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Henrique Avancini, maior ciclista brasileiro, anuncia aposentadoria e não vai aos Jogos de Paris

Maior nome da modalidade do país decide por encerrar história no esporte para priorizar a filha e a família

Foto do author Bruno Accorsi
Por Bruno Accorsi
Atualização:

Responsável por elevar o ciclismo brasileiro ao mais alto nível de competitividade e por tornar o esporte mais popular no País, Henrique Avancini decidiu parar de competir. A aposentadoria foi anunciada nesta terça-feira e, embora não seja imediata, retira os Jogos Olímpicos de Paris-2024 dos planos do ciclista petropolitano de 34 anos, maior nome do ciclismo nacional. Ele irá competir apenas em mais algumas provas neste ano.

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Duas semanas atrás, Avancini venceu a prova de maratona cross-country de mountain bike no Campeonato Mundial de ciclismo, em Glasgow, na Escócia, e tornou-se bicampeão, pois já havia levado o título da edição de 2018, na Itália. Ao subir no primeiro lugar do pódio, já sabia que aquela era sua última participação na competição, conforme revelado em coletiva de imprensa em São Paulo, nesta terça, quando a Red Bull lançou o documentário “Meu Motivo”, dirigido por Gabriel Morais, explicando o caminho que levou à escolha.

“Eu tomei a decisão de que, se eu fosse campeão mundial, seria o suficiente para dizer o que eu tentei dizer a minha carreira inteira. Se eu buscasse alguma coisa além disso, seria muito mais para satisfazer meu ego do que para compartilhar uma coisa que eu acredito ser genuinamente boa. Foi assim que eu fui para o Campeonato Mundial, acreditando muito que eu ia voltar campeão e sabendo que se isso acontecesse seria o fim da minha carreira”, diz Avancini em um trecho da produção.

Durante a carreira vitoriosa, o ciclista teve de lidar com lesões e até com um quadro de depressão, mas recebeu o apoio necessário para continuar trilhando um caminho de conquistas. Mais do que isso, alcançou objetivos como trazer uma etapa da Copa do Mundo para o Brasil no ano passado e competiu com sua própria equipe, a Caloi/Henrique Avancini Racing, na atual temporada, o que o ajudou a seguir em frente.

“Em 2020, tive um ano perfeito, terminei o ano como número um do mundo, já era um período que eu estava vivendo coisas bem pesadas nos bastidores como um todo. Na temporada 2021, isso começou a ficar ainda mais pesado para mim. Chegou um momento que percebi que eu não estava fazendo as coisas com a motivação que eu sempre tive”, disse.

Henrique Avancini colocou o Brasil no mapa do ciclismo durante sua carreira  Foto: Jonne Roriz/COB

PROBLEMA FAMILIAR E OLIMPÍADA

No documentário, Avancini conta sobre um dos momentos mais difíceis de sua vida. A pequena Liz, de 4 anos, filha do ciclista, passou duas semanas internada na UTI por causa de um problema de saúde, e o pai se viu completamente perdido, em um momento no qual estava trabalhando para lançar a sua equipe e motivado nos treinamentos.

“Bati o carro na garagem, bati o carro no trânsito, de tão fora de mim que eu estava. Ver a minha filha assim, momentaneamente perdendo os movimentos, foi pesado para mim, minha filha é muito enérgica. Foi a primeira vez na vida dela que eu vi ela para baixo. Ela teve alta, mas teve que ficar com sonda e tal. Quando a gente soltava ela, parecia que estava soltando um animal selvagem. Saia correndo, gritando, alegre. Eu lembro muito da expressão dela quando saímos do hospital, abatida por perder peso, mas feliz. Aquilo parece que foi um sinal para mim, que eu iria passar por momentos desafiadores. Poucos dias depois, saí para treinar, sofri uma queda muito forte. Fiquei duas semanas sem conseguir treinar”

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Após a exibição do filme, Avancini pontuou o quanto foi difícil decidir encerrar a carreira a menos de um ano dos Jogos Olímpicos. “Sempre tem a próxima e tem muitos argumentos para ir seguindo em busca da Olimpíada. Conversei com muitos atletas que ficaram amargurados e não conseguiram deixar isso de lado. É difícil decidir parar a colheita”, refletiu. “No começo, eu não compartilhei com ninguém. É o tipo de conversa que você se ‘desconvence’ muito rápido. Eu quis respeitar o meu instinto e não ser tão racional”.

Sair de cena é visto pelo multicampeão como algo positivo para o mountain bike brasileiro, pois, segundo ele, isso permitirá que o cenário se desapegue de sua imagem para dar mais espaço a outros talentos. “Eu acredito que chegou o momento que começa a ser quase negativo para a modalidade. Se eu vou e corro bem, falam de mim. Se eu vou e corro mal, falam de mim. A pauta acaba sendo muito centrada em mim, mas tem outros atletas almejando seu caminho. Eu sei que posso contribuir muito ainda, como um papel secundário”.

O MAIOR CICLISTA DO BRASIL

Antes do título mundial neste mês, o ciclista fluminense foi campeão brasileiro de cross country olímpico (XCO) e short Track (XCC), em julho, e soma 23 títulos nacionais em diferentes categorias. Em meio à soberania em território nacional, colocou o Brasil como protagonista em competições internacionais. Além da 13ª colocação no XCO dos Jogos de Tóquio, em 2021, a melhor colocação de um brasileiro no mountain bike olímpico, foi o primeiro representante do país a ocupar a primeira colocação do ranking mundial.

O topo da classificação foi alcançado por Avancini pela primeira vez em agosto de 2020, após terminar o Mundial daquele ano em décimo e conquistar medalhas de ouro no XCC e no XCO durante a etapa da Copa do Mundo na República Checa. Na ocasião, deixou o rival suíço Nino Schurter e o holandês Vader Milan, lendas do ciclismo, como números 2 e 3 do mundo, respectivamente.

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O também lendário Avancini esteve 30 vezes no top 5 de eventos da Copa do Mundo e do Mundial e acumula outros feitos emblemáticos, como a prata dos Jogos Pan-Americanos de 2019, que só não foi ouro por causa de um pneu furado na parte final da prova. Empilhar medalhas e títulos, contudo, não é o maior feito do atleta e sim o legado que ele deixa para o ciclismo.

Com sua popularidade e imagem de ídolo, o petropolitano conseguiu trazer para o Brasil uma etapa da Copa do Mundo de Mountain Bike, no ano passado, o que não ocorria há 17 anos. O palco, como não poderia deixar de ser, foi Petrópolis, onde um público alucinado marcou presença massiva para ver as provas. Avancini foi quarto no XCC e 13º no XCO, mas o resultado era o que menos importava. Quando cruzou a linha de chegada, foi ovacionado pelos apaixonados por ciclismo que prestigiaram o evento como se tivesse sido campeão. A reação fez lágrimas descerem pelo rosto do ciclista.

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