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Cartéis mexicanos disputam domínio pelo comércio de abacates, usados para lavar dinheiro

Consultoria diz que o produto corre o risco de se tornar "mercadoria de risco", diz o jornal 'The Guardian'; 19 foram mortos em chacina em agosto

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Por Redação
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CIDADE DO MÉXICO - O abacate está se tornando a mais nova frente de conflito entre cartéis mexicanos. Segundo estudo da consultoria britânica Verisk Maplecroft, publicado nesta segunda-feira, 30, pelo jornal The Guardian, o “ouro verde” é responsável pela morte de 19 pessoas mutiladas na cidade de Uruapan, no Estado de Michoacán, em agosto. 

Mulher segura um abacate recém colhido em uma plantação em Tacambaro, no estado de Michoacan, México. Foto: Alan Ortega - 7 de junho de 2017/REUTERS

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Nove corpos estavam pendurados seminus em uma ponte. Inicialmente, havia a suspeita de que os assassinatos tinham ocorrido em razão de uma disputa de gangues de drogas. No entanto, a chacina, promovida pelo cartel Jalisco Nueva Generación, ocorreu pelo domínio do comércio local de abacate. 

O México é o maior produtor de abacate do mundo, especialmente a variedade conhecida como avocado. As exportações renderam US$ 2,4 bilhões no ano passado. O boom vem do crescimento da demanda na China, que aumentou seu consumo mil vezes entre 2011 e 2017. A rentabilidade também favorece. A fruta rende ao agricultor mexicano até 12 vezes o salário mínimo. Mas há ainda uma razão mais prosaica: a lavagem de dinheiro. 

Segundo Alfonso Partida Caballero, especialista em segurança pública da Universidade Autônoma de Guadalajara, o comércio é quase todo em dinheiro vivo e, para plantar o produto, não é necessária autorização de ninguém. “O Estado não tem nenhum controle. O dinheiro do crime organizado em Michoacán é todo semeado em abacate. Se o traficante planta mil árvores ou 10 mil, se colhe uma ou 10 toneladas, quem controla?”

Diversificação. O crescimento da indústria do abacate também vem às custas do trabalho escravo, infantil, além do desmatamento de florestas protegidas e da deterioração dos lençóis freáticos. “Em Michoacán, o abacate fornece a renda diversificada que os cartéis obtêm com o roubo de combustível em outras partes do México”, disse Christian Wagner, analista da Verisk Maplecroft.

De acordo com Falko Ernst, analista do International Crisis Group, o abacate faz parte do portfólio do s cartéis do México há décadas. “Mas não é apenas o abacate. O crime organizado mexicano há muito tempo vem diversificando suas receitas”, disse. “Quando você controla um território, explora qualquer commodity disponível: limão, mamão, morango, além de extração de madeira e mineração ilegal.” 

O México lidera a lista de exportadores mundiais de abacate, à frente da Holanda, um importante centro exportador não produtor, e do Peru. De acordo com o The Guardian, a maioria dos frutos do México vai para os EUA, apesar da produção doméstica na Califórnia e na Flórida. Os abacates nos supermercados do Reino Unido vêm principalmente da Espanha, Israel, África do Sul, Peru e Chile. A fruta também está em alta demanda na China, que importou mil vezes mais do produto em 2017 do que há seis anos.

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Netflix

Na Netflix, a série Rotten trata dos cartéis do fruto no México. Em A Guerra do Abacate, o primeiro episódio da segunda temporada, é mostrado como a popularidade do fruto levou a onda de violência dos cartéis para os produtores de Michoacán.

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