Gui Khury está rompendo limites no mundo do skate desde os seis anos de idade. Em 2025, ano em que ganhou mais centímetros de estatura e ficou mais forte, foi o primeiro skatista a acertar a manobra 900 em uma competição da modalidade park. Além disso, recebeu a nota mais alta da história de um campeonato de vertical, um 99, superando Bob Burnquist. Tudo isso aos 15 anos, antes de completar 17 no último dia 18 de dezembro.
Nenhum desses momentos, contudo, impactou mais o curitibano do que receber seu primeiro modelo próprio de shape - a prancha do skate - das mãos da lenda Tony Hawk, que acompanha os passos do garoto há muito tempo. A novidade foi revelada a ele durante os treinamentos do X-Games de Salt Like City.
“É o ‘tio’ Hawk, né? O Tony que me deu o pro-model. Na verdade, foi uma coisa bem inesperada na hora. Eu não sabia o estava acontecendo, nem meus pais sabiam, só mais o time mesmo que estava sabendo. E, nossa, realmente eu acho que de todos os troféus que eu ganhei esse ano, acho que o pro-model foi a coisa mais importante para mim”, conta ao Estadão.

No universo dos skatistas, ganhar o chamado pro-model é um marco na carreira, pois eles passam a ter um produto assinado em seu nome, junto de uma marca. Isso traz identidade ao atleta e ainda o permite receber royalties pela comercialização. No caso de Gui, a marca é a Birdhouse, cujo dono é o próprio ‘tio Hawk’.
“Você se profissionalizar no skate é uma coisa muito difícil de acontecer, ainda mais pela Birdhouse. Não é todo mundo que consegue. Também sendo brasileiro em uma marca gringa... é difícil de acontecer isso”, explica.
Gui Khury não foi notado pela lenda do skate à toa. Ainda aos seis anos de idade, tornou-se o mais jovem a completar um aéreo de 540 graus, três meses antes de repetir o feito em relação ao 720, já aos sete.
Quando tinha oito, mais um recorde: o mais jovem a acertar um 900, manobra executada pela primeira vez em 1999, por Tony Hawk. São dois giros e meio em cima do skate, no ar. Com 11, se tornou a primeira pessoa a realizar um 1080 - ou seja, três giros completos - na modalidade vertical.
Foi se destacando no vertical, que consiste em realizar manobras em uma rampa em formato de ‘U’, que o curitibano chamou a atenção do mundo do skate. Como a modalidade não faz parte do programa olímpico e ele sonha em disputar uma Olimpíada, veio a decisão de se aprimorar no park, que tem manobras aéreas como no vert, mas realizadas em uma espécie de piscina com obstáculos.
O início foi difícil, mas Gui se adaptou rapidamente, não à toa se tornou o primeiro skatista a completar um 900 em uma competição de park, durante o Mundial de Park deste ano, no qual terminou com o bronze. Ainda foi prata no MegaPark, evento do X-games e terminou 2025 em segundo lugar no ranking de park da Skate Total Urbe (STU).
O prodígio do skate brasileiro cresceu, não só em termos de carreira, mas de forma literal. Ele está mais alto e isso mudou sua forma de andar de skate, de maneira que ajudou a melhorar o desempenho no park.
“Estou muito bem no park agora por causa do crescimento também, bastante. Dei uma uma crescida ano passado, esse ano eu cresci muito. Eu acho que isso que deu a virada de chave para o parque. E de ter um rolê mais de homem, não de uma criança, também muda muita coisa”, afirma.
“E também o pensamento do park, de como fluir as linhas, de eu pensar: “Ah, eu vou fazer isso nessa parte, daí eu vou ir para essa parte”. Tudo meio que ajuda e também a força faz uma boa diferença: voar mais alto, fluir mais na pista. Acertar o 900 fez diferença, foi uma loucura e inesperado para mim. Sabia que ia acontecer, mas não tão cedo."
Além da estatura e força adquiridas por estar mais velho, o skatista fez a expansão de modalidades com o auxílio de companheiros curitibanos que já eram especialistas no park, caso de Japinha, medalhista de bronze olímpico em Paris-2024, e Luigi Cini, líder do ranking do STU.
“Eu aprendi muito com o Luigi e o Japinha. Eu sempre andava muito de skate com eles no parque, no vertical, na mega rampa, tudo. Acho que a mesma coisa que aconteceu com eles está acontecendo comigo agora, dessa fase de crescimento que realmente faz uma diferença muito grande no park. Vocês como eles evoluíram e têm estilos diferentes. Então, eles acabam me ajudando em coisas diferentes.”
Mesmo com o esforço de sucesso para se destacar no park, Gui ainda quer disputar uma competição de vertical nas Olimpíadas. O sonho não vai se concretizar nos Jogos de Los Angeles-2028, mas Tony Hawk está fazendo lobby junto ao Comitê Olímpico Internacional (COI) para que ocorra ao menos uma exibição durante a Olimpíadas em território californiano, o berço de skate. Com isso, espera pavimentar caminho para uma inserção no programa dos Jogos de Brisbane-2032.
“Eu escutei que em Brisbane vai acontecer. Que estão para fazer essa demonstração do vertical em Los Angeles. Não sei de muita coisa e posso estar bem errado, mas acho que a próxima modalidade a entrar nas Olimpíadas”, diz.
“Sei que é muito cedo para falar sobre as Olimpíadas, mas eu acho que do jeito que eu estou indo nos campeonatos, do jeito que eu estou evoluindo, que eu estou crescendo, acho que tem uma possibilidade grande de eu estar em Los Angeles.”





