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Opinião|Saudades de Ive Brussel

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Como terminei indo ao show do grupo coreano Ive com minha filha pré-adolescente.

( Foto: Carlos Castelo)

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Idosos bons vão para o céu, idosos maus vão para qualquer lugar.

Como me encaixo na segunda categoria, terminei indo ao show do grupo coreano Ive, escoltando minha filha pré-adolescente.

Claro, o k-pop, nem de longe, figura entre meus gêneros musicais favoritos. Aliás, tenho dúvidas de que aquilo se trata de um gênero musical (como explanarei adiante). No entanto, pai, que é pai, se submete a qualquer sacrifício para ver brotar um sorriso no rostinho de sua cria.

Para compreender minha odisseia no teatro do Espaço Unimed, é necessário antes lançar mão de uma metáfora para que o leitor visualize o que é ser-estar, na categoria 50+, num espetáculo de k-pop.

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A performance do Ive é como a série Round Six. O indivíduo é levado a um espaço determinado e submetido a desafios cada vez mais complicados.

O primeiro deles é a fila.

Como o k-pop está mais para culto do que para música, os fãs-raiz precisam ver os astros de perto. Para isso, é preciso chegar antes dos outros. Baixamos então 12 horas antes do show. O curioso é que já havia gente fantasiada na rua com cara de ter passado a noite ao relento.

A segunda competição foi aguentar a leva de ambulantes, passando a cada minuto, oferecendo de bottons, cangas, carregadores de celular à aluguel de banquinhos.

Acostuma-se a tudo na vida. Mas logo que o idoso se tranquiliza diante dos vendilhões, a próstata dá sinais de vida e é preciso obedecer às demandas da bexiga. Só que onde? Informava o bombeiro civil que «só tem banheiro na estação do metrô». Nem era tão distante assim, mas um pai vai deixar a filhota, tão novinha, em meio àquela muvuca?

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Tem início o round de enganar o desejo de micção. A salvação foi um copinho plástico de água mineral. Quando a natureza clamava, me metia num becozinho e tirava água do joelho.

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A próxima peleja passou a ser o sol. Passado o meio-dia, e durante boa parte da tarde, o verdadeiro astro nos fustigou com seus incômodos raios. Os vendedores logo estavam mercadejando guarda-sóis, chapéus, bonés e lenços.

Quinta disputa: os mosquitos. Com o cair do dia, nuvens desses vetores deram para nos atentar. Em tempos de dengue, sem vacina, não é de bom senso se alhear a tais ataques. Fui obrigado a adquirir, pela hora da morte, um leque (de arco-íris) para os afugentar do entorno.

Às 18 horas, já em frangalhos, adentramos finalmente ao teatro. Apenas mais duas horas, de pé, e estaríamos diante do sexteto asiático.

Eu diria que o show do Ive é uma espécie de restaurante chinês, dos bem dogmáticos, com som e movimento. Há até projeções com passarinhos e flores kitsch em telões na hora do canto. Canto, aliás, dublado. O que configura o Round Six da minha peregrinação. Para um indivíduo que presenciou apresentações dos Stones, Dylan, Chico, Milton, um show, sem banda, equivale a ler Shakespeare pelo Google Tradutor.

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Após meia hora de bis, às 22h30, findavam minhas tribulações e a euforia da filha. Ao sairmos, vi o nome do tour mundial do Ive pairando, gigantesco, pelas paredes. Foi quando me indaguei: «What I have com isso?»

 

 

Opinião por Carlos Castelo

Carlos Castelo. Cronista, compositor e frasista. É ainda sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.

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