Alvo de elogios nas páginas das revistas e sites especializados, nem sempre aquela elegante sala de jantar tem muito a dizer a quem adora receber os amigos, mas não gosta muito de cozinhar. E, às vezes, até prefere comer na mesa da cozinha. Perto dos olhos, mas longe do coração. Determinados ambientes, apesar de atraentes, e meticulosamente planejados, parecem prescindir de uma abordagem mais sensível. Respondem bem a critérios funcionais e estéticos, mas nem sempre às reais aspirações de seus ocupantes.
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Exercitada por um número cada vez maior de profissionais, uma nova forma de decorar, mais ampla e abrangente, começa a tomar corpo, aqui e lá fora. Nela, não existe uma maneira “certa” ou “errada” de fazer as coisas. Mas, para além dos critérios comumente observados, aspectos como a sinergia, a sustentabilidade e, principalmente, a conexão emocional entre moradores e seus ambientes passam a contar pontos. Em boa medida, projetar um ambiente “holístico” significa recriar-se a cada projeto.

“Por décadas, temos testemunhado o predomínio de interiores ancorados no componente estético e no bem-estar físico de seus moradores. Porém, com a ampliação da consciência sobre como os ambientes podem, efetivamente, influenciar nossas condições físicas e mentais, percebo que elementos como luz, cor e vegetação passaram a desempenhar um papel cada vez mais decisivo em meus projetos”, conta a arquiteta e designer Fernanda Marques, para quem algum nível de personalização é um dado igualmente essencial.
Segundo ela, para um projeto ser bem-sucedido hoje é fundamental que a proposta estabeleça uma conexão direta entre as pessoas e o espaço onde elas vivem. O que pode ser alcançado, por exemplo, por meio de elementos que tenham um significado especial para elas, tais como obras de arte, fotografias e lembranças de viagens. ”Toda casa deve refletir as necessidades, mas também a personalidade de seus moradores. Isso é fundamental para que os moradores desfrutem de uma sensação de pertencimento”, considera a arquiteta.
Não propriamente um estilo, mas mais uma abordagem ampliada, que combina filosofias orientais, biofilia e psicologia das cores, entre outras disciplinas: nos projetos holísticos, da textura dos materiais até a iluminação, cada detalhe é pensado para proporcionar uma experiência única. Como atestam, por exemplo, os instigantes ambientes criados pela britânica Faye Toogood, uma das precursoras da abordagem holística em seu país, recentemente eleita Designer do Ano pela edição de janeiro da Maison & Objet, em Paris.

“Quando entro em um lugar, ouço primeiro o que ele tem a dizer. Depois, penso nas pessoas que viverão lá. Assim, nenhum dos meus projetos é igual. Podem até parecer experimentais, mas eu nunca copio e colo”, pontua Faye, para quem, mais do que nunca, o momento exige que exercitemos nossa liberdade. “Este mundo de redes sociais está tendendo à uniformidade. A tecnologia é divertida, mas destrutiva para o cérebro. Por isso, nada mais atual do que exercitar a sua criatividade e, assim, ser fiel a você mesmo”, conclui ela.
Como decorar de modo ‘holístico’
Adotar os princípios do design holístico e, assim, usufruir de ambientes mais belos e saudáveis é uma abordagem ao alcance de todos. Basta ficar atento a algumas regras básicas:
- Anote suas intenções. Defina claramente como cada ambiente será usado e por quem. Tenha claro qual será a função principal do espaço, como você quer que ele seja e mantenha tudo anotado. A partir dessas informações será muito mais fácil planejar suas compras para montar um ambiente onde você possa se sentir à vontade e acolhido.
- Otimize função e fluxo. Embora essencial, em se tratando de design holístico, isso não se resume a uma planta funcional, mas a garantir o fluxo de energia dentro de sua casa. Para tanto, além de se certificar de que os móveis não estejam bloqueando portas e janelas, reduza seus pertences ao necessário e àqueles que você verdadeiramente gosta.
- Faça o ar circular. Assim como o fluxo de energia é importante, o fluxo de ar não fica atrás. Mover permanentemente o ar velho e estagnado — e a energia acumulada — , abre espaço para que sua casa seja preenchida com um novo frescor. Por isso, abra sempre as janelas e invista em purificadores de ar e ventiladores de teto para ajudar o ar a circular.
- Conecte-se à natureza. A natureza é um elemento essencial dentro do design de interiores holístico. Incorporar elementos como plantas domésticas ao desenho dos ambientes não só ajuda a criar uma atmosfera mais relaxante, reforçando nossa conexão com a natureza, mas também ajuda a purificar as condições de ar no local.

- Capriche nas cores. Não há dúvidas de que a cor tem um impacto significativo em nosso humor e comportamento. E a psicologia das cores é clara: quando o objetivo for criar uma atmosfera restauradora, tons suaves e terrosos, baseados nas cores da natureza, são sempre as escolhas mais eficazes para proporcionar bem-estar físico e psicológico.
- Opte por materiais mais significativos. O design holístico preconiza uma abordagem criteriosa na escolha dos móveis e objetos. Nesse sentido, optar por variedades naturais, orgânicas e sustentáveis, assim como por materiais reciclados — que também colaboram para a saúde e bem-estar do nosso planeta — é sempre a melhor opção. Além disso, observe cuidadosamente as texturas. Grãos de madeira naturais, juta, grama, linho e pedra natural, por exemplo, ajudam a evocar nossa conexão profunda com o elemento terra.
- Deixe a luz entrar. Mais do que uma ferramenta essencial e funcional, a iluminação define a própria percepção que temos de um ambiente. E não há dúvida de que a luz natural é muito mais favorável. Além de manter o ritmo cardíaco, é mais suave para os nossos olhos e muito mais relaxante do que a luz artificial. Portanto, use. E abuse.




