Biden afirma que EUA defenderiam Taiwan militarmente em caso de invasão da China

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Presidente americano fez declaração em resposta a pergunta de repórter durante viagem a Tóquio; democrata mencionou ‘compromisso assumido’ com a ilha do Pacífico

Por Zolan Kanno-Youngs e Peter Baker
Atualização:

THE NEW YORK TIMES, TÓQUIO - O presidente dos EUA, Joe Biden, indicou nesta segunda-feira, 23, que usaria de força militar para defender Taiwan em caso de ataque da China, dispensando a “ambiguidade estratégica” tradicionalmente adotada pelos presidentes americanos e repetindo declarações, de forma ainda mais inequívoca, que sua equipe já tentou refutar no passado.

Em uma entrevista coletiva ao lado do primeiro-ministro do Japão, Fumio Kishida, durante uma visita a Tóquio, Biden sugeriu que estaria disposto a ir mais longe em nome de Taiwan do que a ajuda concedida à Ucrânia, a quem forneceu dezenas de bilhões de dólares em armas, bem como assistência de inteligência para ajudar a derrotar os invasores russos, mas se recusou a enviar tropas americanas.

“Você não queria se envolver militarmente no conflito da Ucrânia por razões óbvias”, disse um repórter a Biden. “Você está disposto a se envolver militarmente para defender Taiwan se for necessário?”

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O presidente dos EUA, Joe Biden, é recebido com honras no Palácio Akasaka, em Tóquio.
O presidente dos EUA, Joe Biden, é recebido com honras no Palácio Akasaka, em Tóquio. Foto: Eugene Hoshiko/ AP

“Sim”, respondeu Biden categoricamente.

“Você está?” o repórter acompanhou.

“Esse é o compromisso que assumimos”, disse ele.

Poucas horas depois, o governo chinês respondeu às declarações do presidente americano e alertou o democrata para o risco de estar brincando com fogo ao falar sobre um envolvimento militar em Taiwan, considerado por Pequim uma província rebelde. “Se os Estados Unidos usarem a carta de Taiwan para conter a China, acabarão se queimando”, disse Zhu Fenglian, porta-voz do executivo chinês para as relações com a ilha.

Mais cedo, a chancelaria chinesa já havia se posicionado sobre a questão: “Em questões relacionadas à soberania da China, integridade territorial e outros interesses centrais, a China não tem espaço para concessões”, disse Wang Wenbin, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, a repórteres, acrescentando que ninguém deve subestimar a determinação da China de se defender.

A declaração do presidente, feita sem ressalvas ou esclarecimentos, surpreendeu alguns membros de seu próprio governo que assistiam na sala, que não esperavam que ele prometesse tal determinação de forma tão aberta. Os Estados Unidos historicamente alertaram a China sobre o uso da força contra Taiwan, embora geralmente tenham permanecido vagos sobre até que ponto ajudaria a ilha em tal circunstância.

A Casa Branca rapidamente tentou negar que o presidente quis dizer o que parecia estar dizendo. “Como o presidente disse, nossa política não mudou”, disse o gabinete de Biden em comunicado enviado às pressas aos repórteres. “Ele reiterou nossa Política de Uma China e nosso compromisso com a paz e a estabilidade em todo o Estreito de Taiwan. Ele também reiterou nosso compromisso sob a Lei de Relações de Taiwan de fornecer a Taiwan os meios militares para se defender”.

Mas os comentários de Biden foram além de simplesmente reiterar que os Estados Unidos forneceriam armas a Taiwan, porque a questão foi colocada em contraste com o que ele havia feito com a Ucrânia. O presidente não fez nenhum esforço para qualificar o que pretendia quando concordou em “se envolver militarmente”.

Na verdade, ele repetiu a ideia de que seu compromisso com Taiwan foi além do que ele havia feito pela Ucrânia. “A ideia de que isso pode ser tomado à força, apenas à força, simplesmente não é apropriado”, disse ele sobre Taiwan. “Isso deslocaria toda a região e seria mais uma ação semelhante ao que aconteceu na Ucrânia. E por isso é um fardo ainda mais forte.”

Joe Biden e Fumio Kishida participam de coletiva de imprensa no Palácio Akasaka, em Tóquio.
Joe Biden e Fumio Kishida participam de coletiva de imprensa no Palácio Akasaka, em Tóquio.  Foto: Jonathan Ernst/ REUTERS

Biden ignorou a imprecisão praticada por seus antecessores em relação à China e Taiwan antes de sua presidência. Em agosto passado, ao tranquilizar aliados após sua decisão de abandonar o governo do Afeganistão, ele prometeu que “nós responderíamos” se houvesse um ataque contra um membro da Otan e depois acrescentou: “o mesmo com o Japão, o mesmo com a Coreia do Sul, o mesmo com Taiwan”.

Taiwan, no entanto, nunca recebeu as mesmas garantias de segurança dos EUA que Japão, Coreia do Sul ou aliados da Otan, e por isso o comentário foi visto como significativo. Dois meses depois, Biden foi perguntado durante um evento televisionado se os Estados Unidos protegeriam Taiwan de um ataque. “Sim, temos o compromisso de fazer isso”, disse ele. Isso também desencadeou um esforço frenético da Casa Branca para recuar de sua observação, insistindo que ele não estava mudando a política de longa data.

De fato, o presidente criou o hábito de desconsiderar as precauções que sua equipe preferiria que ele tomasse ao enfrentar adversários no exterior. Em março, Biden foi além de seu governo ao chamar o presidente Vladimir Putin da Rússia de criminoso de guerra em resposta à pergunta de um repórter. Apenas uma semana depois, ele causou alvoroço quando improvisou uma frase no final de um discurso na Polônia declarando que Putin “não pode permanecer no poder”.

A invasão russa da Ucrânia tem sido observada de perto na Ásia por quaisquer lições que possam trazer para a ambição de longa data da China de reincorporar Taiwan. Se a Rússia tivesse conseguido conquistar a Ucrânia, que já foi parte de seu império, alguns temiam que ela oferecesse um precedente perigoso. No entanto, o fracasso russo em assumir o controle de todo o país e a resposta unificada do Ocidente podem servir como uma bandeira vermelha para aventuras militares do tipo.

A China, que considera Taiwan uma de suas províncias há mais de sete décadas, enviou 14 aeronaves para a zona de defesa aérea da ilha na semana passada, no dia em que Biden chegou à Ásia, segundo o Ministério da Defesa de Taiwan, parte de um padrão de incursões crescentes no último ano. Taiwan enviou caças em resposta, mas nenhum conflito direto foi relatado.

A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, fala com pilotos da força aérea do país em 1° de abril.
A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, fala com pilotos da força aérea do país em 1° de abril.  Foto: Ritchie B. Tongo/ EFE

O Ministério das Relações Exteriores de Taiwan recebeu os últimos comentários de Biden na segunda-feira, expressando “gratidão” ao presidente por afirmar o “compromisso sólido dos Estados Unidos com Taiwan”. Em um comunicado, o ministério disse que Taiwan “continuará a melhorar suas capacidades de autodefesa e aprofundar a cooperação com os Estados Unidos, o Japão e outros países com ideias semelhantes”.


Os comentários de Biden vieram apenas uma hora antes dele apresentar formalmente um novo Quadro Econômico Indo-Pacífico de 13 países, destinado a servir como um contraponto à influência chinesa na região. Encerrando o evento, Biden ignorou perguntas gritadas sobre como seria uma intervenção militar em Taiwan e se ele estava preparado para colocar tropas americanas no terreno.

O premiê japonês, que falou em termos fortes sobre a China durante a coletiva de imprensa, expressou preocupação com um conflito no estilo da Ucrânia sobre Taiwan. Qualquer “tentativa unilateral de mudar o status quo pela força, como a agressão da Rússia contra a Ucrânia desta vez, nunca deve ser tolerada no Indo-Pacífico”, disse ele.

No entanto, ele manteve o posicionamento tradicional antes dos comentários de Biden sobre a política EUA-Japão na ilha ainda ser a mesma. “A posição básica de nossos dois países sobre Taiwan permanece inalterada”, disse ele.

O premiê japonês, Fumio Kishida, acompanha o presidente Joe Biden durante visita a Tóquio.
O premiê japonês, Fumio Kishida, acompanha o presidente Joe Biden durante visita a Tóquio. Foto: Evan Vucci/ AP

A declaração improvisada de Biden colocou o Japão em uma posição complicada. Com Taiwan a apenas 100 quilômetros de Yonaguni, a ilha japonesa habitada mais ocidental, uma guerra com a China traz enormes consequências potenciais para o Japão, que repudia conflitos armados desde sua derrota na 2ª Guerra.

“Certamente, o Sr. Biden disse ‘a América está dentro’”, disse Narushige Michishita, vice-presidente do Instituto Nacional de Pós-Graduação para Estudos Políticos em Tóquio. “Isso significa que o Japão também estará.”

Embora Kishida não seja tão direto quanto Biden, acrescentou, seu governo pretende aumentar o orçamento de Defesa, enquanto discute planos para adquirir armas capazes de atingir locais de lançamento de mísseis em território inimigo e realizar mais exercícios com as forças americanas.

“Os estrategistas chineses devem levar em conta a possibilidade do Japão se envolver enquanto planejam e decidem se atacam ou não Taiwan”, disse Michishita. Forçar a China a considerar a perspectiva de enfrentar forças americanas e japonesas, disse ele, acabaria por “aumentar a possibilidade de paz e estabilidade no Estreito de Taiwan”.

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