O presidente Donald Trump, que prometeu, entre outras coisas, consertar a economia e alcançar um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia “no primeiro dia da minha presidência”, completará 100 dias no cargo em 29 de abril e até mesmo alguns de seus apoiadores mais ativos admitem que seu segundo mandato tem sido um desastre.
O índice de ações S&P 500 caiu até 10% nesses primeiros três meses de Trump na presidência, o pior declínio no período de qualquer presidente dos Estados Unidos desde a Grande Depressão, de acordo com o Dow Jones Market Data.
As tarifas de Trump sobre países amigos e hostis, que o presidente foi forçado a reverter parcialmente diante de uma onda de críticas, levaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) a prever uma desaceleração econômica global. O FMI agora projeta que o crescimento econômico global cairá de 3,3% no ano passado para 2,8% este ano.

O turismo internacional aos EUA caiu significativamente desde que Trump assumiu o cargo em 20 de janeiro. Notícias de turistas alemães e canadenses presos durante as deportações em massa de Trump assustaram muitos possíveis visitantes.
Em março, o turismo internacional aos EUA caiu quase 12% em comparação ao mesmo mês do ano passado, de acordo com dados oficiais.
Em vez de aumentar o respeito global pelo governo americano, as promessas de Trump de comprar a Groenlândia, tomar de volta o Canal do Panamá e transformar o Canadá no 51.º Estado dos EUA fizeram do presidente motivo de chacota no mundo todo.
Enquanto isso, a China não poderia estar mais feliz com o rompimento de Washington com seus aliados tradicionais e os cortes quase totais na ajuda externa dos EUA e nos programas de apoio à democracia na África e na América Latina.
No cenário interno, os ataques de Trump às instituições democráticas têm aumentado quase diariamente. Seu perdão aos 1,6 mil insurgentes condenados por invadir o Capitólio e ferir dezenas de policiais em 6 de janeiro de 2021 pegou muitos de seus eleitores de surpresa.
Uma nova pesquisa da Fox News, emissora que apoia Trump fervorosamente, mostra que 55% dos americanos desaprovam o desempenho geral do presidente, enquanto 44% aprovam. Outra sondagem, da Pew Research, coloca o índice-geral de aprovação de Trump em 40%.
A crítica mais clara e concisa que ouvi até aqui sobre o desempenho de Trump veio do bilionário de Miami Ken Griffin, um grande doador de Trump.
O magnata republicano disse em 23 de abril que a guerra comercial iniciada por Trump causou enormes danos aos EUA.
“Os EUA eram mais que uma nação. Os EUA são uma marca. Uma marca universal, seja em termos de cultura, poder financeiro ou força militar. Os EUA eram como uma aspiração para a maior parte do mundo. E agora estamos erodindo essa marca”, disse Griffin.
Na verdade, Washington deve muito de seu poder econômico à percepção internacional de que os EUA são um país com instituições fortes, não à mercê dos caprichos do atual ocupante da Casa Branca. Os latino-americanos sempre economizaram em dólares porque consideram a moeda americana um porto seguro contra a instabilidade.
Mas agora muitos estrangeiros começaram a vender dólares e títulos do Tesouro dos EUA para diversificar suas poupanças.
“Nenhuma marca chegou perto de igualar a força do dólar americano ou a solidez e solvência dos títulos do Tesouro”, disse Griffin. “Nós colocamos essa marca em risco.”
Alberto Bernal, estrategista-chefe global da XP Securities e até recentemente um apoiador entusiasmado de Trump, escreveu na semana passada que, se Trump continuar sua guerra comercial, a economia dos EUA provavelmente entrará numa “recessão profunda”.
“Apoiei Trump por suas promessas de cortes de impostos, mas nunca imaginei que ele aumentaria as tarifas para os níveis mais altos desde a Grande Depressão”, disse-me Bernal.
Eu não ficaria surpreso se Trump, diante do desastre que causou, continuasse a recuar e reduzisse ainda mais suas tarifas.
Mas o dano já está feito. Não será fácil restaurar a credibilidade dos EUA após esses primeiros 100 dias de governo errático. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO






