Brasil perdeu chance de apresentar metas mais ousadas na cúpula do clima, dizem especialistas

Bolsonaro apresentou metas nesta quinta em cúpula de líderes sobre o clima; empresário e ex-ministro também defenderam plano nacional para desenvolvimento e proteção da Amazônia

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Por Paulo Favero
3 min de leitura

O governo brasileiro perdeu uma grande chance de deixar claro seu compromisso contra o desmatamento na Cúpula dos Líderes sobre Clima, segundo especialistas que participaram nesta quinta-feira, 22, do evento O mundo de olho na Amazônia: Ameaças e oportunidades para o Brasil, promovido pela Fundação Fernando Henrique Cardoso. A política ambiental da gestão Jair Bolsonaro tem sido alvo de críticas no Brasil e no exterior. 

Em pronunciamento na cúpula nesta quinta, Bolsonaro estabeleceu o compromisso de atingir a neutralidade das emissões de gás carbônico até 2050, mas sem um plano concreto para cumprir essas metas. Outros países já haviam apresentado metas mais ambiciosas anteriormente. O presidente brasileiro também falou em zerar o desmatamento ilegal até 2030, mas voltou a cobrar recursos estrangeiros para intensificar o combate aos crimes ambientais. A reunião foi convocada pelo presidente americano Joe Biden, com a participação de governantes de 40 países, incluindo o Brasil.

Brasil se comprometeu em reduzir o desmatamento ilegal até 2030. Foto: Gabriela Biló/Estadão

"O Brasil desperdiçou uma grande oportunidade. Era o momento de anunciar que estamos de volta aos trilhos", comentou Rachel Biderman, vice-presidente para as Américas da Conservação Internacional. Ela - advogada, mestre em Ciência Ambiental e em Direito Internacional, e doutora em Gestão Pública e Governo - lamentou os recordes de desmate e incêndios florestais dos últimos anos, lamentando a postura federal no combate a esses problemas.

Para Beto Veríssimo, outro especialista na área, o governo brasileiro deveria ter apresentado proposta mais ambiciosa. "A Amazônia tem 20% de sua área devastada e outros 20% constituídos por florestas degradadas. O Brasil poderia ter dito hoje que estaria caminhando para o desmatamento zero nesta década. Passou a imagem de que é um País que não cuida bem do seu patrimônio", afirmou o cofundador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Engenheiro agrônomo e pesquisador visitante da Universidade Princeton (EUA), ele reforça que a atividade ilegal de cortar árvores da Amazônia precisa ser combatida. "O desmatamento não tem finalidade produtiva. É roubo de floresta pública. Em março, o desmatamento cresceu 216%... Enquanto está todo mundo em casa em isolamento social (por causa da pandemia), quem desmata está lá", comentou.

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Para Raul Jungmann, presidente do IREE Soberania e Clima (ISC), é preciso combater esses problemas com um grande projeto nacional para a região. "A Amazônia é um vazio de poder. E, ao mesmo tempo, pouco se fala no Brasil nacionalmente sobre a Amazônia. O Brasil nunca soube o que quer para a Amazônia, nunca teve um projeto nacional para lá. Precisamos disso, estruturado, para o desenvolvimento sustentável da região", afirmou o político, que já foi ministro da Defesa, da Segurança Pública e da Reforma Agrária, além de presidir o Incra e o Ibama.

Outro convidado do evento, Denis Minev, transmitiu sua visão de empreendedor na região - ele é diretor presidente das Lojas Bemol. "Não sabemos usar bem a floresta, essa é uma verdade. Seria importante redescobrir uma identidade brasileira através da Amazônia", indicou ele, que também já foi secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Estado do Amazonas e um dos fundadores da Fundação Amazônia Sustentável e da Plataforma Parceiros Pela Amazônia.

Minev aproveitou para citar exemplos de ações que podem ajudar no desenvolvimento da Amazônia sem acabar com sua floresta. "Precisaria de iniciativas de 'rematamento', para recuperação de áreas degradadas, com sistemas agro-florestais que permitem que você encontre equilíbrio para desenvolvimento econômico. Poderia ter um plano nacional disso. Acredito que precisamos de projetos redentores, de uma Amazônia como solução para o Brasil. Mas, infelizmente, não estamos usando direito os recursos humanos nem os naturais para isso."

O mundo de olho na Amazônia: Ameaças e oportunidades para o Brasil teve a participação ainda de outros convidados e contou com a abertura feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele defendeu que é "preciso cuidar da Amazônia, da sua riqueza, sem achar que é intocável". Segundo ele, o desafio será encontrar o equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental e é melhor que os brasileiros façam as políticas de proteção "do que os estrangeiros venham para cá fazer isso".

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