Embraer: Redução de contrato da FAB é revés, mas mercado já não aposta na área de Defesa da empresa

Ações da companhia são sustentadas hoje pela perspectiva de vendas mais altas do futuro 'carro voador'

PUBLICIDADE

Foto do author Luciana Dyniewicz
Por Luciana Dyniewicz e
Atualização:

A decisão da Força Aérea Brasileira (FAB) de reduzir o contrato de compra dos cargueiros militares KC-390 Millenium, produzidos pela Embraer, foi um balde de água fria para a empresa brasileira, que vinha se recuperando de um revés sofrido no ano passado. Em abril de 2020, a Boeing anunciou o encerramento das negociações para comprar a divisão de aviação comercial da Embraer, um acordo de US$ 4,2 bilhões.

PUBLICIDADE

Com a crise da covid e o fim do acordo com a Boeing, as ações da fabricante brasileira de aviões derreteram 55% em 2020. No entanto, cortes significativos nos gastos, o que incluiu a demissão de 2.500 funcionários, e notícias de avanço no programa do “carro voador” (tecnicamente chamado de eVTOL, sigla em inglês para veículo elétrico de pouso e decolagem vertical) fizeram as ações da Embraer disparar 175% na Bolsa no acumulado deste ano até quinta-feira, quando veio a confirmação de que a FAB, sua parceira histórica, reduziria suas compras.

O contrato fechado entre a Embraer e a FAB em 2014 previa a compra de 28 cargueiros em dez anos, por R$ 11 bilhões em valores atualizados. De acordo com o documento, havia a possibilidade de o governo reduzir a encomenda em 25%, ou seja, para 21 unidades. Em abril deste ano, no entanto, alegando restrições orçamentárias, a Aeronáutica divulgou a intenção de ficar com apenas 15 unidades.

A negociação entre governo e empresa se arrastou por sete meses até que, na quinta-feira, o comandante da FAB, tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, informou ao Estadão que não houve consenso. O governo justificou a decisão de rever o contrato alegando restrições orçamentárias. A compra de caças Gripen, fabricados pela sueca Saab em parceria com a Embraer, no entanto, não sofreu cortes.

KC-390 Millennium,cargueiro desenvolvido pela Embraer; FAB reduziu encomenda de 28 para 15 unidades Foto: A.Soares/FAB

Apesar de a negociação ser conhecida desde o começo, o fim das conversas mexeu com o mercado. Os papéis da Embraer recuaram 4,44% na sexta-feira.

Um analista do mercado ouvido pelo Estadão, no entanto, destacou que a queda nas ações pode significar uma oportunidade para se investir na empresa. Segundo ele, a área de Defesa da Embraer, que foi responsável por 18,3% das receitas no terceiro trimestre deste ano, não é vista como tendo um grande potencial de crescimento.

“Claro que essa notícia (da redução dos contratos) não é positiva, mas achamos que ela acaba sendo marginal. O que sustenta o preço da ação da Embraer, onde achamos que está o crescimento futuro da empresa, é o eVTOL”, disse o analista, que preferiu não ser identificado. “Vemos hoje que já está ótimo se a área de Defesa parar de consumir caixa”, acrescentou.

Publicidade

O projeto do KC-390 Millennium é um dos maiores já desenvolvidos pela companhia. Até agora, porém, além do governo brasileiro, apenas o português e o húngaro compraram aeronaves do modelo. Um executivo do setor ouvido pela reportagem destacou que, para a companhia avançar nas vendas, o País precisa de força geopolítica.

Compras no futuro

Para militares, o corte determinado pelo Comando da Aeronáutica pode não resistir ao tempo nem à lógica ou ao bom senso. Isso porque a FAB precisa dos grandes jatos cargueiros para cumprir sua missão cotidiana, a de atender áreas remotas do território brasileiro, prestar socorro nas situações de crise, levar assistência a pontos críticos do País. 

Ouvidos em diferentes unidades e bases, oficiais da FAB, entre os quais dois brigadeiros, consideraram "ruído de momento" a crise com a fabricante causada pela alteração unilateral do contrato. "Precisamos acertar as contas. A contabilidade não fecha", disse ao Estadão um dos planejadores financeiros da Força. Nada impede, entretanto, que novas e diferentes encomendas do do KC-390 sejam feitas.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

O comando de transporte da FAB já recebeu quatro aviões. Tem mais 11 para entregar, um processo que vai exigir entre três e cinco anos. No meio do caminho, em 2022, haverá eleições.

Entre os militares, ninguém vê uma ruptura da Aeronáutica com a Embraer, considerada até hoje, mesmo depois da privatização, uma espécie de agência de tecnologia, desenvolvimento e produção industrial da Força. Também não concordam com a tese de que os recursos disponíveis estejam sendo direcionados para o programa dos novos caças F-39 Gripen, que começam a ser entregues no início de 2022. "Trata-se de contas e negociações independentes.” Para um ex-integrante do Alto Comando, a Embraer adquiriu dimensão planetária, "tem compromissos com seus acionistas e investidores - logo, precisa mesmoprotestar frente a uma decisão grave como a do corte das encomendas do KC-390".

A um custo de referência médio de UR$ 85 milhões, o Millenium é o cargueiro médio (capacidade de 26 toneladas) mais avançado em produção. 

Publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.