PUBLICIDADE

Palmeiras x Fluminense: times invertem papéis 13 anos depois de ‘entregada’ pedida pela torcida

Em 2010, torcida palmeirense pediu para o time perder para a equipe carioca e não ajudar o arquirrival Corinthians

Foto do author Ricardo Magatti
Foto do author Murillo César Alves
Por Ricardo Magatti e Murillo César Alves
Atualização:

Telmário de Araújo Sacramento, mais conhecido como Dinei, fez há 13 anos o gol que considera o mais bonito de sua carreira, encerrada no ano passado. Depois de acertar no ângulo um chute de rara felicidade e abrir o placar para o Palmeiras diante do Fluminense, o atacante se sentiu envergonhado. “A sensação foi muito estranha”, diz ao Estadão o hoje ex-jogador, ao relembrar daquele incomum episódio.

PUBLICIDADE

Foi esquisito para ele comemorar a sua pintura pois passou a ser xingado pelos torcedores nas arquibancadas. Foram pouco mais de 11 mil presentes, que também criticavam o time, que havia sido eliminado pelo Goiás, na semifinal da Copa Sul-Americana daquele ano. “Mas entendo a torcida do Palmeiras naquela ocasião pois a rivalidade entre palmeiras e Corinthians é muito grande.”

A torcida palmeirense presente na Arena Barueri naquele Palmeiras x Fluminense, jogo da penúltima rodada do Brasileirão de 2010, não queria que o time vencesse porque o resultado ajudaria o arquirrival Corinthians, que disputava, à época, o título com a equipe carioca. “A comemoração foi um pouco inibida, não foi como outros gols que fiz. Os torcedores estavam vaiando, não poderia comemorar de outra forma”, recorda-se o ex-atacante.

Personagem em Palmeiras x Flu, Dinei atuou entre 2010 e 2011 pelo Palmeiras Foto: Divulgação/Palmeiras

Atleta contestado pela torcida desde o primeiro momento em que vestiu a camisa do Palmeiras em razão do apelido que o ligava a um ídolo corintiano, Dinei foi vaiado pelos torcedores. Mas os palmeirenses no estádio se revoltaram mais com o goleiro Deola, que fez uma série de defesas que estavam garantindo a vitória do time treinado por Luiz Felipe Scolari.

“Olê, olé, olá, o pau vai quebrar se o Fluminense não ganhar”, gritava a torcida do Palmeiras atrás do gol defendido por Deola, que viu um copo plástico ser atirado perto de sua orelha. Garrafas também foram arremessadas em direção ao goleiro, mas não o acertaram. “Eu não merecia ter sido xingado. Não quero acreditar que isso foi direcionado a mim, mas sim apenas em razão da situação do jogo e da rivalidade entre os times”, desabafou o atleta depois do jogo. Foram cinco defesas difíceis do goleiro naquela partida.

No fim, o Fluminense virou o jogo, ganhou por 2 a 1, encaminhou o título, conquistado na rodada seguinte, e animou os palmeirenses naquela que foi uma das tardes mais bizarras do futebol brasileiro. “Foi a única vez que passei por aquilo, graças a Deus”, afirma Dinei. “É muito ruim você fazer um gol e não poder comemorar. Vai ficar marcado pra sempre na minha carreira”.

Xingado pela torcida, Deola se destacou há 13 anos em jogo com episódio incomum Foto: Paulo Pinto/AE

Houve ‘entregada’?

O Fluminense chegou no duelo com o Palmeiras depois de ter vencido o São Paulo, outro rival histórico do Corinthians. Da mesma forma, a torcida do tricolor paulista pediu, nas arquibancadas da Arena Barueri, para que o time entregasse a partida, a fim de prejudicar o rival. No elenco do líder, no entanto, a sensação interna era de tentar ignorar fator externo.

Publicidade

Muricy Ramalho já havia passado pelo São Paulo, onde conquistou o tricampeonato brasileiro (2006, 2007 e 2008) e pelo Palmeiras em 2009. O sucesso no Fluminense chegou a fazer com que o treinador fosse cogitado a assumir o comando da seleção brasileira após o fracasso da equipe de Dunga na Copa do Mundo de 2010. O Fluminense não era campeão brasileiro desde os anos 1980 e, além do Corinthians, disputava diretamente com o Cruzeiro.

Torcida do Palmeiras pediu para que time entregasse a partida para o Fluminense em 2010, para prejudicar o Corinthians. Foto: Alex Silva/Estadão

“Saiu muito esse burburinho da torcida, que queria muito que Palmeiras e São Paulo entregassem o jogo para o Fluminense, mas foi um jogo muito difícil contra o Palmeiras. Ficou só entre os torcedores (a entregada)”, afirma, ao Estadão, Washington, ídolo do Fluminense e um dos jogadores presentes no elenco naquela tarde de novembro de 2010. Ele não chegou a entrar em campo, mas acompanhou do banco de reservas a virada, comandada por Tartá e Carlinhos, que marcaram os gols da partida.

“Foi muito mais mérito nosso, a vitória sobre o Palmeiras. Nos blindamos muito com essa conversa de que o Palmeiras entregaria”, diz o “Coração Valente”, que se aposentaria do futebol no ano seguinte. “Não deixamos que esse pensamento passasse para o grupo. Estávamos muito focados para conquistar o título. O Palmeiras não entregaria, assim como não entregou.”

Vitória do Fluminense sobre o Palmeiras fez com que equipe abrisse importante vantagem na liderança da competição. Foto: Junior Lago/Reuters

Felipão e Corinthians incomodados

Ao longo da semana que antecedeu o confronto, o técnico do Palmeiras à época, Luiz Felipe Scolari, se mostrou incomodado com a ideia de que sua equipe entregaria a partida para prejudicar o Corinthians. Defendeu Dinei, Deola e todos os atletas. Assim como Washington, o treinador fez questão de transparecer que, apesar da rivalidade e dos pedidos da torcida, isso nunca ocorreu ou ocorreria. Chegou a dizer que, no estádio em Barueri, só “havia torcedores do Fluminense” naquela tarde.

PUBLICIDADE

“O Deola pode ter saído magoado com a torcida, que o xingou muito. Mas com certeza saiu com seu conceito muito maior perante todo o restante do País“, afirmou Felipão, hoje técnico do Atlético-MG. Após a vitória diante do São Paulo por 2 a 1 neste sábado, o time evitou com que o Palmeiras possa ser campeão em 2023 com uma rodada de antecedência.

“Eu peço desculpas à verdadeira torcida do Palmeiras pelo que fizemos na quarta-feira, mas não para quem esteve nesta partida. Aqui só tinha torcedor do Fluminense“, completou o treinador, irritado à época. Também irritados, Andrés Sanchez, então presidente do Corinthians, Tite, que hoje disputa o título comandando o Flamengo, e atletas do time paulista criticaram a “entregada” palmeirense.

Cenário invertido

Neste domingo, 13 anos depois, Palmeiras e Fluminense se enfrentam no Allianz Parque com um cenário invertido. Quem disputa o título é o time paulista e quem quer que o seu clube “entregue” o jogo é a torcida tricolor, já que os rivais Botafogo e Flamengo lutam também pela taça. Os dois cariocas estão a três pontos da equipe de Abel Ferreira, que lidera o Brasileirão, com 66 pontos.

Publicidade

Fernando Diniz realçou o “compromisso muito grande com o futebol e a ética do jogo” que o Fluminense tem na reta final do Brasileirão. “Depois da Libertadores nos comprometemos a jogar da melhor forma possível. Nesse momento a gente falou que queria entregar tudo e se preparar para a estreia do Mundial de Clubes”.

Antes de enfrentar o Palmeiras, qualquer possibilidade de “entregada” foi rechaçada com os 3 a 0 sobre o Santos. Na Vila Belmiro, a vitória foi conquistada com os titulares em campo. No Allianz Parque, é provável que o time carioca jogue com reservas por causa do gramado sintético. “Acho que oferece mais risco. Não gosto do campo de grama sintética. Não é o melhor para os jogadores. Não favorece o jogo e o risco de lesão aumenta”, justificou Diniz.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.