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Indigesto Barcelona

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Gosto do Barcelona, porque sou fissurado por futebol desde que comecei a dar os primeiros tombos na vida. O Barcelona é o fino do joguinho de bola. É tudo aquilo que sonhamos para um time. Mas não aguento mais o Barcelona! Tudo que se fala tem o Barcelona como referência. Sistema de jogo? Ora, o do Barcelona. Organização, preparação física, craques, patrocínio, o diabo a quatro? Barcelona, sem dúvida! Só dá Barcelona na tevê, no jornal, na internet. O barbeiro aqui da rua às vezes vem puxar assunto comigo para comentar o... Barcelona! Já tive pesadelos com o Barcelona!O Barça é extraordinário, mas tem um quê de irreal. Messi, Xavi, Iniesta, Puyol, Pedro são de carne e osso, sei disso. Correm, cansam, erram, se machucam como qualquer um. Mas levantam taças de todos os tipos e qualidade como poucos; por isso, parecem personagens de ficção. A sincronia deles às vezes alcança grau de perfeição tão refinado que passa a impressão de ser coisa de computador. Sabe como é? Truque desses joguinhos marotos que inventam para exagerar a realidade. O Barcelona deve ser outro delírio criativo de Leonardo da Vinci que ficou guardado séculos em algum convento perdido na Catalunha. (Nem sei se o toscano passou por lá. Vai ver que sim, irrequieto do jeito que era...) Um belo dia alguém descobriu a fórmula e virou encantamento geral - ou desgraça para os demais. O Barcelona é a mulher desejada por todos, porém à qual só um tem acesso. Sujeito de sorte. A propósito: quem desdenha o Barcelona não tem noção de beleza, não sabe o que é uma estrutura harmônica e gentil. Para o Barcelona, fazemos reverência; para nosso time, torcemos, por ele, sofremos. E chego aonde queria levar você que tem o despautério de me ler dia sim, dia não. Não aguento mais o Barcelona ser usado como parâmetro para desmerecer o resto. Para diminuir, por exemplo, o Brasileiro. Antes, descíamos a ripa no futebol jogado por aqui por ser nivelado por baixo, por causa do êxodo, da fórmula que não dá certo, etc etc. Só que, na hora em que nosso time ergue a taça, é sempre uma alegria danada. Ué, e a mediocridade? Ora, meu amigo, isso é choro de perdedor e vamos pra festa!De uns tempos para cá, essa tendência para malhar o bate-bola doméstico ganhou argumento requintado. Acertou se pensou no Barcelona. Para mostrar as mazelas em verde e amarelo de nosso torneio, todo mundo se refere ao Barcelona como o modelo a ser copiado. Também já caí nesse lugar-comum, tenho certeza. Qualquer coisa aquém das proezas blaugranas (acho que está certo) é o mesmo que porcaria. Ou quase. E aí reside uma enorme injustiça.Não se trata de fazer apologia da mediocridade - não sou intelectualmente refinado, muito menos tosco irrecuperável ou garotinho crédulo. Tomara todos as equipes fossem fortes. Mas não é assim, não foi, nunca será. O Barcelona é um fenômeno, e dessa maneira se pode compreendê-lo melhor. É a exceção que, em todos os tempos, sempre existiu no futebol. Hoje, está degraus acima, da mesma maneira que Real Madrid e Manchester United. Uma trinca de ouro, extraordinária, esplendorosa. Os demais times são a normalidade. No passado, de acordo com a época, foram Milan, Benfica, Santos, Inter, por ai vai...Se considerarmos que só vale a pena ver em ação esse trio homérico, negaríamos então a existência do futebol. Só haveria público nos jogos entre eles ou nos quais estivessem envolvidos. Ora, quem curte a bola arregala os olhos para essas entidades, divaga, toca sua vida corriqueira e se diverte. Veja a Escócia, já que gostamos tanto de mirar a Europa como o paraíso futebolístico: campeonato mixuruca e com estádios sempre com gente a sair pelo ladrão. A mesma coisa na Alemanha, que tem o Bayer de Munique e um outro destaque esporádico e não se encontra lugar vago nas tribunas. Com todas as mazelas que repetimos como mantra, o público aqui retorna aos estádios. Pois sabe que vai encontrar o imprevisível, acredita na possibilidade de resultados surpreendentes. Nos países que tomamos como a essência do futebol, a disputa se resume a dois, três candidatos no máximo. Aqui, temos oito, nove na briga por título. E com jogos superiores ao que há na Espanha, na Itália, na França. Me desculpem os refinados, mas o futebol brasileiro é legal pra caramba. E não é à toa que os gringos vêm pescar talentos de penca por aqui. Olé!

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