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Transpetro, braço da Petrobras, vai operar no Suriname, com avanço do petróleo na Margem Equatorial

Presidente da companhia, Sérgio Bacci diz que está perto de assinar primeiro memorando de intenções internacionais para fornecer serviços; empresa também planeja retomar estaleiros

Por Denise Luna (Broadcast) e Monica Ciarelli (Broadcast)

RIO - A Transpetro planeja se internacionalizar e o primeiro passo nessa direção será dado ainda este ano. Em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, o presidente da companhia, Sérgio Bacci, revela que está perto de assinar o primeiro memorando de intenções internacional para fornecer os serviços que já presta no Brasil para a Petrobras e mais de 170 clientes.

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Com a iniciativa, o executivo visa aumentar a receita da empresa com novos negócios. Para tanto, criou uma gerência com esse foco ligada diretamente à presidência, enquanto também acelera a retomada dos estaleiros brasileiros com uma licitação de 25 navios, prevista para janeiro.

“Quero ampliar o leque da Transpetro para além da Petrobras. Tem algumas coisas acontecendo. A Margem Equatorial começa no Brasil, mas passa pela Guiana, Guiana Francesa, Suriname. Esses países não têm know how (experiência) com exploração e produção de petróleo”, afirmou.

A ida para o Suriname está ligada às grandes descobertas de petróleo e gás natural daquele país na Margem Equatorial, região ainda desconhecida na parte brasileira por falta de licença ambiental para exploração, mas que pode servir de aprendizado para a Transpetro, assim como para a Petrobras, que abriu as portas para a subsidiária.

“A Petrobras começou essa conversa com o Suriname para fazer uma parceria e conseguimos uma agenda com o chanceler do Suriname, que esteve recentemente em Belém (Cúpula da Amazônia)“, informou.

Ideia da Transpetro é lançar em janeiro de 2024 a licitação de três lotes com navios dos tipos Gaseiro (gás/7 mil toneladas), Panamax (até 50 mil toneladas) e Aframax (até 80 mil toneladas) Foto: Alex Ribeiro/Estadão

Bacci explica que o Suriname não tem nenhuma expertise em exploração de petróleo e gás, assim como em logística. Por isso, vai precisar montar uma infraestrutura com a contratação de serviços, como o de tancagem (armazenamento de fluidos em tanque), e a construção de dutos e navios.

“É apenas um memorando de entendimentos, mas temos uma boa perspectiva porque o Suriname não tem experiência. Nós somos o maior operador logístico da América Latina”, disse Bacci, cujas conversas seguem com a estatal local, a Suriname’s National Energy , Oil and Gas Company (Staatsolie). A assinatura do memorando está inicialmente prevista para setembro.

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Segundo ele, a entrada no Suriname deve abrir também as portas para a vizinha Guiana, que também explora a Margem Equatorial. “A Guiana já está operando, tem a Shell, a Exxon, já está um pouco mais avançado que o Suriname, mas, se conseguimos operar no Suriname, as portas começam a se abrir”, avaliou.

Bacci afirmou que faz agora o caminho inverso do que ocorria na Transpetro no governo anterior, que estava sendo enxugada para ser vendida. O objetivo é ampliar o alcance da empresa, mas consciente de que a atuação deve se restringir à América do Sul. “Na América do Sul, a Transpetro é a maior empresa de logística, vamos aproveitar esse know how que temos para buscar negócios”, disse.

Ship to ship

Para aumentar os ganhos, a estatal também quer reduzir custos. Para isso, planeja aumentar as operações ship to ship (transferência de óleo e gás de um navio para outro), que pode economizar até 30% dos custos com os portos. “Na baía de Todos os Santos, no prazo de um mês já fizemos seis operações ship to ship. Nesses quase oito meses (de governo), fizemos 326 operações no Brasil, todas exitosas e sem nenhum litro de vazamento, sem nenhum problema de segurança”, disse.

Além da economia, a atividade também ajuda a liberar espaço nos portos, já que, para fazer a operação de transferência de combustível ou petróleo, utiliza-se apenas um berço do porto (e não dois, como seria necessário) ou nenhum, se a operação for realizada em alto-mar. Outra operação que vem ganhando força são as ship to barge (navios para barcaça).

“Estamos fazendo também ship to barge, essa é uma operação que começamos em Itacoatira, em Belém/Manaus. Possivelmente, em breve, teremos contrato com uma empresa que traz combustível da América do Sul, do Peru, para levar para os Estados Unidos em uma barcaça oceânica, estamos em negociação”, informou.

Bacci, que atuou anos à frente do Sindicato Nacional da Construção Naval (Sinaval), quer colocar em prática tudo o que cobrou durante anos das autoridades: a construção de navios no Brasil apoiada em regras de conteúdo nacional.

Para isso, vem conversando com a Casa Civil para levar adiante, de preferência nos estaleiros brasileiros, a encomenda de 25 navios anunciados pela Petrobras dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado no último dia 11 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Rio de Janeiro.

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“Não será a qualquer preço e não será a qualquer prazo. Vou trabalhar no sentido de agilizar a construção no Brasil. Temos o decreto que o presidente Lula assinou para discutir a questão da nacionalização e estamos conversando com a Casa Civil para ver como nos inserimos nesse processo para agilizar a construção desses navios”, disse.

A ideia do executivo é lançar em janeiro do ano que vem a licitação de três lotes com navios dos tipos Gaseiro (gás/7 mil toneladas), Panamax (até 50 mil toneladas) e Aframax (até 80 mil toneladas). Ele diz ver total condição de construção dos navios no Brasil. Para deixar o processo transparente, vai levar todas as etapas ao Tribunal de Contas da União (TCU) e à Controladora Geral da União (CGU). A concentração em lotes, segundo Bacci, tem por objetivo dar economicidade de escala para os estaleiros.

“A indústria naval não pode errar de novo. Outro erro talvez não tenha recuperação. Eles estão muito conscientes porque isso pode custar muito caro ao País”, ressaltou Bacci, referindo-se aos problemas enfrentados no setor pelos indícios de corrupção na Operação Lava a Jato. Alguns estaleiros, como o Eisa e o Mauá, no Rio de Janeiro, por exemplo, estão em recuperação judicial e podem ficar fora do processo.

No entanto, Bacci aponta pelo menos cinco estaleiros que teriam condições de competir, separados ou em consórcio, da oferta que será lançada pela companhia, com pré-qualificação prevista para ocorrer até outubro: EAS; Promar; Enseada Paraguassú; Ecovix e Wilson Sons.

“Se eu tiver cinco propostas disputando os três lotes já estarei satisfeito”, disse, destacando que quem ganhar um lote não poderá disputar outro, mas que os estaleiros podem fazer parcerias para agilizar a construção. “Não tenho a menor dúvida de que dá para fazer aqui no Brasil”, afirmou.

Ele reconhece, porém, que isso não será suficiente para recuperar a indústria naval brasileira, abatida pela Operação Lava jato, mas prevê possíveis encomendas também da Marinha para fomentar o setor.

“O sistema Petrobras não vai resolver os problemas da indústria naval, mas vai começar a impulsionar a indústria naval e, com a Marinha ajudando, começamos a fazer a indústria naval andar de novo e começar a ser competitiva”, disse, reforçando que a indústria precisa de segurança no longo prazo.

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“Não dá para ser um soluço ou um voo de galinha. Tem que ter encomendas de longo prazo, uma demanda de pelo menos 15 anos. Aí, sim, a indústria naval pega no tranco, como foi com os barcos de apoio”, disse Bacci.

Entre 2003 e 2015, segundo o executivo, o País construiu mais de 250 navios de apoio ao setor de petróleo e gás e chegou a ser o segundo maior construtor desse tipo de embarcação no mundo, perdendo apenas para a Noruega. “Podemos sim ser competitivos”, concluiu Bacci.

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