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SAF ganha campeonato? Veja quais clubes do Brasileirão viraram ‘empresas’

Oito dos 20 times da Série A migraram para a gestão empresarial e ao menos outros quatro buscam investidores

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Foto do author Ricardo Magatti
Atualização:

O Campeonato Brasileiro de 2024 larga neste sábado, 13, com a consolidação do modelo empresarial entre os clubes. Dos 20 times que disputam a Série A neste ano, oito deles, isto é, 40% do total, se transformaram em Sociedade Anônima do Futebol, a SAF. Alguns ainda buscam investidores para também virar clube-empresa e outros, mais tradicionais, rejeitam completamente a ideia.

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Aprovada por meio de projeto de lei e em vigor desde agosto de 2021, a Lei da SAF permite que um clube se estruture como empresa e tenha dono. O modelo é adotado, geralmente, com o pensamento de salvar as agremiações de graves crises financeiras e torná-las competitivas. No ano passado, a mais importante competição de futebol do País começou com cinco times como SAF e outros tantos em divisões inferiores.

Neste ano, oito times que se tornaram empresa vão disputar a Série A: Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Cruzeiro, Cuiabá, Fortaleza, Red Bull Bragantino e Vasco. Com exceção do Fortaleza, nenhuma dessas equipes alcançou protagonismo na elite do futebol brasileiro em 2023. Bahia, Cruzeiro e Vasco brigaram para não cair e só escaparam na última rodada de descer à segunda divisão.

“Claramente, a primeira onda de SAFs veio para salvar clubes que estavam em risco de quebrar e outros aproveitaram oportunidades de negócio para valorizar seu produto”, elucida o português Nuno Mena, diretor de novos negócios da YinzCam, empresa de tecnologia que tem como clientes 47 das 100 instituições esportivas (isso inclui times de futebol americano, basquete e futebol) mais valiosas do mundo. “A segunda grande onda vai claramente entrar nas ações minoritárias ouparcerias estratégica e isso vai permitir que clubes tenham uma alavanca para subir de patamar”, emenda o executivo.

Equacionando dívidas

O Atlético Mineiro alterou seu modelo administrativo em julho do ano passado, quando vendeu 75% das ações por R$ 913 milhões ao Galo Holding, conglomerado formado pelos 4Rs - Rubens e Rafael Menin, Ricardo Guimarães e Renato Salvador. O Centro de Treinamento e a Arena MRV foram transferidos para a SAF. Os quatro investidores, que participam da administração atual do Atlético-MG, fizeram um aporte inicial de R$ 600 milhões e assumir 100% das dívidas, o que deixou a associação, que detém 25% das ações, sem déficit.

Rafael Menin, Rubens Menin, Renato Salvador e Ricardo Guimarães, integrantes da Galo Holding, que detém 75% das ações do Atlético Foto: Pedro Souza/Atlético-MG

“Encontramos o clube com sérios problemas financeiros, e estamos equacionando essas dívidas com os aportes que já foram feitos pelos investidores”, afirma ao Estadão Bruno Muzzi, CEO da SAF atleticana. “Estamos na fase de estruturação do clube, organizando para que o Galo seja cada dia mais sustentável, equilibrado. Esse é um caminho natural para que possamos ter times cada vez mais fortes, e com perspectivas de sempre disputar as competições em alto nível”, acrescenta o executivo, segunda o qual o time mineiro será “uma potência ainda maior em poucos anos”.

No início do ano, o Conselho Deliberativo do Atlético aprovou o aumento de capital, com mais R$ 200 milhões, aplicados 100% pelo FIP Galo Forte, que já detinha participação na sociedade. O novo aporte fez com que o capital social total da SAF aumentasse para R$ 1,422 bilhão. Não à toa, o clube trouxe uma das principais contratações da temporada do futebol brasileiro: o meia Gustavo Scarpa.

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‘Relação fria’ com a SAF

O Vasco fez um acordo com o grupo americano 777 Partners, que adquiriu, em agosto de 2022, 70% das ações do futebol cruzmaltino com a promessa de investir até R$ 700 milhões. Depois de brigar para não cair em 2023 e evitar o rebaixamento na rodada derradeira, o time trabalha para fazer uma campanha melhor nesta temporada. Lúcio Barbosa, CEO da SAF vascaína desde julho do ano passado, quando Luiz Mello deixou o cargo, diz que a mudança de gestão significou processo de profissionalização dos departamentos do clube.

“Internamente, desenvolvemos ferramentas de controle, melhoramos a organização interna e os processos administrativos, o que gerou consequências positivas nas receitas”. Segundo o executivo, o Vasco “recuperou a credibilidade no mercado para propor novos acordos comerciais e impulsionar os valores.

Eleito presidente da associação do Vasco no ano passado, Pedrinho mostrou estranheza e incômodo por causa da “relação fria” com a SAF e desabafou. “Eu estou incomodado porque eu poderia colaborar e construir, tentar construir, algo interessante esportivo”, entregou. “Quando eu me lanço candidato e sou eleito, com raciocínio óbvio, é que além de presidente e de sócio, porque ainda temos 30%, é que a gente tivesse uma relação próxima com relação à construção esportiva”.

Pedrinho, presidente do Vasco, tem relação fria com a SAF vascaína Foto: Divulgação/Vasco

Mais de R$ 300 milhões em reforços

Já o Bahia, comprado pelo City Football Group, donos de outros clubes, o mais famoso deles o Manchester City, comandado por Pep Guardiola, gastou mais de R$ 100 milhões em contratações no ano passado, mas os resultados a curto prazo não vieram. O time só escapou do rebaixamento na última rodada. Em 2024, segundo o presidente do clube, o ex-goleiro Emerson Ferretti, a projeção é de que os donos da SAF invistam R$ 320 milhões para melhorar o plantel. Vieram nomes conhecidos, como o meio-campista Éverton Ribeiro, ex-Flamengo.

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Quando foi concluída a compra de 90% da SAF, o Grupo City fez o compromisso de investir R$ 1 bilhão em até 15 anos. Cautelosa, a projeção do CEO da SAF do clube brasileiro, Diego Aguirre, é de que o Bahia leve uma década para alcançar os resultados estipulados.

SAF inspirada no Bayern de Munique

Considerado um dos clubes mais bem geridos do Brasil e com maior faturamento anual na história do futebol nordestino, o Fortaleza migrou de regime no fim do ano passado, mas se tornou uma SAF diferente, sem investidor nem venda de ações, ao contrário do que aconteceu com Botafogo, Cruzeiro e Vasco. O próprio clube é o dono de 100% das ações.

“É uma SAF 100% controlada pelo clube, que entende que tem condição de gerir o departamento de futebol e as ações gerais. Estaremos abertos, em algum momento, em realizar a venda de ações minoritárias. Não temos intenção de venda de controle majoritário. É algo que pensamos e pusemos em prática para nos mantermos competitivos”, explica Marcelo Paz, que renunciou à presidência para assumir como CEO do time cearense.

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A inspiração para o Fortaleza é o Bayern de Munique, o mais poderoso time da Alemanha. Na equipe alemã, as cotas na associação são de 75% para os atuais gestores, que possuem poder de decisão, e os outros 25% divididos em três empresas distintas: Audi, Allianz e Adidas, com 8,33% cada uma delas. Ou seja, o dinheiro entra, mas o clube não perde sua autonomia e continua com a maior parte das ações. “É um modelo que achamos válido, interessante”, diz Paz.

Marcelo Paz renunciou à presidente para se tornar CEO da SAF do Fortaleza Foto: Mateus Lotif/Fortaleza EC

Primeira SAF do Brasil

A primeira instituição a se tornar SAF entre os clubes da Série A foi o Cuiabá, que já era clube-empresa desde a sua fundação, e apenas aguardava a aprovação da nova legislação do futebol brasileiro, vigente a partir de agosto de 2021. A família Dresch, dona da indústria de borracha Drebor, é quem está à frente do clube do Mato Grosso.

“Para o Cuiabá, em especial, que é considerado um clube emergente, a lei das SAFs é fundamental. Financeiramente, possibilitou obtermos uma competitividade bem maior em relação ao que tínhamos antes. Ainda mais com a redução da carga tributária”, disse Cristiano Dresch, à frente da instituição desde 2009. Ele trata o regime empresarial como o “grande movimento dos últimos anos” no futebol brasileiro.

“Essa lei veio para conseguir salvar os clubes mais tradicionais que estavam à beira da falência e é o ‘motor’ que vai transformar o Campeonato Brasileiro em uma liga”, acredita o empresário.

Bahia foi comprado pelo Grupo City e investiu pesado em reforços nesta temporada Foto: Divulgação/Bahia

Quem pode entrar na nova onda das SAFs?

Athletico-PR, Atletico-GO, Juventude e Vitória planejam também se tornar SAF no futuro. Os três se estruturam e buscam investidores. A expectativa de Mario Celso Petraglia, presidente do time paranaense, é de que o clube venda até 51% de suas ações para um parceiro que seja brasileiro. Sua avaliação é de que a venda pode ser negociada por R$ 2,5 bilhões. Dirigentes da agremiação do Paraná, sem grandes dívidas e organizada financeiramente, se reuniram recentemente com representantes do Bank of America, um dos 10 maiores bancos do mundo.

“Estamos revendo o modelo para ficar possível entrar um parceiro a nível do mercado brasileiro. A nossa avaliação chegou a R$ 2,5 bilhões. Optamos em incluir na SAF todos os ativos. Estamos revendo, quem sabe tirar o estádio, que baixa esses valores”, explicou Petraglia, em entrevista recente.

Auxiliado por XP e Bridge Sports Capital, o Juventude se estrutura, desde 2002, para virar SAF e criou um grupo de trabalho para tratar deste assunto internamente. Segundo Fabio Pizzamiglio, presidente do clube gaúcho, há investidores interessados, mas nenhuma das propostas agradou. “Já recebemos, mas até agora nenhum projeto ou proposta se enquadrou dentro do cenário que esperamos”, justifica, ao Estadão.

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Clubes da Série A que viraram SAF, seus donos e a porcentagem das ações de cada um

  • Atlético-MG - Galo Holding (75%);
  • Bahia - City Football Group (90%);
  • Botafogo - John Textor (90%);
  • Cruzeiro - Ronaldo Fenômeno (90%);
  • Cuiabá - Família Dresch (100%);
  • Fortaleza - Próprio clube é dono de 100% das ações;
  • *Red Bull Bragantino - Red Bulll;
  • Vasco - 777 Partners (70%).

*O Red Bull Bragantino é clube-empresa desde antes da aprovação da Lei da SAF, de 2021, e se estrutura como uma limitada (LTDA).