O mundo da bola e o futebol pelo mundo

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Palmeiras não canta vitória antes. Flamengo tem mais futebol. Mas é Libertadores de emoções únicas

Histórico do time alviverde desafia favoritismo rubro-negro em Lima; equipes se enfrentam neste sábado, às 18h (de Brasília)

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Foto do autor Mauro  Beting

Quem será o primeiro brasileiro tetra da Libertadores? Torcedores opinam

Palmeiras e Flamengo decidem o título continental em Lima, no Peru. Crédito: Ricardo Magatti/Guilherme Schanner

Palmeiras não conta vitória antes, porém, hoje, pode cantar pra sempre. Flamengo - hoje - tem mais elenco, time, futebol e o craque Arrascaeta. Mas...

Palmeiras e Flamengo se reencontram neste sábado para decidir quem é o melhor time da América do Sul. Foto: Pedro Kirilos/Estadão

O Flamengo tem mais elenco, porque também tem mais dinheiro. O Flamengo tem um trabalho fora de campo quase tão bom quanto os longevos cinco anos de Abel. O Flamengo tem um excelente treinador, muito jovem, mas muito qualificado, e com base de campo e de berço enorme como Filipe Luís. O Flamengo tem mais time. As últimas rodadas, também teve mais futebol. Aquilo que o Palmeiras tinha até se perder no Campeonato Brasileiro e praticamente doar o caneco à equipe que era favorita antes de a bola rolar no Brasileirão: o Flamengo.

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Na Libertadores, a história é diferente. O Palmeiras, de novo, tem melhor campanha. E sempre lembrando que num torneio como esse, é mais discutível ter a melhor campanha porque os adversários são diferentes. Mas, até nisso, sobretudo na primeira fase, o Palmeiras teve paradas mais complicadas. No mata-mata, não. A coisa meio que se equilibra, como estará de novo equilibrada em Lima. Palco da virada estupenda do Flamengo em 2019, com o melhor time de futebol que eu vi neste século no continente, o de Jorge Jesus.

Flamengo-19 que, sim, sofreu mais do que deveria antes mesmo com Abel Braga. E que contra o Emelec teve uma arbitragem boa para o ajudar até os pênaltis, e de lá foi show na semifinal contra o Grêmio, e a partir dos 42 do segundo tempo contra o grande time da década anterior. O River Plate que era melhor no Peru, estava merecendo ser campeão mais uma vez, até Gabigol, o pior em campo, virar o jogo e virar história pelo Flamengo.

Em 2021, quando foram definidas as semifinais para a grande decisão em Montevidéu, o Flamengo era muito melhor do que o Palmeiras. Tanto que a Mancha pedia a cabeça de Abel, e não só dele: de Veiga, Scarpa, Luan, Zé Rafael, Marcos Rocha e Mayke. Todos os jogadores logo depois multicampeões pelo Palmeiras. Sobretudo nos ventos de Montevidéu, onde os menos de 30% de palmeirenses gritaram mais do que os rubro-negros - e não por conta do vento, mas pela força de um Palmeiras que não ganha no grito. Não era melhor, mas acabou sendo mais eficiente também pela infelicidade de Andreas Pereira, e pela luz de Deyverson.

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Agora, mais do que em 2021, o páreo é mais equilibrado. Até porque o Palmeiras de Abel é uma outra equipe, para não dizer também uma outra torcida. Se ela ainda é corneteira (termo criado no próprio Palestra Itália no final dos anos 50), e xingou Abel quando perdeu os dois jogos para o Corinthians na Copa do Brasil, foi o espírito do português que fez com que o Palmeiras confiasse na remontada histórica, nos 4 a 0 contra a LDU.

Eu mesmo nunca havia ficado tão confiante numa virada como aquela. No rádio, logo depois da atuação horrível em Quito, eu já dizia que o Palmeiras faria quatro gols com a mesma naturalidade com que o Palmeiras fez 4 a 0 uma semana depois. Esse é o espírito da armada de Abel.

Ele faz os palmeirenses mais confiantes - e talvez um pouco menos palmeirenses por isso. Não que a gente verde seja pessimista, a gente é palmeirista. Sempre acha que não vai dar certo, ou que o outro vai ganhar. E, dessa vez, Abel incutiu algo que nem o alviverde sabe dizer o que é. E não são porque os 90 minutos são muito tempo na Allianz Parque. É porque, nesses cinco anos de Abel, ele conseguiu virar até a confiança do palmeirense, e também das torcidas rivais.

Na semana dos 3 a 0 em Quito para os 4 a 0 em São Paulo, poucos foram os memes, as risadas e as chacotas rivais. Porque quase todo mundo tinha a convicção que o próprio Abel tinha da noite mágica da volta.

Esse espírito precisa entrar em campo contra o flamenguista. Torcedor e clube que são o contrário. Ninguém está certo ou errado. É apenas DNA. O cheirinho de 2016 foi criação do Flamengo e da sempre inflamada e flamante FlaTT, Flapress, dos influencers e dos jornalistas influenciados por isso.

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O flamenguista é aquilo que brilhantemente define Marcelo Barreto. Perde duas, vai ser rebaixado. Ganha duas, é o Projeto Tóquio. Ou, como diria Marcos Braz, “Real Madrid, pode esperar, sua hora vai chegar”. Capaz que se ele ainda estivesse no Flamengo, e não no Remo que conseguiu subir a Série A, estaria falando a mesma coisa para o PSG. Antes mesmo do clássico de Lima.

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O Flamengo já se perdeu pela boca algumas vezes. Dificilmente o Palmeiras faz isso. Em 1979, no jogo classificatório para as semifinais do Brasileirão (que seria vencido pelo Inter de Falcão de forma invicta), até Zico caiu na pilha e na falha desse jeito rubro-negro de galhofa. Inflado pelo presidente Márcio Braga, que comprou antecipadamente as passagens a Porto Alegre para enfrentar o grande Internacional no Beira-Rio, o time do Flamengo dizia que o Palmeiras era verde demais por ter metade da equipe estreando no Maracanã, que era uma equipe muito jovem, embora excelente, a de Telê Santana...

E o resultado se viu. Com Zico e bela companhia, o Palmeiras fez 4 a 1 no Flamengo. Jogo que ajudou a mudar a história do futebol brasileiro, e para muito melhor; foi a partida que acabou destronando, além da hora, Cláudio Coutinho da seleção. Trazendo, a partir de fevereiro de 1980, Telê Santana. E também, dando a lição de humildade que faria logo depois o Flamengo conquistar o Campeonato Brasileiro. Título nacional que o levaria à conquista da Libertadores de 1981, com o melhor time que eu vi em 52 anos de estádios e estúdios: o Flamengo de 1981-82 (tema, inclusive, de um livro oficial do Flamengo, assinado por mim e pelo brilhante colega André Rocha).

O torcedor rubro-negro tem dessa, de já cantar vitória antes. O do Palmeiras é diferente. Ele não canta gol antes, não conta vitória depois, e, se bobear, até na volta olímpica, ele é desconfiado. O Rubro-Negro já é bastante entusiasmado, ainda que muito corneta. Filipe Luís é cobrado na Gávea como se fosse um qualquer. Ele está muito acima da média, como Abel Ferreira também está.

Tudo isso colocado, o Flamengo tem um melhor elenco, tem melhor time, tem tido melhor futebol e tem o melhor jogador em atividade no continente, Arrascaeta.

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O Palmeiras ainda tem o seu jogador mais decisivo na história desde 1914, que é Raphael Veiga, mas que não vive o seu melhor momento. Todo Palmeiras já jogou melhor até pouco tempo atrás. O Flamengo está num momento mais consistente. Vai sentir a ausência de Pedro, talvez sinta de Léo Ortiz, embora Danilo estivesse presente na melhor atuação do Flamengo no século, quando venceu impiedosamente o Chelsea, que logo depois seria campeão do Mundial de Clubes.

O Palmeiras tem alternado a equipe como o seu torcedor, o humor. Não terá Paulinho, que pouco pôde jogar na temporada. Weverton será bem substituído por Carlos Miguel, e até na possibilidade real de pênaltis, quando o Palmeiras não é o mesmo time de força mental absurda das viradas de Abel Ferreira.

Nos pênaltis, se acontecer, Flamengo é favorito. Em 120 minutos, pelos desgastes das equipes, fica tão imprevisível quanto o pisão de bola de Andreas Pereira. Palmeiras vence por 2 a 1, com gol do Bruno Rodrigues, o do título, saindo do banco como Breno Lopes e Deyverson.

Opinião por Mauro Beting

Comentarista SBT, TNT, Xsports, N Sports e BandNews FM. Escritor e documentarista. Curador do Museu Pelé e do Museu da Seleção Brasileira.