“A gente vai atormentar a vida de vocês. Tá pensando que alguém aqui está de brincadeira? Todo mundo aqui tem antecedente criminal.” A ameaça foi feita por um integrante de uma torcida organizada do Sport durante uma invasão ao centro de treinamento do clube, no Recife, em protesto contra o mau desempenho da equipe, lanterna do Brasileirão. Jogadores como Pablo, ex-São Paulo, foram agarrados pelo pescoço e levaram tapas no peito durante a “conversa” com os membros da uniformizada.
O Sport acionou o Ministério Público de Pernambuco e pediu a abertura de um inquérito para apurar o episódio — mais um em uma série recente de tensões envolvendo torcidas organizadas.

No dia seguinte, foi a vez de uma organizada do Vasco se dirigir ao CT Moacyr Barbosa, na zona oeste do Rio, para cobrar o elenco e a diretoria pela má fase do time. Apesar de a entrada ter sido autorizada pelo presidente Pedrinho, o encontro teve momentos de tensão, incluindo uma discussão entre um torcedor e o zagueiro João Victor, criticado por ter ido jogar boliche com a família em meio à crise. O técnico Fernando Diniz classificou o protesto como “justo” e afirmou que não houve violência.
Casos como esses não são isolados. Em São Paulo, torcedores organizados de São Paulo e Corinthians também foram aos CTs na última semana cobrar resultados, mas, em tom mais amistoso, combinaram crítica com apoio — às vezes, este tipo de reunião ocorre até como convite por parte de algumas diretorias.
Nem mesmo astros como Neymar escapam das cobranças. Após discutir com um torcedor na Vila Belmiro, a principal torcida organizada do Santos, a Torcida Jovem, publicou uma nota com críticas. “A sua reação não foi no calor do momento. Essa postura mais preocupada com o extracampo é recorrente (...) pedimos uma revisão de postura sua, que é o termômetro para a mudança de postura de todos no Santos”, dizia o texto.
Engana-se quem pensa que apenas clubes da elite convivem com a pressão das organizadas. O caso mais grave dos últimos tempos envolveu o Duque de Caxias, da Baixada Fluminense. Cerca de 20 pessoas invadiram o CT do clube, em Xerém, armadas com pedras, morteiros e pedaços de pau. O local foi depredado e o alojamento dos atletas invadido — alguns jogadores foram agredidos e pertences teriam sido roubados. A Polícia Civil registrou o caso e realizou perícia no local.
A invasão foi uma represália a um episódio ocorrido em 12 de julho, quando jogadores do Duque de Caxias pularam o alambrado para discutir com torcedores após o empate que decretou o rebaixamento do time para a terceira divisão do Campeonato Carioca.
Números da violência
Apesar do cenário alarmante, o relatório Violências no Futebol Brasileiro, publicado em 2024 pelo Observatório Social do Futebol (ligada à Uerj), mostra que confrontos entre torcedores e jogadores representaram apenas 5% dos casos de violência registrados no ano anterior.
“É simplista achar que só torcidas organizadas estão envolvidas em episódios de violência física. As organizadas são movimentos sociais complexos. São elas que dão vida à festa nas arquibancadas — com faixas, músicas, instrumentos”, afirma Raquel Sousa, mestre em Ciências Sociais e especialista em Segurança em Eventos Esportivos pela Uerj.
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Segundo o estudo, 47% dos episódios de violência no futebol brasileiro ocorrem entre torcedores de clubes diferentes. Um dos fatores centrais para isso é o sistema de alianças e rivalidades que rege a relação entre as organizadas no país.
O relatório critica a atual política de punições às torcidas, baseada na suspensão das entidades (CNPJ), em vez de penalizar diretamente os indivíduos (CPF). “Isso pune torcedores que não participaram da violência e deixa os culpados impunes”, destaca um trecho do documento.
Impacto no campo — e fora dele
A invasão ao CT do Sport já provocou efeitos concretos fora das quatro linhas. De acordo com o GE, dois jogadores que estavam prestes a ser contratados desistiram da negociação após se assustarem com as imagens do episódio.
“Nos tornamos mais tolerantes com o crime e a violência em várias esferas. O futebol ainda é um dos poucos espaços valorizados no mundo, mas aqui sofre com os reflexos da sociedade que construímos”, analisa Thiago Freitas, executivo da Roc Nation, agência de gerenciamento de atletas.
Para especialistas, episódios como invasões e agressões não apenas comprometem a imagem dos clubes, mas também afetam negócios e até expõem dirigentes e atletas a riscos jurídicos.
“Caminhamos para um cenário de insalubridade. Parece haver uma autorização informal para coagir, assediar e agredir profissionais do esporte. O fato de estarem expostos ou bem remunerados não pode justificar isso”, diz Alexandre Vasconcellos, gerente da Flashscore no Brasil.





