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Carlos Wizard compra 50% de rede de idiomas e consolida volta ao setor de ensino

Ex-dono da Wizard investe na rede Enjoy, de inglês para crianças e pré-adolescentes, e recria plano de construir grupo forte para o setor educacional, após ‘período sabático’ e passagem polêmica pela política

Foto do author Carlos Eduardo Valim
Por Carlos Eduardo Valim

O empresário Carlos Wizard Martins fechou esta semana a compra de 50% da rede de ensino de idiomas Enjoy. O negócio consolida a sua volta ao setor, com a formação de um novo grupo educacional, uma década após vender o grupo Multi, dono da marca Wizard. Na última década, depois de se redirecionar para os setores de alimentação e de artigos esportivos, o empresário ainda optou por uma espécie de período sabático, se dedicando a atividades filantrópicas na fronteira com a Venezuela e a uma breve e polêmica passagem pela política, durante a pandemia da covid-19.

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A Enjoy possui 210 unidades, em modelo de franquias, e 50 mil alunos. Para se tornar sócio do negócio, Wizard está comprando, por valor não revelado, a participação do cofundador Oswaldo Segantim, enquanto o outro fundador da rede, Denis Sá, continuará no comando executivo dos negócios.

Com a transação, a Enjoy fará parte do novo projeto de educação de Wizard, organizado sob a bandeira de Grupo Wiz, que também vai abarcar a rede Mister Wiz, voltada a ensinar idiomas ao mesmo tempo que aborda conteúdos de empreendedorismo. Iniciada experimentalmente em 2018, a marca Mister Wiz decolou a partir da reabertura da economia no período pós-pandemia, a partir do começo do ano passado, e possui 100 unidades.

O empresário Carlos Wizard, dono do Grupo Sforza, volta ao setor educacional com o Grupo Wiz Foto: Divulgação Grupo Sforza

Ela é comandada pelo seu filho Felipe Martins e ficará dedicada a ensinar aos jovens a empreender, e a adquirir inteligência emocional e educação financeira ao mesmo tempo que aprende idiomas. Já a Enjoy permanecerá focada em crianças e pré-adolescentes que podem aprender inglês em conjunto com o ensino técnico em design gráfico, marketing digital, programação de jogos e programação web.

“O nosso diferencial está em ensinar essas matérias em conjunto com a prática de inglês, e considerando que o jovem de hoje em dia não vislumbra trabalhar e se aposentar como empregado na mesma empresa. Ele está mais interessado em startups, em investimentos e em ter um negócio próprio”, afirma Wizard.

O modelo de franquias da Enjoy também traz outra particularidade. Cada nova unidade surge com a garantia de angariar, pelo menos, 100 alunos iniciais. Uma equipe da franqueadora é escalada para atuar na nova unidade e fazer todo o trabalho de atração dessa primeira centena de alunos. “Quem abre um negócio quer operar no azul no menor tempo possível, independentemente do que vende”, diz Wizard.

O plano com o Grupo Wiz é replicar o sucesso do modelo do Grupo Multi, que acabou vendido pelo empresário por quase R$ 2 bilhões, para a britânica Pearson. Desta vez, porém, o objetivo é fazer a expansão de forma mais acelerada. Enquanto a Wizard levou 20 anos para chegar às mil unidades, o novo grupo tem como meta atingir o mesmo número em sete anos, e ter 2 mil escolas até 2030. A expectativa também é acumular R$ 100 milhões de faturamento nos próximos três anos.

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“Isso só pode dar certo para quem já percorreu este caminho, quem já tem a visão e a experiência de ter realizado algo e que pode repetir a trajetória”, diz o empresário. “Desta vez, não começamos do zero, sem equipe, estrutura, experiência e dinheiro.”

Um plano que deve ser replicado é o de crescimento por meio de aquisições. Em seus últimos anos antes de ser vendido, o Grupo Multi protagonizou diversas aquisições de outras redes de ensino, como Yázigi, Skill, Microlins e SOS Computadores. Agora, as compras de outras marcas estão no alvo. “Sou um jogador ativo. Vamos ter novidades para contar. Me considero um desbravador de territórios”, diz. “Estamos num país com 5,5 mil municípios, pouco atendidos por escolas de idiomas, e em que só 2% da população fala inglês fluentemente, mesmo estando vivendo numa economia superglobalizada.”

Pós-pandemia

O retorno às franquias de idiomas acontece num momento de recuperação do setor, que sofreu bastante com o fechamento das atividades durante a pandemia. “Agora, o segmento já voltou ao patamar do período pré-pandemia”, diz o diretor da comissão de educação da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Rogério Gabriel. “Os mais preparados demonstraram resiliência e até cresceram nesse período difícil, conseguindo alugar pontos que anteriormente eram caros.”

No primeiro trimestre deste ano, o último dado disponível, o faturamento do setor educacional cresceu 17,8% frente ao ano anterior, enquanto a expansão do setor total de franquias foi de 17,2%.

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Antes da formação do Grupo Wiz, Carlos Wizard já havia tateado um retorno ao segmento educacional, ao comprar, em 2017, por R$ 200 milhões, uma participação de 35% da rede Wise Up, do amigo e empresário Flávio Augusto da Silva. Essa marca é especializada em inglês para adultos, com destaque para executivos.

“Fiz um acordo com o Flávio Augusto e com o Kinea (fundo também parceiro no negócio) que o Wiz não competirá com a Wise Up. A MisterWiz e a Enjoy trabalham com outro público, de crianças, jovens e adolescentes”, afirma Wizard. “A Wise Up é um investimento muito seguro. Tenho total confiança no Flávio, que toca a operação. Sobrevivemos à pandemia, direcionamos o negócio para o digital e agora ela está voltando forte para o mundo físico.”

Atuação diversificada

Wizard e os seus filhos também atuam em outros setores. O Grupo Sforza, administrado pelos gêmeos Charles e Lincoln, é dono de marcas de vestuário esportivo e de alimentação, como Pizza Hut, Taco Bell, KFC, Topper, Rainha e Mundo Verde.

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Em 2020, o empresário promoveu uma guinada ainda mais radical em sua trajetória. Fiel da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais conhecida como Igreja Mórmon, Wizard se diz guiado por sua fé. Foi assim quando, na juventude, depois de começar a aprender inglês aos 12 anos de idade, se mudou para Utah, nos EUA, local de origem da sua igreja. A experiência permitiu que, ao voltar ao Brasil, pudesse iniciar a carreira no ensino do inglês.

Foi assim também em 2020, quando foi ajudar nos esforços de uma missão humanitária para acolher imigrantes venezuelanos. “A igreja estava em busca de um casal para atuar na fronteira. Havia um sentimento de propósito e a minha esposa também estava comprometida com causas sociais, e decidimos que nós mesmos iríamos”, conta.

Assim, o empresário acabou se mudando para Roraima, trocando a sua mansão em Campinas por um apartamento acanhado na capital Boa Vista. Foram quase dois anos de trabalho social. “Eu considero que todo empresário precisa ter uma consciência de contribuição social. Fui convidado e aconteceu”, diz. “Quando estava lá em Roraima, diziam que eu fazia isso para depois sair como candidato a prefeito, governador ou para o Senado. Fui convidado para tudo isso, mas o meu interesse não era político ou empresarial.”

O casal participou do acolhimento de mais de 12 mil refugiados. Mas eles não podiam ficar na fronteira ou se acumularem na cidade. Wizard, então, negociou com a operadora aérea Azul, do americano David Neeleman, também da Igreja Mórmon, para transportar gratuitamente os imigrantes para o Sul e Sudeste do País. A Latam e a Gol também aceitaram participar do projeto, dividindo os custos.. “Comprar 12 mil passagens ficaria muito caro”, afirma o empresário.

Assim, refugiados passaram a ser transportados para outras regiões do País e a receber empregos em empresas de amigos de Wizard. “Por onde eu passo, encontro algum venezuelano, e ele vem me agradecer. É uma emoção cada vez que recebo um abraço”, diz.

Aventura política

Durante a missão, Wizard conheceu o general Eduardo Pazuello, que representava o Exército na gestão da crise humanitária. Quando Pazuello se tornou ministro da Saúde, durante o governo de Jair Bolsonaro, em meio à pandemia, o militar chamou Wizard. “Ele chegou a Brasília e me ligou. Me disse que poderíamos trabalhar juntos de novo e que a nossa missão seria salvar vidas. Eu fiquei 30 dias ajudando, mas depois me pediram para ser secretário do Ministério da Saúde, e então não aceitei”, afirma. “Tenho muito negócio, atividade, empresa para cuidar. Foi uma passagem-relâmpago.”

Apesar disso, o período foi carregado de polêmicas. O empresário foi acusado de chefiar um gabinete paralelo, promovendo a cloroquina, e causou polêmica ao afirmar que os dados de mortos da pandemia teriam sido manipulados por gestores públicos interessados em aumentar o orçamento de seus municípios. Também defendeu uma lei que permitisse a compra de vacinas por empresário. O resultado dessas atuações foi uma convocação para a CPI da Covid.

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Superado o período de polêmicas, Wizard retornou para o mundo dos negócios. Como controlador e conselheiro de suas empresas, ele se dedica a decisões estratégicas e o estabelecimento de parcerias. “Voltei com força total. Cada um tem um dom, uma paixão, uma competência, e contribui melhor para a sociedade em geral quando faz o que gosta’', afirma. “Certa vez andando com o (banqueiro) Joseph Safra (1938-2020), ele me contou que o seu propósito era levar conforto para pessoas e empresas. Disse: ‘Viabilizo casa própria, viagem’. Do meu lado, eu levo empreendedorismo, transformo o ambiente em que as pessoas estão inseridas. Aceito isso como uma missão.”

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