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As eleições mais importantes de 2024: México terá disputa entre mulheres com projetos opostos

Obrador tem popularidade em alta e tenta fazer sucessora, mas enfraqueceu instituições ao longo de seis anos de mandato

Por Jorge C. Carrasco

O México, o segundo maior país da América Latina, vai às urnas este ano em uma disputa política inédita que vai opor duas mulheres. Claudia Sheinbaum, herdeira política do presidente Andrés Manuel López Obrador, enfrentará Xóchitl Gálvez, da coalizão Frente Ampla pelo México.

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A disputa não é só inédita em termos de gênero, mas também na divisão das forças políticas do México. Desde que chegou ao poder em 2018, AMLO, como é conhecido, rompeu com seu Partido da Revolução Democrática (PRD) e criou uma nova legenda, o Movimento de Renovação Nacional (Morena) para fortalecer as bases de seu movimento populista de esquerda.

Obrador conseguiu unir a elite política tradicional do México contra si. Desta vez, tanto o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que controlou a política do país por sete décadas, quanto o Partido da Ação Nacional (PAN) e o PRD estão unidos para tentar destronar o grupo do presidente.

A senadora mexicana Xóchitl Gálvez, candidata da oposição para as eleições presidenciais, fala durante um evento político no monumento do Anjo da Independência, na Cidade do México, domingo, 3 de setembro de 2023.  Foto: Marco Ugarte / AP

Economia em alta

A tarefa opositora não será fácil, já que Obrador tem a popularidade alta. Uma pesquisa de opinião da consultoria Buendía & Márquez indica que o governo teve até dezembro de 2023 cerca de 68% de aprovação. A economia, geralmente um dos fatores decisivos nos períodos eleitorais, teve um desempenho muito superior ao previsto por analistas em 2023.

No início do ano passado, a previsão do mercado era um crescimento do PIB de 0,9%, mas o México encerrou 2023 com a expectativa de crescer 3,4%. Em ano eleitoral, Obrador aposta em obras como o Trem Maia, o Corredor Transístmico, que visam unir as duas costas turísticas do México, e de três novos aeroportos, para melhorar a infraestrutura do país.

Imigração e violência

Por outro lado, a crise de migrantes do México e de outras regiões do mundo para os Estados Unidos tem se intensificado nos últimos anos, causando um aumento significativo no número de vítimas de tráfico humano entre as fronteiras mexicanas. A violência continua sendo um dos maiores problemas do país. Um relatório de 2023 do Índice de Paz México indica que a violência protagonizada pelo crime organizado teve um aumento de 64,2% nos últimos 8 anos, e analistas acreditam que a campanha presidencial deste ano pode ser uma das mais sangrentas da história.

Nas eleições regionais de 2021 no México, por exemplo, ao menos 102 políticos foram assassinados ao redor do país, incluindo funcionários em exercício, candidatos, lideranças sociais locais e até membros das equipes de campanha. Na eleição que levou López-Obrador ao poder, em 2018, foram registrados 152 assassinatos por motivos políticos.

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“O México tem vivenciado um processo político muito intenso desde 2018, quando López-Obrador se tornou presidente na sua terceira tentativa de chegar à presidência”, disse em entrevista ao Estadão Jesús Silva-Herzog Márquez, analista político e professor do Instituto Tecnológico de Monterrey, no México.

A ex-prefeita da Cidade do México e candidata do partido Movimento Regeneração Nacional (MORENA), Claudia Sheinbaum, faz gestos após receber sua inscrição como candidata oficial do MORENA para a eleição presidencial de 2024, na Cidade do México, México, em 19 de novembro de 2023. Foto: Luis Cortes / REUTERS

“O projeto dele era a eliminação da herança política dos últimos 18 anos, afirmando que aquilo não era democracia e que a democracia autêntica, que ouve às pessoas, era a dele, e por tanto a única legítima para chegar à presidência. Ele seguiu durante anos a cartilha populista, conseguiu gerar uma certa estabilidade econômica, e seu governo manteve um considerável apoio popular”, afirmou o especialista.

Instituições mais fracas

Márquez acredita, no entanto, que AMLO, como o presidente é conhecido, enfraqueceu instituições como o Judiciário, a comissão eleitoral e outros órgãos autônomos que foram vistos pelo presidente como um espaço para a oposição ao seu regime.

Daniel Sousa Oliva, pesquisador mexicano da Universidade Veracruzana e doutor ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), concorda com Márquez. “No período eleitoral deste ano, o México parte de uma diminuição na qualidade da democracia, no sentido de que neste último governo houve uma deterioração das instituições democráticas. A Comissão de Direitos Humanos, o Instituto de Transparência, o judiciário, todas essas instituições foram atacadas pelo presidente e suas capacidades foram diminuídas”, disse ele. “Isso complica a eleição de 2024, pois pode haver um risco de utilização de recursos públicos para o apoio do partido do oficialismo”, ponderou ele.

Protesto contra o presidente mexicano Andres Manuel López-Obrador (AMLO): membros da Frente Nacional Anti-AMLO (FRENA), segurando bandeiras do México, participam de um protesto na Cidade do México, México, em 21 de novembro de 2020. Foto: CARLOS JASSO / REUTERS

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Em fevereiro do ano anterior, dezenas de milhares de pessoas praça central da Cidade do México para protestar contra as mudanças na lei eleitoral proposta por López-Obrador. O presidente foi acusado de atacar a democracia após promulgar a reforma, e os manifestantes saíram às ruas vestidos de rosa, gritando slogans como “Não toque no meu voto!”.

Uma vez promulgadas, as reformas reduziriam os salários dos funcionários do Instituto Nacional Eleitoral (INE), o financiamento dos escritórios eleitorais locais e o treinamento dos cidadãos que operam e supervisionam as seções eleitorais no México. O presidente negou que as reformas fossem uma ameaça à democracia, mas Daniel Sousa Oliva afirma que este tipo de ações enfraqueceram o sistema para beneficiar o Estado.

Manifestantes realizam um protesto em apoio ao Instituto Nacional Eleitoral (INE) e contra o plano do presidente Andres Manuel Lopez Obrador de reformar a autoridade eleitoral, na Cidade do México, México, em 26 de fevereiro de 2023. Foto: Daniel Becerril / REUTERS

Para Márquez, é neste contexto de meia década de transformação política — e de consolidação do poder do atual chefe de Estado — que as duas principais candidatas mexicanas buscam ganhar espaço. “De um lado, o partido de López-Obrador (o Morena), que é um partido populista de esquerda, com uma formação quase caudilhista, tem uma candidata popular que foi prefeita da Cidade do México, cujo objetivo é a continuação do projeto do presidente. Do outro lado, vemos uma estranha coalizão de oposição, com partidos que eram inimigos (PAN, PRI, e o PRD), que colocaram a campanha nas mãos de uma mulher muito pragmática, de centro-esquerda, que tem um projeto diferente de país”, disse ele.

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O desafio, segundo o especialista, está no posicionamento das candidatas para conquistas os eleitores pouco politizados de um país que aceita as mudanças dos últimos anos, mas que ainda busca desesperadamente por soluções para seus problemas mais intrínsecos: a violência generalizada e a pobreza.

Quem são as candidatas

Claudia Sheinbaum, de 61 anos, é formada em Física pela Universidade Nacional Autônoma o México (UNAM) e é membro da esquerda intelectual mexicana, apoiadora das causas sociais que defende o partido Morena. Em 2018 foi eleita prefeita da populosa Cidade do México, e em 2022 deixou o cargo quando foi escolhida pelo presidente para participar da campanha pelo cargo executivo neste 2024 — pela constituição mexicana, López-Obrador não pode se candidatar novamente à presidência após o fim do seu mandato único de 6 anos.

Xóchitl Gálvez, de 60 anos, é engenheira em computação pela UNAM e entrou na política durante o governo de Vicente Fox (2000-2006), no qual liderou o Escritório Presidencial para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas. Em 2015, ela foi eleita prefeita de Miguel Hidalgo, um dos distritos mais ricos da capital mexicana. Ela é senadora do México desde 2018, empresária, e se autoproclama liberal e progressista.

Andrés Manuel López-Obrador, à esquerda, e Claudia Sheinbaum, na Cidade do México, na segunda-feira, 20 de novembro de 2017.  Foto: Marco Ugarte / AP

Nas pesquisas de opinião da pré-campanha, a candidata do partido Morena é favorita com uma ampla vantagem. Segundo uma pesquisa publicada em dezembro pela Enkoll, o apoio a Morena teve 48% de preferência bruta, em comparação com os 25% combinados pela coalizão de oposição. Um total de 49% dos entrevistados votaria nela, e 37% deles têm certeza de que não mudarão seu voto. Já Xóchitl Gálvez teve a preferência de somente 23% do eleitorado, e 15% deles têm certeza da sua escolha.

Os analistas ouvidos pelo Estadão indicam que a campanha, que terá início oficialmente em 1º de março, ainda pode contar com uma mudança na forma em que as candidatas são vistas pelo eleitorado. Mas a disputa eleitoral promete ser acirrada, e a sombra das mudanças promovidas pelo último governo podem impactar profundamente no processo.

“Uma diferença que me parece notável em relação ao que temos visto no continente nos últimos 2 ou 3 anos é que, na América Latina, houve uma trajetória onde os opositores foram favorecidos e o oficialismo foi punido nas urnas. No México, o oficialismo tem boas chances de manter o poder nas eleições de 2024. E hoje todas as pesquisas indicam uma vantagem muito sólida da candidata do partido Morena sobre a candidata opositora”, afirmou Márquez.

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