frente do Banco Master de Investimentos.

Em setembro de 2024, vendeu sua fatia no Master (estimada em 30%) e na Trustee. No ano passado, anunciou a compra do Banco Digimais e, no pacote de saída do Master, levou consigo o Letsbank a corretora do Master.

Sua ambição era criar o Bluebank, um banco que teria várias frentes de atuação. O BC, porém, não aprovou a compra das instituições financeiras por Quadrado, que anunciou em abril que desistira da aquisição do Digimais. O Letsbank foi liquidado em novembro, junto ao Banco Master e o Banco Master de Investimentos.

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Em agosto, a Trustee DTVM foi uma das empresas envolvidas na Operação Carbono Oculto, que investiga o envolvimento de gestoras da Faria Lima com o crime organizado. Outra empresa que tinha Quadrado como sócio, a Banvox, também apareceu na lista de investigadas.

Recentemente, o Estadão mostrou que um fundo administrado pela Trustee registrou uma dívida de R$ 122 milhões com advogados e outra de R$ 10,7 milhões com consultoria, sem ter apresentado documentos que comprovem os serviços prestados.

Também revelou que outro fundo sob gestão da Trustee investiu quase R$ 10 milhões na BSF Gestão em Saúde, envolvida em esquema de descontos ilegais a aposentados do INSS. O aporte ocorreu em fevereiro de 2023 por meio do fundo Albali, que, segundo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tinha à época como único beneficiário seu então sócio Quadrado. O fundo foi o mesmo utilizado na aquisição do Fasano Itaim, hotel de luxo em São Paulo.

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