Publicidade

Nova polêmica de Djokovic: sérvio cita Kosovo e se coloca no centro de crise internacional

Tenista se envolve em crescente conflito dos Bálcãs com mensagem em câmera de televisão após vitória em Roland Garros

PUBLICIDADE

Por Matthew Futterman
Atualização:

The New York Times - Depois de tudo que Novak Djokovic passou ao longo dos últimos anos, o Torneio de Roland Garros começou com a possibilidade, finalmente, de um torneio de Grand Slam sem drama. Mas três dias depois, Djokovic se colocou no centro da crescente crise internacional nos Bálcãs, onde sérvios e albaneses étnicos se enfrentaram nos últimos dias no conflito de Kosovo.

PUBLICIDADE

Na noite de segunda-feira, a estrela do tênis sérvio escreveu a mensagem “Kosovo está no coração da Sérvia” em uma placa de acrílico sobreposta na lente de uma câmera de televisão. A frase apareceu no telão da arena em que venceu o americano Aleksandar Kovacevic. Há dirigentes esportivos pedindo que ele seja punido, amordaçado ou ambos, e partidários albaneses o chamando de fascista.

“Um Grand Slam sem drama, acho que não vai acontecer para mim”, disse Djokovic na noite de quarta-feira, após derrotar o húngaro Marton Fucsovic. “Acho que isso também me motiva”. O 22 vezes campeão de torneios Grand Slam lutou para encontrar seu ritmo, mas venceu por 3 sets a 0, com parciais 7-6 (2), 6-0, 6-3. Mas, como costuma acontecer com Djokovic, o que está acontecendo na quadra de tênis esta semana é apenas uma fração da história.

Djokovic escreveu 'Kosovo está no coração da Sérvia' na câmera ao lado da quadra após vencer partida em Roland Garros.  Foto: Reprodução/B92
Em Roland Garros, Djokovic voltou a causar polêmica. Desta vez, o tema é o apio ao Kosovo.  Foto: THOMAS SAMSON / AFP

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou recentemente o fim da emergência de saúde do covid-19 e os Estados Unidos encerraram sua exigência de que estrangeiros sejam imunizados contra o coronavírus, encerrando a discussão sobre a decisão de Djokovic de não se vacinar. Ele foi forçado a não participar de alguns dos torneios mais importantes do tênis nos últimos dois anos, e no ano passado foi detido e deportado antes do Aberto da Austrália.

Djokovic nem precisou se preocupar com Rafael Nadal, seu principal rival, perdendo o Roland Garros deste ano, torneio que o espanhol conquistou 14 vezes, por causa de uma lesão. Djokovic continua sua marcha habitual em direção ao troféu — embora o cabeça-de-chave Carlos Alcaraz possa representar problemas.

A tradição de assinar a câmera de televisão ao lado das quadras começou nos anos 2000 como uma forma de os jogadores se conectarem com os torcedores, com frases de “feliz aniversário” ou o nome de algum ente querido. Ocasionalmente, a mensagem expressa uma opinião política. Nos dias anteriores à invasão da Ucrânia pela Rússia, o tenista russo Andrey Rublev escreveu “No War Please” (“Sem guerra, por favro”, em tradução literal) na placa da lente.

Escrevendo em sua língua nativa e desenhando um coração, a mensagem de Djokovic se seguiu a um fim de semana de confrontos violentos entre manifestantes sérvios e forças da Otan que tentam manter a paz na tensa região há 15 anos. Cerca de uma hora depois, durante a parte sérvia de sua entrevista coletiva pós-jogo, Djokovic, cujas declarações políticas anteriores foram impregnadas de nacionalismo sérvio, reforçou. “Sou contra guerras, violência e qualquer tipo de conflito, como sempre afirmei publicamente. Tenho empatia por todas as pessoas, mas a situação com Kosovo é um precedente no direito internacional”, disse. O sérvio chamou Kosovo de “nosso lar, nossa fortaleza” e disse “nossos mosteiros mais importantes estão lá”.

Publicidade

Mural de Djokovic é vandalizado em bairro na Sérvia de maioria com origem albanesa;  Foto: Armend Nimani/ AFP

Quase imediatamente, as declarações provocaram as reações esperadas nas extremidades polarizadas do conflito: a adoração de heróis por parte dos sérvios e a indignação dos albaneses étnicos, que representam a esmagadora maioria da população em Kosovo, mas estão em número muito menor em um punhado de aldeias e pequenas cidades. Os grupos, cristãos ortodoxos de um lado, muçulmanos do outro, lutam intermitentemente pelo controle da região há centenas de anos, desde o Império Otomano.

Jeta Xharra, ativista de direitos humanos em Kosovo, disse em entrevista na terça-feira que as declarações de Djokovic representavam uma “mentalidade medieval” que ela comparou ao pensamento que levou a Rússia a invadir a Ucrânia no ano passado. “É terrível para um homem de sua estatura usar esportes para promover uma mentalidade fascista”, disse ela.

O Comitê Olímpico do Kosovo pediu ao Comitê Olímpico Internacional e à Federação Internacional de Tênis que tomem medidas disciplinares contra Djokovic. Por sua vez, os dirigentes de Roland Garros optaram por ficar fora do conflito. Não há nada no livro de regras que proíbe um jogador de fazer declarações políticas. A Federação Francesa de Tênis (FFT) disse que é “compreensível” que os jogadores discutam eventos internacionais.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

A ministra francesa dos esportes, Amélie Oudéa-Castéra, classificou a declaração de Djokovic como “inapropriada” durante uma entrevista na televisão, dizendo que era “muito ativista” e “muito político” e que “não deveria se envolver novamente”. Por sua vez, Djokovic disse que na quarta-feira que era “o mínimo que poderia ter feito”, em entrevista na sua língua nativa. “Eu sinto a responsabilidade como figura pública – não importa em qual área – de dar apoio.”

Para Djokovic, as declarações tiveram maior impacto porque, com a guerra na Ucrânia atraindo tanta atenção, poucos foram os Bálcãs que estavam cientes de quão elevada estavam as tensões no Kosovo na semana passada — tão intensa quanto a vez que declararam independência, em 2008. Observando os eventos se desenrolarem em Paris enquanto ele se preparava para Roland Garros, Djokovic procurou uma maneira de expressar duas emoções: um desejo de paz e a crença de que Kosovo faz parte da Sérvia.

Tensão nos Bálcãs aumentou nas últimas semanas.  Foto: GEORGI LICOVSKI/ EFE

Djokovic já comentou diversas vezes sobre a experiência traumática de crescer em uma zona de guerra, com bombas caindo não muito longe de sua casa durante o conflito nos Bálcãs na década de 1990. Ele disse que quem viveu essa experiência nunca poderia ser a favor da guerra e da violência. Ele usou essas palavras em janeiro, quando a controvérsia o encontrou no Aberto da Austrália, depois que seu pai, que nasceu em Kosovo, foi flagrado em vídeo posando com um fã de seu filho que segurava uma bandeira russa.

Em 2008, quando Djokovic era um jovem tenista deslanchando na elite do esporte, ele gravou um vídeo expressando solidariedade aos manifestantes em Belgrado, na Sérvia, após a declaração de independência de Kosovo. “Claro, estou ciente de que muitas pessoas discordariam”, recordou na quarta-feira. “Mas é o que é. É algo que eu defendo.”

Publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.