PUBLICIDADE

O jogo compulsivo no caminho das mulheres mais velhas

Segundo especialistas, os homens preferem, geralmente, pôquer e blackjack, enquanto as mulheres preferem jogos de sorte, como caça-níquéis e bilhetes de loteria

PUBLICIDADE

Por Tanya Mohn
Marilyn Lancelot, que foi presa por desviar US$ 350 mil por sete anos de seu trabalho para jogar, em sua casa em Sun City, Arizona. Foto: Deanna Dent/The New York Times

As luzes piscando, o barulhinho das moedas e regalias como comidas, bebidas e viagens de ônibus gratuitas ou muito baratas estão atraindo mulheres mais velhas para os cassinos. Para algumas pessoas, esse ambiente sedutor pode ser muito perigoso. “Os cassinos são treinados para fazer com que você se sinta bem-vinda enquanto perde sua vida”, afirmou Sandra Adell, de 70 anos, professora do departamento de Estudos Afro-Americanos na Universidade de Wisconsin-Madison, que relembrou suas experiências como jogadora compulsiva no livro “Confessions of a Slot Machine Queen” (Confissões de uma Rainha dos Caça-Níqueis). Em uma entrevista, Adell disse que as propagandas focadas nos idosos normalmente mostram pessoas sorrindo, bem vestidas e parecendo glamourosas “para criar uma ilusão que mexe com as nossas fraquezas”. “O que a indústria está fazendo, a maneira como faz propaganda e mantém os cassinos cheios de idosos, é moralmente repreensível”, continuou ela. É difícil encontrar números reais, mas Keith Whyte, diretor executivo do Conselho Nacional sobre o Problema do Jogo, diz que o vício em jogos entre mulheres mais velhas perto da aposentadoria ou aposentadas parece estar aumentando em quantidade e ficando mais sério, com um impacto devastador nas finanças pessoais. Marilyn Lancelot, de 86 anos, moradora de Sun City, no Arizona, por exemplo, contou que, depois de jogar compulsivamente por sete anos, foi presa aos 61 anos por desviar US$350 mil de seu emprego e passou quase um ano na prisão. “Lá no fundo do meu coração, realmente achei que iria ganhar muito”, explicou ela em uma entrevista. “Todo jogador diz isso.” Lancelot descreveu suas experiências no livro “Gripped by Gambling” (Dominada pelo Jogo). Muitos especialistas afirmam que os homens frequentemente são jogadores de “ação”, que preferem o blackjack e o pôquer, enquanto as mulheres são jogadoras de “fuga”, atraídas por jogos baseados na sorte, como os caça-níqueis e os bilhetes de loteria. Elas normalmente começam a jogar mais tarde do que os homens, às vezes depois de algum evento importante, como a morte do marido ou quando os filhos saem de casa. As mulheres são menos propensas a desenvolver problemas com jogo do que os homens, segundo Whyte, mas “o efeito telescópio, o rápido desenvolvimento de problemas, é especialmente pronunciado nas idosas”. Pode parecer surpreendente para algumas pessoas que as mulheres tenham problemas severos com jogo, afirma ele. “A vovó não é vista como alguém que dá um desfalque e é levada para a cadeia”, explica, mas isso acontece. Muitas perdem quantias significativas de dinheiro e colocam seu futuro em risco. “Quando começam a usar o que guardaram para a aposentadoria, torna-se muito difícil – se for possível – refazer essas economias”, diz Whyte. Stephanie Iacopino, de 63 anos, moradora de Toms River, em Nova Jersey, que trabalha meio período em vendas, conta que, durante anos de jogo compulsivo, roubou dinheiro de familiares, amigos e clientes de uma empresa de viagens e acabou presa em 2010 por desviar US$18 mil de sua igreja. Ela diz que ficou quase quatro meses no Centro Correcional para Mulheres Edna Mahan, perto de Clinton, em Nova Jersey, e depois mais 22 meses no Programa de Supervisão Intensiva do Estado, que, segundo funcionários, é “mais exigente” do que a liberdade condicional tradicional. “Não temos nada guardado”, afirma Iacopino, que é casada. “Vivemos de salário em salário.” Mas, apesar da batalha financeira, ela fica feliz de estar se recuperando do vício. Algumas mulheres têm questões médicas associadas ao vício, conta Whyte, como problemas de bexiga agravados por não se levantar dos caça-níqueis para ir ao banheiro. Existem provas empíricas que sugerem que, entre as pessoas mais velhas, alguns remédios podem levar ao comportamento compulsivo, incluindo o vício pelo jogo. A diminuição das funções cognitivas também é capaz de interferir na habilidade de tomar decisões sadias, explica ele. Há uma conexão forte entre o jogo e o abuso de substâncias. “Se você é um jogador compulsivo, tem quatro vezes mais possibilidades de sofrer problemas também com o álcool em algum momento da vida”, afirma ele. “No mínimo, a taxa de jogadores compulsivos entre as pessoas com transtornos por uso de substâncias é quatro a cinco vezes o encontrado na população em geral.” (O conselho dispõe de um telefone de apoio nacional que funciona 24 horas por dia para jogadores compulsivos e seus familiares.) Patricia A. Healy, diretora clínica da Healy Counseling Associates, em Toms River, especializada em aconselhamento de dependentes, acredita que a compulsão pelo jogo entre os idosos “é um assunto importante e subestimado neste país”. “O jogo é o enteado do mundo do vício. Você não consegue sentir seu cheiro, ver ou observar”, a não ser que pegue alguém em ação. Para algumas pessoas, explica Healy, há uma descarga de adrenalina e “de repente eles estão na caçada. Tristemente para alguns, essa espiral é fatal”. As viagens de ônibus para os cassinos são algumas vezes marcadas para coincidir com a chegada dos cheques de aposentadoria, diz ela, e não são raros os casos de aposentados que usam o dinheiro das previdências privadas e das pensões, fazem hipotecas ou acabam perdendo suas casas. “Eles ficam muito envergonhados.” Neva Pryor, diretora executiva do Conselho de Jogo Compulsivo de Nova Jersey, afirma que existem pessoas mais velhas que jogam com o dinheiro reservado para seus remédios e acabam desesperadas. Alguns se tornam suicidas e podem “sair dirigindo para morrer para que suas famílias possam ganhar o seguro”, conta ela.

O transtorno do jogo compulsivo em idosos é preocupante e tem crescido nos EUA. Especialistas dizem que, muitas vezes, os aposentados usam o dinheiro da previdência e das pensões para jogar - e, muitas vezes, acabam perdendo tudo. Foto: REUTERS/Stephane Mahe

Sam Skolnik, autor de “High Stakes: The Rising Cost of America’s Gambling Addiction” (Alto Risco: O Custo Cada Vez Mais Alto do Jogo nos EUA) diz que as consequências do jogo patológico geram custos sociais que incluem a perda da produtividade no trabalho, crimes domésticos, suicídio e prejuízo para as famílias por causa do aumento do endividamento, execução de hipoteca da casa e falência. “Quando os idosos jogam, infelizmente são prejudicados de maneira mais permanente”, explica. “Não há dúvida de que a indústria sabe que eles perdem mais dinheiro do que deveriam.” Sara Slane, vice-presidente sênior de assuntos públicos da Associação Americana de Jogo (AGA na sigla em inglês), que representa os cassinos, afirmou em uma declaração por e-mail: “Apesar de o jogo compulsivo não ter crescido na proporção do número de cassinos, a indústria e a AGA continuam a aumentar o investimento e o compromisso com programas de jogo responsável”. Ela citou uma pesquisa do Journal of Gambling Studies que compara entrevistas telefônicas conduzidas em 1999 e 2000 com as feitas de 2011 a 2013 e descobriu que as taxas de jogo compulsivo continuaram estáveis em geral e, na verdade, declinaram entre as mulheres. Rachel Volberg, professora associada da Escola de Saúde Pública e Ciências da Saúde da Universidade de Massachusetts Amherst, que estuda o jogo, explica que o conhecimento sobre a questão nos Estados Unidos ainda é inadequado. “Não há muito apoio para pesquisas sobre o assunto neste país”, afirma ela. Apenas em 1980 o jogo patológico se tornou uma questão de saúde mental no “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”, diz ela: “É uma desordem relativamente jovem no que diz respeito ao reconhecimento”. Lancelot, do Arizona, que hoje está aposentada, diz que deixou a cadeia sem nada, mas no final conseguiu se recuperar financeiramente. Como condenada, foi difícil arranjar um emprego e um apartamento, mas ela pediu três meses de aluguel emprestados a seu irmão, pagou o proprietário antecipadamente e arrumou um trabalho como secretária no governo do Arizona. Em dez anos, conta, tinha duas casas, um carro novo e contas bancárias. “Quero que os idosos saibam que não é o fim do mundo”, afirma. Pryor, do Conselho de Jogo Compulsivo de Nova Jersey, diz que os idosos podem se proteger de possíveis problemas na aposentadoria procurando ajuda no gerenciamento de suas finanças – e planejando como passar o tempo – muito antes de parar de trabalhar. “O que as pessoas precisam perceber é que elas podem se dar bem por um tempo, mas no final a casa sempre ganha.”  

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.